O Português é falado em algumas das regiões do mundo com a biodiversidade mais elevada, como o Brasil, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Um novo estudo defende que esta língua deve ser urgentemente reconhecida como prioritária nos tratados e negociações internacionais.
Um estudo publicado a 29 de setembro na revista científica Conservation Letters alerta para o facto das barreiras linguísticas poderem estar a comprometer metas globais de conservação da natureza em regiões com elevada biodiversidade.
Uma equipa de cientistas portugueses alerta para a urgência de se incluírem e utilizarem novos idiomas nos tratados internacionais que visam a proteção de espécies ameaçadas no mundo.
A ausência mais notória recai precisamente sobre a língua portuguesa, a par da malaia, por serem ambas faladas em regiões do mundo com elevada biodiversidade – como os vários países da CPLP (distribuídos pela Europa, América, África e Ásia) e o Sudeste Asiático – das quais dependem muitos dos objetivos estabelecidos para travar a extinção de espécies nas próximas décadas.
A investigação – realizada por Diogo Veríssimo e Ricardo Rocha da Universidade de Oxford, e Maria Dias, do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa – analisou a distribuição de milhares de espécies da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e cruzou estes dados com as línguas oficiais e mais faladas nos diferentes países onde ocorrem.
Os resultados revelaram que, muito embora o Espanhol e o Inglês continuem a ser línguas centrais para a conservação à escala global, cobrindo áreas onde ocorre cerca de 25% da biodiversidade do planeta, o Francês, o Português e o Malaio surgem logo a seguir com cerca de 10%.
Enquanto os três primeiros idiomas gozam já de estatuto oficial nos tratados internacionais, o Português e o Malaio não são contemplados, apesar de superarem a importância de outras línguas oficiais, como o Russo, o Árabe ou o Chinês nesta matéria.
Este desfasamento linguístico significa que comunidades, técnicos e investigadores de países com elevada diversidade – como o Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste, Malásia ou Indonésia – ficam em desvantagem na negociação e no acesso a documentos científicos, jurídicos e políticos que orientam a aplicação das medidas internacionais para a conservação, como as do Quadro Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal até 2030.
“A língua portuguesa sobressai no panorama da biodiversidade internacional, não só por se falar em países muito ricos do ponto de vista natural, mas também porque engloba regiões geográficas muito distintas – do Brasil a Timor-Leste, de Portugal a Moçambique”, comentou, em comunicado, Maria Dias. “O leque de espécies que vivem por isso em regiões onde se fala português é enorme.”.
Para ultrapassar este desafio, os autores defendem um sistema de quatro níveis de prioridade linguística, que integre: línguas francas globais (como Inglês e Francês), as línguas oficiais da ONU, línguas prioritárias para a biodiversidade (como Português e Malaio) e línguas locais e indígenas, vitais para a ação comunitária.
Atentos ao avanço da inteligência artificial, os autores lembram que pode ser arriscado confiar apenas em traduções automáticas, sobretudo em documentos técnicos e legais com termos e conceitos muito próprios que podem dar azo a interpretações erradas.
O estudo recomenda que sejam aplicadas soluções híbridas, que combinem ferramentas digitais com revisão especializada, e também iniciativas colaborativas de tradução realizadas localmente capazes de facilitar a compreensão e apropriação dos conteúdos.
“A biodiversidade não fala apenas Inglês, Francês ou Espanhol. Fala também, por exemplo, Português e Malaio”, lembrou Diogo Veríssimo. Para o investigador da Universidade de Oxford, “dar espaço a esses ‘idiomas da vida’ nos fóruns internacionais onde são desenhadas as políticas de proteção da biodiversidade é mais do que uma questão de equidade – é uma condição essencial para mobilizar comunidades e países que estão na linha da frente da conservação”.
Os autores lembram que a missão de travar a perda de biodiversidade depende da ação local de cada Estado e comunidade, do seu compromisso e envolvimento. Derrubar barreiras linguísticas ajuda a aproximar e a mobilizar as pessoas que podem fazer a diferença nos seus países.
Além dos investigadores portugueses, o estudo é assinado também por Carolina Hazin, bióloga brasileira especialista em políticas internacionais de ambiente.