Durante este verão, dois investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa estão no campo para descobrir como espécies como o toirão e a doninha sobrevivem em áreas protegidas rodeadas por uma intensa pressão humana, como o Parque Natural da Arrábida e a Reserva Natural do Estuário do Sado.
Por estes dias, Hugo Díez Santaolalla e Vasco Valdez, estudantes do programa de doutoramento BIODIV na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e investigadores no Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c), da mesma universidade, estão em pleno trabalho de campo.

Entre abril e maio escolheram os locais de amostragem e no início de junho começaram o trabalho de campo.
“O projeto arrancou formalmente na primavera com as fases de planeamento e seleção de zonas, mas o trabalho de campo forte concentra-se na época de maior atividade destas espécies, entre junho e setembro de 2026”, explicou à Wilder Hugo Díez Santaolalla.
O Mustela Casanova Project está a estudar um dos grupos de mamíferos mais desconhecidos da Península Ibérica: os pequenos mustelídeos, grupo do qual fazem parte espécies como a doninha e o toirão.
Tanto Hugo como Vasco estão preocupados com o estado de conservação destes pequenos carnívoros. Além disso deram-se conta de que “existe um grande vazio de informação sobre estas espécies na região” da Grande Lisboa.
Por isso, planearam este projeto, cujo impulso definitivo chegou quando foram galardoados com o 8.º Prémio Jorge G. Casanovas, outorgado pelo Grupo de Carnívoros Terrestres da SECEM (Sociedade Ibérica para a Conservação e Estudo de Mamíferos).
A iniciativa foi pensada como um exemplo de colaboração ibérica entre um investigador português e um espanhol para estudar espécies com distribuição em Portugal e Espanha. “A natureza não entende de fronteiras”, lembrou à Wilder Hugo Díez Santaolalla.
Como vivem os carnívoros junto de três milhões de pessoas?
O principal objetivo do Mustela Casanova Project é caracterizar a comunidade de pequenos e médios carnívoros em áreas naturais protegidas inseridas na Área Metropolitana de Lisboa, onde vivem mais de três milhões de pessoas.
Os investigadores querem perceber que espécies ocorrem nestes territórios, como utilizam o espaço e, sobretudo, de que forma alteram os seus horários de atividade para evitar a presença humana.

“O objetivo é fornecer dados científicos sólidos que permitam compreender as estratégias de adaptação destas espécies em parques naturais que funcionam, simultaneamente, como refúgios para a biodiversidade e locais muito procurados pelas pessoas para contacto com a natureza”, explicou Hugo Díez Santaolalla.
Ainda que o estudo inclua toda a comunidade de mesocarnívoros – como raposas, texugos e sacarrabos – o foco principal vai para duas espécies “mais esquivas, pequenas e pior documentadas na região”: o toirão (Mustela putorius) e a doninha (Mustela nivalis).
Segundo os investigadores, há uma “contradição alarmante” entre os registos históricos e os dados de campo mais recentes, sugerindo que ambas poderão estar a sofrer declínios acentuados na Península Ibérica.
“Ao estarem no limite da sua distribuição europeia em Portugal, estas espécies enfrentam desafios extremos combinados com a fragmentação do habitat”, lembrou o investigador.
Caixas especiais substituem armadilhas
Para estudar animais tão discretos, a equipa optou por uma metodologia inteiramente não invasiva.

O projeto usa caixas conhecidas como mostela-traps, desenhadas especificamente para permitir a entrada e saída livre dos pequenos mustelídeos. No interior há uma câmara fotográfica que regista a passagem dos animais, sem necessidade de captura ou manipulação.
As caixas são complementadas por câmaras de foto-armadilhagem instaladas no exterior e por sensores de temperatura, permitindo relacionar a atividade dos animais com as condições ambientais.
Depois de uma primeira etapa de planeamento, seleção das áreas de estudo, obtenção das licenças do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e contactos com proprietários privados, o trabalho de campo arrancou no início de junho.
Os primeiros equipamentos foram instalados em locais do Parque Natural da Arrábida e da Reserva Natural do Estuário do Sado, onde permanecerão até ao final de julho.
Nessa altura serão transferidos para novos pontos de amostragem dentro das mesmas áreas protegidas, permanecendo no terreno até meados de setembro. Em cada mudança, os investigadores aproveitam para substituir baterias, descarregar milhares de fotografias e verificar o funcionamento dos registadores climáticos.
O projeto é coordenado pelos dois investigadores, sob orientação científica de Luís Miguel Rosalino e Alejandra Zarzo-Arias.

Conta com o apoio institucional do cE3c, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, do grupo de investigação InWild – Integrative Wildlife Ecology and Conservation e do ICNF, que emitiu as autorizações necessárias e facilitou o contacto com os proprietários dos terrenos.
Os investigadores fazem questão de destacar também o papel dos proprietários privados que aceitaram receber o projeto nas suas propriedades, nomeadamente a Quinta do Rego d’Água, a Quinta dos Cistus (Pasmados Sociedade Agrícola) e a Herdade do Pinheiro.
Os primeiros resultados científicos deverão ser divulgados em 2027.