Gorilas. Foto: Raquel Costa

O Bom, o Mau e o Vilão do Ecoturismo: O frágil sucesso do turismo de gorilas e a vulnerabilidade desta espécie

Raquel Costa, primatóloga no Japan Monkey Center, em Aichi, escreve sobre a complexidade do ecoturismo para a conservação dos gorilas em África e revela os resultados de um estudo sobre o impacto dos turistas nestes animais.

Os gorilas das montanhas desempenham um papel ecológico importante na dispersão de sementes e na restauração florestal dos habitats onde vivem. Actualmente, restam apenas cerca de 1.000 indivíduos, distribuídos por duas populações isoladas entre si, entre o Uganda, Ruanda e República Democrática do Congo (RDC).

A recuperação desta espécie faz-se de forma muito lenta pois as crias dependem da mãe durante vários anos, muitas vezes sendo alvo de infanticídio, levando a que a grande maior parte das fêmeas se reproduza poucas vezes ao longo da vida.

Macho adulto (de costas prateadas) e juvenil órfão, do grupo Mubare, Bwindi NP, Dezembro 2015. Foto: Raquel Costa

Sem predadores naturais além dos humanos, os gorilas das montanhas historicamente sofreram com a colonização e a crescente globalização dos mercados. Os caçadores (contratados por estrangeiros) forneciam partes do corpo e gorilas bebés como itens de luxo para os mercados internacionais. Este tipo de caça ainda ameaça várias espécies de gorilas e outros símios actualmente.

Restavam apenas 400 gorilas de montanha na década de 1980. Apesar de inúmeras tentativas de preservar espécimes em zoos, nenhum indivíduo sobreviveu à idade adulta. A susceptibilidade a doenças, ao stress e a dificuldade em atender às suas necessidades alimentares (grandes quantidades de vegetação herbácea) contribuiram para a elevadíssima mortalidade destes animais em cativeiro. Mesmo no santuário de Senkwekwe (Virunga) dos 6 órfãos resgatados, restam apenas 2 sobreviventes, apesar de o santuário ser um misto de cativeiro e vida livre em floresta.

Além destes desafios e dos danos contínuos que as explorações de petróleo e mineração causam ao seu habitat, os gorilas das montanhas enfrentam o risco constante da guerra. O genocídio no Ruanda em 1994 e a prolongada instabilidade civil na RDC levaram ao deslocamento de refugiados para áreas adjacentes aos parques onde vivem os gorilas. O Parque Nacional de Virunga tornou-se um campo de batalha e refúgio para milícias onde, nas últimas duas décadas, mais de 170 guardas sacrificaram as suas vidas para proteger estas florestas. Neste momento, o crescente conflicto entre estes países deslocou cerca de 7.2 milhões de refugiados na região este da RDC.

O turismo de gorilas pode promover discussões positivas entre estes países, sobre a proteção desses animais. Com a popularidade do ecoturismo, as entidades locais geram receita oferecendo a observação de gorilas selvagens aos turistas estrangeiros. Desta forma, os gorilas financiam sua própria protecção (juntamente com a de outras espécies na região) oferecendo meios de subsistência alternativos às populações locais. O turismo de gorilas é considerado uma opção sustentável e ambientalmente amigável, em comparação aos interesses destrutivos do petróleo e da mineração.

No entanto, o turismo de gorilas das montanhas só pode ser sustentável (e eticamente correto) se conseguirmos garantir a saúde e o bem-estar dos “animais embaixadores” (aqueles habituados aos turistas). Para prevenir a transmissão de doenças e minimizar o stress nos animais, os conservacionistas desenvolveram um conjunto de diretrizes que os governos locais implementaram (parcialmente) durante as visitas turísticas. Essas recomendações envolvem restringir o acesso a turistas doentes ou apresentando sintomas iniciais de doença, limitar os grupos de turistas a um máximo de oito pessoas por visita, permitir apenas uma visita por dia por um máximo uma hora de contato com os gorilas e manter uma distância segura de, pelo menos, 7 metros dos animais.

Apesar dessas regulamentações de segurança, patógenos de origem humana têm assolado a população habituada. Isso resultou tragicamente na morte gorilas, assim como de chimpanzés, em regiões vizinhas. Ao contrário das espécies de gorilas de planície, que perderam um terço de sua população para o Ébola, os gorilas das montanhas, até agora e por sorte, foram poupados a esta doença. No entanto, isso não implica imunidade ao Ébola e outras graves ameaças à saúde que são partilhadas com os humanos. Os gorilas das montanhas têm surtos respiratórios recorrentes, muitas vezes de origem humana. Durante a última pandemia global, os parques foram forçados a fechar temporariamente para prevenir a contaminação.

O nosso estudo começou por investigar a efectiva adesão dos turistas à regra dos 7 metros no Parque Nacional Impenetrável de Bwindi, no Uganda. Observamos que os turistas raramente respeitam essa regra, permanecendo cerca de 60% do tempo a menos de 3 metros dos gorilas. Com base nestes dados, procuramos correlacionar o comportamento dos animais com a presença e ausência dos turistas por um lado e, por outro, com a distância aos gorilas (iniciada pelos turistas) durante as visitas. As análises indicaram que os gorilas apresentam sinais comportamentais de stress, especialmente quando os turistas se aproximam a menos de 3 metros, respondendo com ataques ou evitando os turistas, o que pode aumentar o risco de transmissão de doenças. Importante salientar que, ao longo de um ano de colecta de dados, nunca observamos um ataque quando as regras eram respeitadas. A coesão social do grupo foi também afectada, sendo que os animais em momentos de maior distúrbio dos turistas, encaram-nos como um risco e procuram o apoio social uns dos outros.

Os resultados ressaltam a importância de mensagens firmes e claras para desencorajar a aproximação irresponsável dos turistas, sugerindo que a educação sobre turismo ético deve começar antes da entrada na floresta e deve passar por uma maior imposição das regras aquando da visita. É possível que seja necessário um aumento do treino e da valorização dos guias para que estes se sintam mais responsáveis de afirmar as regras. Por outro lado, há quem defenda ainda o aumento do preço das autorizações para as visitas, algo que o Ruanda já fez.

 O turismo de gorilas desempenhou um papel significativo no aumento da população de gorilas das montanhas nas últimas décadas, contribuindo para a reclassificação da espécie de Criticamente em Perigo de extinção para Em Perigo de extinção. Isso sublinha a necessidade de um compromisso contínuo e sustentável com o turismo de gorilas, priorizando a saúde e o bem-estar dos gorilas para proteger o património natural (animais e florestas inclusos) das comunidades locais para as gerações futuras.


Saiba mais sobre Raquel Costa.

Sou primatóloga, com foco em bem-estar animal e conservação das espécies. Comecei a estudar comportamento animal, especialmente nos primatas, ainda durante a minha licenciatura (2011) pela Universidade do Porto, realizando estágio na Fundação Mona (Espanha). Estudei várias espécies, desde os lémures aos chimpanzés, em zoológicos portugueses e institutos japoneses, durante meu mestrado e estágios. No entanto, foi apenas durante o meu doutoramento pela Universidade de Quioto que pude estudar primatas selvagens.

Para meu doutoramento (2021) e pós-doutoramento (2023, Japan Monkey Centre), ambos financiados pelo Ministério da Educacao Japonês, estudei as interações entre pessoas e gorilas, em habitat selvagem e cativeiro, respectivamente.

O meu objetivo sempre foi agregar a investigação à aplicação prática dos seus resultados, visando a melhoria das condições de vida dos animais. Ainda em Portugal, vi nascer o Grupo de Investigação para a Cognição em Primatas, como um impulsionador da área para estudantes portugueses e no qual me mantenho afiliada.

Procurei sempre aprender mais através da teoria, mas principalmente da prática, com contato próximo com os animais em diversos contextos (selvagem, cativeiro, etc.). Aos 35 anos, sou mãe e investigadora, continuamente em busca de fundos para desenvolver uma área ainda pouco explorada (interações entre espécies), que se encontra dividida entre diferentes ciências (Biologia, Antropologia, Ciências Sociais, Psicologia, etc.) e, muitas vezes, confusa em termos de métodos e terminologias. Mais recentemente, comecei a dedicar-me mais à comunicação científica e à valorização do papel da mulher como cientista através do Movimento Mulheres pela Primatologia. O meu objetivo é estabilizar-me como investigadora, contribuindo igualmente para a academia e para a sociedade como um todo.