Esteva (Cistus ladanifer). Foto: Otília Correia

Nova Reserva da Biosfera: Descubra as plantas (e outros aspectos) fascinantes da Serra da Arrábida

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A propósito da classificação da Serra da Arrábida como Reserva da Biosfera, anunciada este sábado pela UNESCO, recordamos uma sugestão de passeio botânico por esta serra “sempre bela”, feita por Maria Amélia Martins-Loução, presidente da SPECO – Sociedade Portuguesa de Ecologia.

“A Serra vista de longe parece uma elevação com vegetação toda idêntica, mas é na verdade um engano”, explica a presidente da SPECO.

É que em contraste com as encostas a norte, que são “suaves”, as encostas da Arrábida viradas a sul são “bastante inclinadas em direcção ao mar”, descreve Maria Amélia Martins-Loução, que é também professora catedrática aposentada e investigadora na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. “É esta disparidade, com o azul do mar, ao fundo, que maravilha o visitante.”

Vista geral da Serra da Arrábida. Foto: Maria Amélia Martins-Loução

A juntar a este contraste e à geomorfologia, há o aspecto litológico, também ele “diverso” – ou seja, a constituição das rochas. Por aqui podemos encontrar “uma série de rochas carbonatadas de calcário, margas, brechas, arenitos que origina solos esqueléticos heterogéneos, pobres (terra rossa), que possibilitam a sobrevivência de uma diversidade de flora que nos maravilha”. 

Em qualquer época do ano, aliás, “a Serra da Arrábida é sempre bela”, nota a presidente da SPECO. “Nas matas, nas encostas viradas a norte, imperam as árvores frondosas de carvalho cerquinho (Quercus faginea), zelha ou bordo (Acer monspessulanum), misturados com outras espécies que normalmente formam arbustos, como o  carrasco (Quercus coccifera), o aderno de folhas largas (Phillyrea latifolia) ou o lentisco (Pistacia lentiscus), que aqui se erguem competindo para a luz e exibindo uma forma arbórea invulgar.”

Já nas encostas da Serra que estão viradas a sul, “a vegetação é arbustiva, constituindo o que se denomina maquis, onde sobressai o verde escuro e/ou acizentado”.

Quem visitar estes locais, pode avistar em qualquer altura do ano “plantas arbustivas esclerófilas, sempre verdes – enumera Maria Amélia Martins-Loução – como o medronheiro (Arbutus unedo), carrasco (Quercus coccifera), o aderno-de-folhas-largas (Phillyrea latifolia), o aderno-de-folhas-estreitas (Phillyrea angustifolia), o lentisco (Pistacia lentiscus) ou a urze-molar (Erica arborea).”

Medronheiro (Arbutus unedo). Foto: Otília Correia

Outras espécies abundantes são as “semi-decíduas de Verão”, ou seja, plantas que perdem as folhas apenas por um curto período de tempo nesta estação. Exemplos? “O saganho-mouro (Cistus salvifolius ), o sargaço (Cistus monspeliensis), a roselha-grande (Cistus albidus), a esteva (Cistus ladanifer), o alecrim (Rosmarinus officinalis), o rosmaninho (Lavandula stoechas) e a lavanda (Lavanda pedunculata)”, acrescenta a investigadora.

Plantas com estratégias de sobrevivência

Todas estas plantas são “responsáveis por uma panóplia de cores, odores e formas que atraem insectos num rodopio incessante”.

“A beleza desta riqueza florística está aliada à diversidade de adaptações – morfológicas, fisiológicas, simbióticas e ciclos de vida – que as diferentes espécies desenvolvem para sobreviver à falta de água e nutrientes no solo, às oscilações de temperatura, à forte exposição solar e até aos fogos.”

Carrasco (Quercus coccifera). Foto: Otília Correia

No que respeita à falta de água, as plantas da Arrábida lidam com esta realidade “ao tirar partido de nevoeiros matinais que lhes fornecem a água oculta que as diferentes espécies tão bem sabem usar”. Quanto à polinização, “é assegurada por numerosos insectos que abundam consoante a hora do dia.”

Mas não só. “Muitas das esclerófilas – plantas de folhas duras e coriáceas adaptadas a condições de secura – produzem frutos altamente apetecíveis pelas aves, que as dispersam assegurando a sua presença ao longo de toda a serra.”

Uma sugestão de visita

Um dos locais de fácil acesso onde toda esta transição pode ser vista, sugere a presidente da SPECO, fica no início da estrada que segue em direcção ao Portinho da Arrábida, para quem vai de Sesimbra para Setúbal.

“Quando se toma este caminho encontra-se uma pequena elevação, o Jaspe, onde do lado esquerdo se podemos penetrar na mata e apercebermo-nos da dimensão das espécies”, explica.

“Mas se seguirmos em frente, encontramos um pequeno promontório que desce primeiro suavemente e depois a pique direito ao mar, onde o maquis se espraia em todo o seu esplendor. Neste morro, com uma beleza que nos esmaga, com o vento a bater na cara e o sol tórrido a queimar-nos no Verão, ou o frio a tolher-nos no Inverno, somos levados a pensar como é que em locais destes, tão desabrigados e inóspitos, as espécies conseguem viver e dispersar.”


Este artigo foi originalmente publicado na Wilder a 18 de maio de 2022, aqui.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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