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Ursos-pardos que viveram em Portugal chegaram a pesar mais de 300 quilos, revela novo estudo

18.06.2026
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Urso-pardo. Foto: Thomas Wilken/Pixabay

Investigação baseada em mais de 500 fósseis mostra que os ursos-pardos que habitaram Portugal durante o Plistocénico eram, em muitos casos, maiores e mais robustos do que os atuais. Os cientistas associam a redução gradual do tamanho da espécie à pressão humana e à alteração dos habitats.

Os ursos-pardos (Ursus arctos) que viveram em Portugal há dezenas de milhares de anos eram, em muitos casos, significativamente maiores do que os seus descendentes atuais. Alguns exemplares podiam ultrapassar os 300 quilos e rivalizar com os maiores ursos conhecidos no registo fóssil, segundo um artigo publicado na revista científica Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology.

De acordo com este estudo, liderada por Darío Estraviz-López durante o seu doutoramento na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa (NOVA FCT), o espécime encontrado na Gruta das Fontainhas, no Cadaval, é um dos maiores ursos-pardos alguma vez registado, com cerca de 385 quilos.

Os cientistas analisaram mais de 500 fósseis provenientes de seis jazidas portuguesas: a Gruta da Furninha, em Peniche, a Gruta das Fontainhas, no Cadaval, a Serra de Molianos, em Alcobaça, a Gruta do Caldeirão, em Tomar, a Gruta do Escoural, em Montemor-o-Novo, e a Gruta da Oliveira, em Torres Novas.

Além de confirmar a presença histórica do urso-pardo em Portugal, o estudo permitiu reconstruir a evolução da espécie ao longo do Plistocénico e identificar diferenças entre populações que viveram em diferentes épocas.

Ursos maiores do que os atuais

Uma das principais conclusões desta investigação é que muitas populações antigas tinham dimensões corporais superiores às dos ursos ibéricos contemporâneos. Atualmente, os machos da população cantábrica pesam, em média, cerca de 140 quilos, enquanto as fêmeas rondam os 100 quilos.

Em contraste, os fósseis analisados revelam a existência de animais muito mais robustos. Alguns indivíduos tinham características físicas semelhantes às do extinto urso-das-cavernas (Ursus spelaeus), sugerindo que, em determinadas regiões e na ausência dessa espécie, os ursos-pardos poderão ter ocupado nichos ecológicos semelhantes.

Os investigadores identificaram uma tendência clara de diminuição do tamanho corporal dos ursos-pardos ibéricos ao longo do tempo.

Segundo os autores, essa redução estará associada,, sobretudo à crescente pressão humana e às transformações dos habitats naturais, fatores que terão influenciado a evolução recente da espécie.

O trabalho propõe ainda um novo modelo evolutivo para o urso-pardo na Península Ibérica, distinguindo diferentes populações ao longo do tempo e sugerindo que alterações climáticas e ambientais poderão ter tido um papel importante na sua história evolutiva.

Outra das conclusões do estudo é a ausência de evidências da presença do urso-das-cavernas nos fósseis portugueses analisados. Até ao momento, todos os restos identificados pertencem ao urso-pardo.

A espécie sobreviveu em Portugal até ao século XIX, altura em que desapareceu do território devido à ação humana. Atualmente, existem ursos-pardos nas Astúrias, na Cantábria, numa pequena parte da Galiza (Lugo), em duas províncias de Leão e Castela e ainda nos Pirenéus.

A investigação contou também com a participação de María Ríos, investigadora de pós-doutoramento da instituição, e de vários investigadores internacionais.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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