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Migradores: Onde é que os francelhos portugueses passam o inverno?

20.03.2026
leitura de 6 minutos
Francelho (Falco naumanni). Foto: Inês Catry

Mauritânia e Mali são destinos agora confirmados numa nova pesquisa, que trouxe outras questões à espera de resposta. Conhecer as áreas de invernada é vital para protegermos esta ave de rapina ameaçada, afirma a investigadora Inês Catry.

Pode-se dizer que os francelhos (Falcos naumanni) ocupam um lugar especial entre as aves com que Inês Catry trabalha. Chamados também de peneireiros-das-torres, foram a primeira espécie a que esta investigadora se dedicou, há mais de 20 anos, na Zona de Proteção Especial (ZPE) de Castro Verde. Desde então continua a estudar estas aves de rapina que todos os anos chegam ao Alentejo para nidificar, muitas em ninhos artificiais.

No verão passado, no âmbito de um trabalho com a Universidade de Montpellier, Inês e outros cientistas marcaram duas dezenas de francelhos em Castro Verde com aparelhos GPS, antes do começo da migração.

Uma parede de nidificação construída para francelhos, na ZPE de Castro Verde. Foto: Wilder

Entretanto houve que esperar pacientemente vários meses, até ao regresso das aves. Só há poucas semanas foi possível analisar os primeiros dados dessas viagens entre Portugal e África.

Ironicamente, uma parte da demora deve-se ao facto de terem sido utilizados aparelhos modernos. “Destes francelhos, 10 foram marcados com emissores GPS que transmitem a informação via rede telemóvel, e por isso podem fazê-lo a uma longa distância, e que funcionam com tecnologia G4 ou G5. A questão é que em África, as redes de telecomunicações continuam a usar muito o G2 e outras tecnologias que já não se utilizam na Europa, e por isso os nossos emissores não conseguiam enviar os dados. Tivemos de esperar que as aves chegassem à Península Ibérica para recebermos o que foi registado pelos aparelhos”, recorda a investigadora, que está ligada ao CE3C (Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais) e à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Um dos francelhos que em 2025 foram marcados com um emissor GPS que transmite dados via rede telemóvel. Foto: Inês Catry

Inês Catry recebeu recentemente os dados de geolocalização de seis desses francelhos, que mostraram que essas aves passaram o inverno no Mali e também na Mauritânia. O território destes dois países da África Ocidental, que fazem fronteira entre si, estende-se pelo maior deserto de areia do mundo mas também por uma faixa mais verde que fica situada mais a sul, conhecida como Sahel e ocupada por savanas. Terá sido aí que estes peneireiros-das-torres chegaram em meados de setembro passado, depois de uma viagem de mais de 2500 quilómetros.

Rotas de migração de três dos francelhos que levaram emissores GPS. O percurso para sul costuma ser mais pelo interior, enquanto que o regresso é mais junto ao litoral. No mapa mais à direita, o francelho viajou para o norte de Espanha antes de seguir para África. Imagens: Inês Catry

Tanto o Mali como a Mauritânia surgem também como destinos de invernada alguns dos restantes francelhos que foram marcados no verão passado, mas com aparelhos mais simples. Estes ‘data loggers’ guardam as localizações de todo o ciclo anual, mas não as transmitem à distância. “Só quando os francelhos regressam é que podemos ir à colónia onde nidificam – que costuma ser a mesma do ano anterior – e tentar fazer o download dos dados para uma ‘base station’, pois é preciso estar perto das aves para isso ser possível.”

Esse é um momento de muita expetativa, pois o número de aves que conseguem regressar com vida é sempre uma incerteza. E por vezes, mesmo que corra tudo bem, são os próprios aparelhos que se avariam ou se perdem a meio do percurso.

Por isso, numa sexta-feira deste mês de março, quando ao fim do dia ligou a ‘base station’ ao computador e conseguiu analisar a informação obtida, Inês Catry ficou satisfeita. “Consegui ver que tinha feito o download de dados de cinco francelhos, quatro machos e uma fêmea, muito bom!”, escreveu à Wilder.

De facto, não são poucos os riscos que correm estes migradores. Desde a longa travessia do deserto, que normalmente percorrem a grande velocidade durante a noite, até à parte da viagem sobre o mar. “Ao contrário de outras rapinas e aves de grande porte, como as cegonhas, que são aves planadoras e por isso aproveitam as correntes térmicas para migrar e passam pelo estreito de Gibraltar para evitarem grandes áreas de mar onde não existem correntes térmicas, vários dos nossos francelhos ‘lançaram-se’ ao mar bem antes de Gibraltar. Um ou dois ainda estavam à latitude das Canárias, o que implica depois voarem mais de 1000 quilómetros pelo oceano antes de entrarem em terras portuguesas.” 

Cria de francelho em Castro Verde a ser anilhada, no verão de 2025. Foto: Wilder

Ganhar forças para a viagem

Outro facto interessante relativo aos francelhos da Península Ibérica, incluindo a população de Castro Verde, acontece antes da partida para África.

“É engraçado ver que estas aves têm estratégias bastante distintas”, comenta Inês Catry. “Alguns dos francelhos que seguimos sobem até ao norte de Espanha – um foi quase até aos Pirenéus! – antes de iniciarem a migração para sul geralmente em setembro, e isto apesar de a maioria deixar a zona de Castro Verde ainda em julho.” 

O objetivo daquilo que os cientistas apelidam de “agregações de pré-migração” é armazenar energia suficiente para os milhares de quilómetros da viagem que se segue. É que em meados de julho e agosto, quando já está tudo seco em Castro Verde e noutras áreas da Península Ibérica, estas aves ainda conseguem encontrar muitos ralos e outros insetos que apreciam nas regiões espanholas mais a norte, que continuam mais frescas.

No final de junho, a paisagem em Castro Verde é dominada por restolho e cardos secos. Foto: Wilder

Mas esta não é a primeira vez que Inês Catry e outros cientistas portugueses estudam as migrações dos francelhos de Castro Verde. Depois de uma primeira tentativa com anilhas, com poucos resultados, em 2008 e 2009 conseguiram marcar algumas aves com emissores mais simples, que deram informação menos precisa. “Ficámos com uma ideia das áreas de invernada, mas não com muitos detalhes”, recorda a investigadora.

O resultado, publicado em 2010, foi um dos primeiros sobre a migração de uma população europeia de francelhos, e já na altura apontava para a Mauritânia e o Mali, mas principalmente para o Senegal.

A última colónia urbana

O objetivo deste novo trabalho, resume Inês Catry, é “saber mais sobre os nossos francelhos”, até porque por vezes há pequenas diferenças entre os locais de invernada de populações de países vizinhos. E essa é uma informação importante, sublinha, para se poderem investigar todas as ameaças que colocam em risco o futuro desta ave migratória, classificada como Em Perigo no território português.

Depois de um forte declínio na segunda metade do século XX, a espécie teve um aumento populacional nos primeiros anos deste século, ajudada por várias medidas de conservação. Mas nos últimos anos, há algumas suspeitas de que os números nalguns países europeus podem estar novamente a descrescer, como por exemplo em Portugal.

Sabe-se já que a intensificação agrícola, como acontece na zona de Mértola, obriga os francelhos a percorrerem muitos quilómetros para encontrarem os insetos com que alimentam as crias, afetando o sucesso reprodutor, explicou Inês Catry num webinar recente, no portal Aves de Portugal. Essa será uma das razões para a forte redução no número de francelhos em Mértola, onde restam hoje menos de meia dúzia de casais na última colónia urbana em território nacional.

Novos mistérios por desvendar

Mas o que se passa com os francelhos quando invernam em África e durante as migrações? Será que esses meses foram da Europa estão a ter um impacto negativo para a espécie?

“É interessante ver que estes últimos dados que obtivemos mostram que não há muita sobreposição das áreas de invernada, o que até torna a conservação mais desafiante, porque fica mais complicado definir zonas importantes onde muitos indivíduos se concentram”, nota a cientista do CE3C.

“Outra coisa interessante é que pensávamos que muitos dos nossos francelhos invernassem no Senegal”, acrescenta esta investigadora, lembrando que recapturou duas dessas aves com anilhas portuguesas numa expedição que ali fez em novembro de 2023. Neste país africano que faz fronteira com a Mauritânia e o Mali, mas também com a Guiné-Bissau, “é conhecido um dormitório onde foram contados 28.000 francelhos em 2008 e que se pensava incluírem grande parte da população ibérica e francesa”.

No entanto, a informação obtida agora em 2026 dá sinais de que isso se pode ter alterado. “As razões para esta aparente mudança estão por desvendar!”, conclui Inês Catry, já com vontade de decifrar este novo mistério.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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