Pode a tartaruga marinha voltar às praias de Portugal?

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Daniel Veríssimo, um economista maravilhado com a vida selvagem, e o biólogo Pedro Ribeiro falam-nos sobre a tartaruga que já nidificou em Portugal e sobre a tartaruga que o poderá vir a fazer.

Nas águas portuguesas e na costa da Península Ibérica ocorrem cinco das sete espécies de tartaruga marinha presentes no mundo: a tartaruga-comum (Caretta caretta – VU), a tartaruga-verde (Chelonia mydas – EN), a tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata – CR), a tartaruga-de-Kemp (Lepidochelys kempii – CR) e a tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea – VU).

Tanto quanto se sabe, apenas a tartaruga-comum chegou a nidificar nas praias do Sul de Portugal mas com o aumento da temperatura média do mar uma outra espécie pode vir a ter as condições para nidificar num futuro próximo, a tartaruga-verde.

Tartaruga-verde (Chelonia mydas). Foto: Zygy/WikiCommons

No passado, as tartarugas marinhas estavam presentes nos cinco oceanos em grandes números, às centenas de milhões, do Atlântico ao Pacífico, das Ilhas do Índico até às Caraíbas. Mas apesar de vaguearem ao longo dos oceanos regressam a praias amenas e temperadas para colocar os ovos. Nas florestas tropicais da Costa Rica, jaguares caçam tartarugas que regressam aos milhares à costa. A abundância sazonal de ovos na praia é um festim para muitos animais, de gaivotas a caranguejos e até tubarões. Os ovos que não eclodem são um importante fertilizante para a vegetação dunar, uma importante barreira contra a erosão costeira.

Na Península Ibérica, a tartaruga-comum e a tartaruga-verde nidificavam nas praias do Mediterrâneo e nas Ilhas Baleares, ao longo da Costa Sul Atlântica de Tarifa até Sagres em águas mais frescas; há ainda registos antigos de nidificação de tartaruga-comum.

Ambas as espécies são muito similares em tamanho e comportamento. A tartaruga-comum (Caretta caretta) pode pesar até 200 kg e mede entre 70 a 110 cm; a tartaruga-verde (Chelonia mydas) é ligeiramente maior, pode atingir até 300 kg e medir entre 80 a 120 cm. Podem viver várias dezenas de anos. Ambas tem uma dieta omnívora; a tartaruga-comum ao longo de toda a vida come anémonas, peixes, algas e crustáceos e a tartaruga-verde quando chega à idade adulta passa a comer só algas e ervas de pradarias marinhas.

Com o desenvolvimento costeiro, degradação e simplificação de habitat e caça muitos dos antigos lugares de nidificação foram abandonados. Mas mesmo assim ainda há registos esporádicos e em algumas zonas até novos registos, cada vez mais frequentes, de nidificação de tartarugas marinhas, como em Espanha.

Tartaruga-comum (Caretta caretta). Foto: Dionysisa303/WikiCommons

A maioria das tartarugas marinhas tem uma taxa reprodutiva muito baixa, demora várias décadas a atingir a maturidade sexual e, quando o faz, está perto do seu limite de longevidade. Estes animais reproduzem-se poucas vezes ao longo da vida. E muito poucas crias chegarão à idade adulta. Com o aumento de ameaças como as redes de pesca abandonadas, o bycatch (captura acidental em redes de pesca) e a poluição, os desafios que enfrentam para sobreviver são cada vez maiores.

Com as alterações climáticas a tornar o mar mediterrânico e o litoral português cada vez mais quentes pode ser uma questão de tempo até a espécie se expandir. O que também pode funcionar como um “refúgio climático”. A temperatura média dos ovos na praia determina o sexo das tartarugas; praias com temperaturas mais elevadas criam ninhadas só com fêmeas. Uma maneira de adaptar a espécie às alterações climáticas é expandir zonas de nidificação para zonas mais frescas e amenas.

As tartarugas são animais que, bem protegidos, têm um grande impacto na preservação dos oceanos, tal como os tubarões, sendo fundamentais para regular os ecossistemas marinhos. Por viajar ao longo de longas distâncias precisam de áreas marinhas vastas e bem conservadas. Também as zonas costeiras são locais importantes para se alimentarem e as praias são chave para completar o seu ciclo de vida. Precisam de zonas core sem pesca, para impedir capturas acidentais e garantir abundância de presas, rotas de migração bem protegidas – dos embates com navios cargueiros, por exemplo – e de praias tranquilas sem a constante presença humana ou de animais como cães que podem escavar os ninhos. O fim à pesca legal destes animais também é importante. Em 42 países ainda é permitida e 80% das 42.000 tartarugas mortas todos os anos são tartarugas-verdes.

Em Espanha, já há vários anos que se transferem ovos de tartaruga-comum entre praias e se incubam em cativeiro para depois os reintroduzir na natureza. O objetivo é criar novas praias onde as tartarugas nidificam (as fêmeas normalmente regressam à mesma praia onde nasceram para desovar).

Sabe-se que já existiram ninhos na costa atlântica portuguesa e embora esta espécie prefira climas mais amenos para se reproduzir, já o fez em Portugal. As alterações climáticas farão com que muitas zonas da nossa costa se tornem mais propícias para isso mesmo. O aquecimento médio da temperatura do mar já se faz sentir no Mar Português; na Ilha de Santa Maria, águas mais quentes atraem tubarões baleia com cada vez maior frequência.

Tartaruga-verde (Chelonia mydas). Foto: P. Lindgren/WikiCommons

Em Portugal, as tartarugas marinhas podem regressar num futuro próximo e há duas opções, esperar que as tartarugas se adaptem por si e que com tempo, e muita sorte, comecem a ocupar novas áreas – o que é um desafio face à rapidez das alterações climáticas e à escassez de zonas costeiras e de praias bem protegidas – ou criar zonas com “praias selvagens” bem protegidas, encubar ovos e devolve-los às praias para criar novas populações.

Numa primeira fase podem voltar ao Algarve ao longo da Costa Atlântica da Península Ibérica, por exemplo às Ilhas do Parque Natural da Ria Formosa. Numa segunda fase podem regressar aos extensos areais da costa de Melides, praias da Arrábida e Litoral Norte. São centenas de quilómetros de areal onde tanto humanos como tartarugas podem ter o seu lugar.

E há experiências únicas se estes animais regressarem aos areais de Portugal. Como estar na praia e ver tartarugas marinhas chegar entre o bater das ondas, ver os trilhos das tartarugas no areal ou fazer uma sessão de mergulho e nadar ao lado de um dos animais mais antigos do mundo, que existe há 200 milhões anos (mais antigas que os dinossauros) e ser deslumbrado com a sua agilidade e beleza.

Será que conseguimos, entre chapéus de praia, toalhas e casas de férias encontrar espaço para a natureza nas praias de Portugal? Para tartarugas, aves e focas? Nós acreditamos que sim, mas para isso acontecer é preciso que a conservação e o restauro da natureza sejam mais sonhadores, ambiciosos e pragmáticos.


Leia aqui outros artigos do mesmo autor sobre o regresso das espécies extintas a Portugal.


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