Os resultados do quarto censo nacional desta ave que já foi uma presença comum nas planícies alentejanas “são alarmantes”, alertam sete organizações portuguesas de ambiente, que pedem medidas urgentes para evitar a extinção da espécie em Portugal.
“Os resultados deste censo são alarmantes, mas infelizmente não são inesperados. Estamos a assistir ao desaparecimento do sisão perante os nossos olhos no curto prazo”, avisa Julieta Costa, coordenadora do Departamento de Conservação Terrestre da SPEA – BirdLife.
Os resultados do quarto Censo Nacional de Sisão, que foi coordenado por investigadores do BIOPOLIS/CIBIO e publicado esta quinta-feira, 25 de junho, estimam que a população nacional desta espécie é atualmente de apenas 1736 machos, o que representa um declínio de cerca de 90% desde 2006.
“Perante esta evidência, é incompreensível que o Estado português continue sem implementar medidas de conservação eficazes, falhando claramente as suas obrigações ao abrigo da Diretiva Aves da Comissão Europeia”, sublinha esta responsável, num comunicado conjunto, assinado por sete organizações portuguesas de ambiente. Além da SPEA, este alerta é subscrito pela Liga para a Protecção da Natureza (LPN), WWF-Portugal, Palombar, FAPAS, GEOTA e ZERO.
O sisão já foi considerado uma ave abundante nas planícies alentejanas, mas hoje é “cada vez mais rara e difícil de observar”, detalham as sete organizações, no comunicado conjunto divulgado esta sexta-feira. Esta espécie faz os seus ninhos no solo e está intimamente ligada a “sistemas agrícolas extensivos” e a “habitats abertos”, que são cada vez mais difíceis de encontrar devido à expansão da agricultura intensiva.
“A substituição de culturas de cereais em extensivo por culturas permanentes intensivas, como amendoal ou olival e o aumento da intensidade do pastoreio e a redução das áreas de pousio contribuem igualmente para a degradação dos locais de nidificação o que tem causado o colapso da população de sisão”, acrescentam. Outra ameaça são as linhas elétricas e outras infraestruturas que estão a aumentar em meios rurais, que em conjunto com as restantes ameaças afetam gravemente não só o sisão mas outras espécies ligadas ao mesmo tipo de habitat, que estão também a sofrer “declínios muito acentuados”. Dois exemplos apontados são a abetarda (Otis tarda) e o tartaranhão-caçador (Circus pygargus).
“As ameaças ao sisão e às restantes aves estepárias não só não têm fim à vista, como têm aumentado em diversidade e intensidade nos últimos anos, contra todos os esforços – nossos e dos muitos agricultores com quem colaboramos – para as minimizar. São aves frágeis que dependem de um ecossistema agrícola e da própria comunidade que o mantém, também sujeitos a inúmeras pressões que permanecem órfãs da atenção, preocupação, decisão e ação que lhes são devidas pelas autoridades nacionais. Se queremos travar a extinção destas espécies, temos de agir agora”, diz Estrela Matilde, diretora executiva da LPN.
João Paulo Silva, investigador do BIOPOLIS/CIBIO e coordenador do Censo Nacional de Sisão, nota que cada edição deste censo iniciado em 2006 tem mostrado números cada vez piores. “Já em 2022 a conclusão foi que o sisão estava em risco de extinção, e por isso foi classificado como Criticamente em Perigo. Passados quatro anos, a espécie continua em declínio, mesmo nas Zonas de Proteção Especial que deviam protegê-la.”
Mas apesar dos esforços de ambietalistas e também da União Europeia para a proteção desta e de outras espécies estepárias, com a realização de vários projetos ao abrigo do programa europeu Life – como o LIFE Iberian Agrosteppes e o LIFE SOS Pygargus – a situação destas aves continua a degradar-se. “São necessárias medidas sistémicas que só o governo pode regulamentar. A própria paisagem cerealífera está em risco”, alertam os ambientalistas.
Perda de quase 80% da área de cereal
Uma das mudanças na paisagem portugesa que ajuda a explicar o que está a acontecer é a diminuição cada vez maior da área de cultivo de cereais. Desde o final dos anos 80, perdeu-se quase 80% desse território, que passou de cerca de 900.000 hectares para cerca de 190.000 hectares em 2023, explica Joaquim Teodósio, coordenador do projeto LIFE SOS Pygargus. Ligada ao “acentuado envelhecimento” dos agricultores portugueses que ainda produzem cereal, essa tendência não afeta apenas a biodiversidade, mas também “a dependência de importações para o consumo nacional”, sublinha o mesmo responsável.
Em resposta, estas organizações defendem que seja criado urgentemente “um plano de emergência, interministerial, com a participação de ONGA’s, agricultores, universidades e outros atores locais”, que inclua proteção ativa das áreas de reprodução, promoção das áreas cerealíferas e pousios com uma melhoria das medidas agroambientais e valorização da produção nacional, ordenamento de infraestruturas energéticas, limitação do regadio em áreas críticas e a criação de uma rede de reservas e de um programa de conservação ex-situ (reprodução em cativeiro para posterior devolução à natureza).
“Sem ação imediata, a extinção do sisão em Portugal poderá tornar-se uma realidade a curto prazo”, concluem.
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