A toupeira-de-água, pequeno mamífero Em Perigo de extinção, terá sido uma das grandes vítimas dos incêndios que devastaram o noroeste peninsular. O biólogo espanhol Jorge González Esteban, um dos maiores especialistas mundiais na espécie, alerta para um “desastre colossal” para a espécie.
O alerta foi dado na agência espanhola de notícias EFE Verde por Jorge González Esteban, biólogo da Desma Estudios Ambientales e um dos maiores especialistas mundiais na espécie.
Fala em “golpe fatal” para a toupeira-de-água (Galemys pyrenaicus), um pequeno mamífero semi-aquático endémico da Península Ibérica, cujos poucos habitats que ainda tinha estão a ser reduzidos a cinzas.
“Arderam algumas das melhores bacias hidrográficas para a toupeira-de-água na Galiza, Astúrias, Leão, Zamora, Palência e Estremadura”, lamentou Jorge González Esteban à EFE.
Quando chegarem as chuvas, estas arrastarão cinzas e sedimentos finos para os rios, agravando a qualidade da água. Algumas espécies, como a toupeira-de-água, não conseguirão resistir ao embate, explicou González Esteban. Sublinhou ainda que, embora não seja um fenómeno novo, desta vez estamos perante um desastre “colossal e sem precedentes”.
“A toupeira-de-água morre, em silêncio, discreto como ela é. Sem que ninguém se importe. Como ele tem feito há 50 anos. Que país que nos está ficando! Onde viveremos quando tudo forem cinzas?”, desabafou o biólogo nas redes sociais.
Impacto brutal nos rios
Os incêndios devastaram montanhas em Ourense, Astúrias, Leão, Zamora, Palência e Cáceres, reduzindo a cinzas partes das bacias de rios essenciais para a toupeira-de-água: Carrión, Pigüeña, Narcea, Sil, Tera, Esla, Támega, Ambroz e Jerte.
Entre as paisagens afetadas contam-se: a Montanha Palentina, os Picos da Europa, Degaña, Luna, Omaña, Sanabria, Chandrexa de Queixa, Valdeorras, Peña Trevinca, La Cabrera, entre outras.
“O ano de 2025 será lembrado como o ano dos grandes incêndios, embora poucos reparem no impacto brutal que tiveram sobre os nossos rios e os seres que deles dependem (…) Algumas espécies conseguirão recolonizar quando as condições melhorarem, mas outras, como a toupeira-de-água, desaparecerão para sempre” se nada for feito, alertou à agência espanhola.
Ao impacto imediato das chamas na vegetação e no solo seguir-se-ão, dentro de semanas, os efeitos do arrastamento de cinzas e sedimentos pelas chuvas de outono, que transformarão os rios num cenário “infernal” para a fauna e flora destes ecossistemas montanhosos.
“A água dos rios transformar-se-á num ‘caldo espesso’, onde a vida mal resiste: o pH aumentará, limos e areias cobrirão o leito, o oxigénio dissolvido diminuirá, a turbidez bloqueará a luz e o excesso repentino de nutrientes provocará a proliferação de algas e bactérias oportunistas.”
Mais de 20% do habitat já queimado
A toupeira-de-água vive apenas em rios e ribeiras de montanha nos Pirinéus (Andorra e França), no Centro e Norte de Espanha e no Norte de Portugal.
Nos últimos 50 anos, perdeu 80% da sua área de distribuição e hoje sobrevive em pequenos núcleos isolados.
Em Portugal, os alarmes já soaram. Em 2018, um estudo publicado a 20 de Junho na revista científica Animal Conservation por uma equipa de cinco investigadores do CIBIO-InBIO avisou que nos últimos 20 anos, este animal desaparecera de 63,5% dos locais onde existia nas bacias do Tua e do Sabor.
Agora, o impacto dos incêndios pode ser devastador. “Embora ainda seja cedo para medir o alcance total da catástrofe, os incêndios deste ano já afetaram mais de 20% da área que atualmente ocupa em Espanha”, sublinhou González Esteban.
Em algumas das bacias afetadas, ainda persistem troços intactos que poderão servir como focos de recolonização. No entanto, noutras, o fogo poderá ter dado o golpe final a populações extremamente frágeis, como as do Ambroz e do Jerte (em Cáceres), ou as isoladas por grandes albufeiras, como as do rio Yuso (em Leão) e do rio Queixa (em Ourense).
Uma jóia ignorada do património natural
Para o biólogo, é “alarmante” que a tragédia que isto representa para uma espécie tão singular — “uma verdadeira jóia do nosso património natural” — não esteja a receber a atenção que merece, “nem por parte das administrações responsáveis por proteger os nossos rios, nem por parte dos meios de comunicação ou das principais organizações ambientais”.
“É imprescindível que a administração convoque de imediato um gabinete de crise, sem atrasos devido às férias, no qual se reconheça a gravidade da situação, se planeiem medidas para mitigar a previsível escorrência do outono, se avalie o impacto em cada população e se estude o resgate dos indivíduos que ainda sobrevivam em núcleos onde o seu futuro é inviável”, defendeu.
Em Portugal, a toupeira-de-água está classificada como Em Perigo de extinção. Este pequeno mamífero, que vive junto aos rios mais límpidos e frescos, está confinado a meros refúgios. A espécie tem hoje uma área de ocupação estimada inferior a 500 km2. Segundo o Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental, publicado em 2023, “mais de 30 % das populações podem estar isoladas, separadas mais de 20 km por habitat desfavorável e confinadas às secções de montante (montanhosas) das sub-bacias onde ocorre”.
Em Janeiro deste ano, decorreu em Madrid, Espanha, uma reunião para o desenvolvimento de uma Estratégia Transfronteiriça para a conservação da toupeira-de-água, organizada pela União Internacional para Conservação da Natureza (UICN). A reunião – onde participaram mais de 50 peritos de Portugal, Andorra, Espanha e França – teve como objetivo principal criar uma estratégia de trabalho transfronteiriça em rede para garantir a conservação desta espécie.