As pequeninas flores amarelas da Utricularia subulata, que na Europa só tinha sido observada em Portugal e estava dada como regionalmente extinta, foram encontradas num brejo próximo de Covões, concelho de Cantanhede.
Foi num simples passeio de domingo, a 12 de outubro, que aconteceu esta “descoberta histórica” para José Santos e para a Botânica em Portugal, explicou à Wilder a equipa de botânicos que validaram a identificação da Utricularia subulata.
Esta pequena planta carnívora só se torna visível quando produz as suas pequeninas flores amarelas, durante a época de floração. Tem uma distribuição alargada pelas Américas, África, Ásia e Austrália, sendo mais comum em ambientes tropicais. Mas na Europa, só tinha sido até hoje encontrada na natureza em Portugal, mais concretamente na região da Beira Litoral – a primeira vez em 1947 e a última 20 anos depois, a 5 de maio de 1967.
Desde então nunca mais tinha sido encontrada, nem sequer durante os trabalhos da Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental, entre 2016 e 2020, que percorreram o país em busca de diferentes plantas. “Houve uma busca dirigida a esta espécie nos locais históricos de ocorrência, mas infelizmente não apareceu. Em Portugal deve ser muitissimo rara”, acredita João Farminhão, investigador na Universidade de Coimbra. Foi depois destas buscas que a espécie foi oficialmente declarada Regionalmente Extinta no território nacional, em 2020, no que acabou por se revelar “uma notícia claramente exagerada”, nota o mesmo responsável.

João Farminhão foi um dos peritos que uma semana depois da descoberta inicial, a 18 de outubro, acompanharam José Santos – um apaixonado por plantas e pela natureza – numa ida a Covões, que fica no concelho de Cantanhede, distrito de Coimbra. Depois de guiados até ao local, “um pouco nervosos com a expetativa”, confirmaram que se tratará de facto da Utricularia subulata. “As flores tinham mesmo aquele tom típico amarelo da espécie. Contámos cerca de meia centena”, recorda o investigador.
Apesar de em Portugal ser rara na natureza, esta planta é na verdade “muito popular em terrários”, até porque tem uma “biologia estranhíssima”, espalhando-se por áreas maiores do que aquilo que é possível perceber só pelas flores.
Uma rede debaixo da terra
O outro perito presente na ida a Covões foi Afonso Petronilho, que recentemente terminou um mestrado dedicado precisamente ao estudo da biologia da reprodução de outras duas espécies do género Utricularia que estão presentes em Portugal.
“Dentro do género Utricularia são todas carnívoras. Produzem umas pequenas vesículas quase esféricas, que na verdade são folhas modificadas, que apanham as presas e as sugam para dentro, onde são digeridas”, explica Afonso. No caso da Utricularia subulata, estas vesículas ficam escondidas debaixo da terra, presas a uma espécie de rede formada pelos caules da planta, e capturam pequenos invertebrados como os nemátodos do solo – criaturas que habitam nesse submundo.
“Os caules desta planta são de um branco translúcido e muito fininhos. Crescem todos entrelaçados uns nos outros, parecem mesmo uma rede”, descreve. E como a Utricularia subulata vive quase todo o ano debaixo da terra, só pode ser observada quando está em flor – uma das razões apontadas para o facto de ter sido redescoberta só agora, não muito longe da sua área histórica de distribuição.

E porque é que na Europa existe apenas em Portugal? João Farminhão, que admite que possa ocorrer também em Espanha mas sem nunca ter sido registada, aponta uma razão possível. “Eventualmente, poderá ter sido transportada por aves aquáticas migratórias, a partir de África. Em 1947, quando foi descoberta pela primeira vez, colocou-se a hipótese de que tivesse sido introduzida, mas observações posteriores invalidaram essa hipótese. ”
O que se vai seguir
No domingo em que se deslocaram ao local, dia 18 de outubro, João Farminhão e Afonso Petronilho, que estavam acompanhados por José Santos e por João Petronilho – pai de Afonso – colheram algumas flores que foram colocadas em herbário “poucas horas depois”. O seu destino será ficarem na coleção do Herbário da Universidade de Coimbra, “para documentar este registo histórico.”
Os dois botânicos recolheram também sementes e parte da rede de caules subterrâneos da planta. “Vamos tentar propagá-la e talvez surja a oportunidade de a reintroduzirmos. Vamos também falar com a Câmara Municipal de Cantanhede sobre como poderemos proteger o local”, afirma João Farminhão, que sublinha que a União das Freguesias de Covões e Camarneira passa a ser “uma meca de plantas raras”. Foi também aqui que recentemente foi encontrada a maior população mundial de escabiosa-dos-pauis (Succisella carvalhoana), uma planta endémica da Península Ibérica.
Outra das tarefas desta equipa será a publicação de uma nota numa revista científica, para colocarem em reavaliação a situação desta espécie em Portugal, onde deverá ser declarada Criticamente em Perigo. A Utricularia subulata poderá vir também a integrar o Cadastro Nacional de Valores Naturais Classificados.
A nível académico haverá muitos outros trabalhos a fazer, como por exemplo “descrever o nicho ecológico da espécie, o que será útil para encontrar outros locais de ocorrência; caracterizar o habitat; estudar a biologia reprodutiva”, prevê João Farminhão. Mas também confirmar que se trata de facto da Utricularia subulata. “Será igual às de África e das Américas? À primeira vista parece ser a mesma espécie.” Outras matérias en análise: a época de floração exata e confirmar se se trata de uma planta anual ou perene.
Regressar ao terreno vai ser certamente outro dos próximos passos. Não durante os próximos meses, uma vez que a atual época de floração parece estar a chegar ao fim, mas já em 2026, em busca de mais plantas da mesma espécie. Sendo pouco provável que venha a ser encontrada noutras regiões do país, acredita-se que se poderão encontrar mais populações próximas do local onde foram agora encontradas esta meia centena de flores.
Um simples passeio no campo
Embora já não viva na zona de Covões, José Santos faz questão de ali ir passear aos domingos à tarde sempre que possível, até porque sempre teve “muito interesse pela natureza”. Gosta de observar as plantas que lhe surgem no caminho, comparando com as que já conhece, e preocupa-se com aquelas que antes via em abundância – o pé-de-burro, o cardo-dos-brejos – e hoje quase não encontra. “O que está pior são os herbicidas”, lamenta.

Foi num desses passeios semanais que deparou com um pequeno conjunto de “florinhas amarelas” que nunca tinha visto. Decidiu fotografá-las e, ao pesquisar, apercebeu-se de que poderia ser esta espécie singular – uma suspeita que conseguiu confirmar mais tarde ao partilhar a descoberta nas redes sociais, despertando o interesse de especialistas.
“Esta redescoberta é prova da importância do contributo de cidadãos atentos e curiosos para a ciência e conservação da biodiversidade. Por vezes, as descobertas mais extraordinárias escondem-se à vista de todos, à espera de um olhar atento”, sublinha a equipa.
Uma das pessoas empenhadas em procurar pela Utricularia subulata noutros locais semelhantes àquele onde foi agora encontrada é José Santos, que promete andar de olhos bem abertos durante a próxima época de floração.