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Ovos de aves protegidas revelam presença de pesticidas proibidos há mais de 50 anos na Andaluzia

25.06.2026
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Quebra-ossos nos Pirinéus, Espanha. Foto: Francesco Veronesi/Wiki Commons

Ovos de espécies ameaçadas como o quebra-ossos e a águia-imperial-ibérica têm vestígios de DDT e outros contaminantes, descobriu uma equipa de investigadores depois de uma década de monitorização.

Um estudo científico, publicado em abril na revista Ecotoxicology and Environmental Safety, analisou 10 anos de amostras recolhidas em ninhos de espécies ameaçadas e confirmou a persistência de contaminantes ambientais na natureza décadas após a sua utilização ter sido proibida.

Entre 2014 e 2024, os investigadores da Universidade de Córdoba e do Centro de Análise e Diagnóstico da Fauna Silvestre da Andaluzia (CAD), uma unidade da Junta da Andaluzia criada em 2001, analisaram 70 amostras de ovos não eclodidos e fragmentos de casca provenientes de episódios de insucesso reprodutivo em 14 espécies de aves protegidas.

Entre elas encontram-se algumas das espécies mais emblemáticas da fauna ibérica, como o quebra-ossos (Gypaetus barbatus), a águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti), o milhafre-real (Milvus milvus), a águia-de-bonelli (Aquila fasciata), o abutre-preto (Aegypius monachus) e o britango (Neophron percnopterus).

Os resultados revelaram a presença de vários contaminantes ambientais acumulados nos ovos, incluindo compostos derivados do DDT, um insecticida amplamente utilizado durante o século XX e proibido desde a década de 1970 devido aos seus impactos na saúde humana e na biodiversidade.

Segundo os autores, a detecção destes resíduos demonstra a capacidade de algumas substâncias químicas permanecerem activas no ambiente durante décadas, entrando sucessivamente na cadeia alimentar e acumulando-se nos organismos vivos.

Além dos contaminantes históricos, o estudo identificou também resíduos de pesticidas actualmente em uso, nomeadamente alguns piretróides (presentes em inseticidas) e fungicidas. Em contrapartida, não foram detectados resíduos de medicamentos veterinários ou fármacos nas amostras analisadas.

Os investigadores alertaram que a presença destes compostos pode afectar directamente o sucesso reprodutivo de espécies ameaçadas.

No caso do quebra-ossos, por exemplo, cada casal produz normalmente apenas um ou dois ovos por época de reprodução. Nestas circunstâncias, a perda de uma postura pode ter consequências relevantes para a recuperação das populações.

Alguns contaminantes, como o DDT, foram historicamente associados ao adelgaçamento das cascas dos ovos, tornando-as mais frágeis e aumentando o risco de perda de humidade, entrada de microrganismos e falhas na incubação.

Para os investigadores, os ovos das aves são uma ferramenta valiosa para avaliar a qualidade ambiental dos ecossistemas. Isto porque, através da sua análise é possível detectar precocemente a presença de contaminantes persistentes e acompanhar a sua evolução ao longo do tempo.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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