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Milhares de aves estão a passar (ou a parar) em Portugal nas migrações de Outono

29.08.2025
leitura de 5 minutos

Estamos a entrar na altura do ano mais entusiasmante para quem gosta de ver aves. Milhares estão já a passar sobre Portugal em direcção a África nas migrações de Outono. Gonçalo Elias explica este fenómeno fascinante e sugere locais para o podermos ver.

WILDER: Podes descrever a migração outonal das aves que está, por estes dias, a acontecer em Portugal? 

Gonçalo Elias: A migração é um fenómeno fascinante e, ao mesmo tempo, muito complexo.

Numa abordagem simples, podemos dizer que nesta época assistimos a grandes movimentos, que levam muitas aves a migrar das suas áreas de reprodução para as chamadas zonas de invernada, onde irão passar o resto do ano.

Para muitas espécies, isto significa voarem em direcção a sul, aproximando-se das regiões tropicais, situadas em África – é o padrão migratório mais conhecido para as aves europeias.

Cuco-rabilongo. Foto: Christoph Moning/WikiCommons

No entanto, apenas uma parte das aves migradoras segue este padrão, pois há outro tipo de movimentações, que não se desenvolvem necessariamente no sentido norte-sul. Há padrões muito curiosos, como migração leste-oeste, migração em «8», migração altitudinal ou migração do interior para a costa, entre muitos outros. 

A este propósito, partilho a gravação de um webinário intitulado “Os segredos da migração“, que realizei no ano passado, através do portal Aves de Portugal. Nesta sessão, exploro os diferentes padrões migratórios das aves, com o objectivo de ajudar a entender a complexidade e a diversidade de estratégias existentes.

W: Há, ou não, vagas de aves a sobrevoar Portugal, migrando para Sul vindas de outras regiões da Europa? Se sim, que espécies serão?

Gonçalo Elias: Sim, nesta época do ano passam por cá milhares de aves, a caminho de África. Algumas sobrevoam o país e passam por cá sem parar, outras detêm-se durante alguns dias com o fito de acumularem reservas de gordura. São várias dezenas de espécies, que pertencem maioritariamente aos seguintes grupos:

  • passeriformes, especialmente aves insectívoras, como papa-moscas, felosas, toutinegras, rouxinóis, chascos e andorinhas;
  • outras aves terrestres, também maioritariamente insectívoras, como andorinhões, cucos e noitibós;
  • aves de rapina que se alimentam de insectos (como o vespeiro-europeu e alguns falcões) ou de répteis (águia-cobreira);
  • aves aquáticas, sobretudo limícolas, que também dependem muito de invertebrados para a sua sobrevivência, mas também gaivinas, moleiros e painhos.

Algumas destas aves movimentam-se sobretudo de noite, aproveitando o dia para descansar e para se alimentarem; já as rapinas, as andorinhas e os andorinhões migram frequentemente de dia e, por isso, não é raro ver indivíduos ou bandos a passar para sul.

Águia-cobreira. Foto: Juan Lacruz/WikiCommons

W: E as aves que se reproduziram no nosso país, quais as que já estão a partir? 

Gonçalo Elias: As que partem mais cedo após a reprodução são as duas espécies de cucos: o cuco-canoro e o cuco-rabilongo. Ambos são parasitas, o que significa que depositam os seus ovos em ninhos de outras espécies de aves, ficando estas últimas com a tarefa de cuidar das crias do cuco. Quanto aos cucos adultos, voltam para África assim que fizeram o “serviço”.

No Reino Unido tem sido realizado, desde há alguns anos, um projecto de marcação e seguimento de cucos-canoros, que permitiu concluir que a maioria dos adultos abandona o país nos meses de Junho e Julho. Em Portugal não há muitos dados, contudo o calendário migratório não deverá ser muito diferente.

Em Agosto parte a maioria dos abelharucos, dos papa-figos e dos milhafres-pretos.

Em Setembro quase todas as aves migradoras que nidificaram no nosso país abalaram para África, mas durante algumas semanas ainda é possível encontrar indivíduos dessas mesmas espécies, que poderão ser aves de passagem vindas de regiões mais a norte.

W: E já há indivíduos de espécies que estão a chegar a Portugal para aqui passarem os meses mais frios? 

Gonçalo Elias: Ainda é um pouco cedo. A maioria das chegadas de invernantes dá-se a partir de meio de Outubro, embora alguns indivíduos possam chegar mais cedo.

Papa-moscas-preto. Foto: Yerpo/WikiCommons

Agora convém notar que muitas espécies ditas invernantes são, na realidade, migradoras de passagem também e podem ser vistas por cá logo a partir de Agosto ou Setembro – por vezes, mesmo em meados de Julho! Isto é particularmente evidente no caso de limícolas e gaivotas, das quais em Agosto já podemos ver grandes bandos. A maioria destas espécies tem populações que são migradoras de longa distância e que vão passar o inverno na África subsariana, mas também tem outras populações que não descem até África e passam o Inverno em Portugal. Estas duas populações misturam-se e na época das migrações (Setembro, por exemplo), não é fácil distinguir o que são indivíduos invernantes daqueles que apenas estão aqui de passagem, salvo quando as aves foram objecto de programas de marcação, caso em que é possível fazer um seguimento individual.

W: Em termos gerais, quando acontece o pico das migrações de outono?

Gonçalo Elias: Esse pico varia bastante consoante as espécies.

Os que partem mais cedo são os cucos, pelas razões já referidas – o seu pico de partida deverá ser em Junho ou Julho.

Algumas aves nidificantes, como as felosas-poliglotas ou os rouxinóis-comuns, também começam a partir bastante cedo e o pico da sua passagem dá-se durante o mês de Agosto.

Para a maioria dos passeriformes migradores – nomeadamente felosas, papa-moscas, chascos e petinha-das-árvores -, o pico acontece em Setembro, o mesmo acontecendo com rolas-bravas, limícolas, gaivinas, aves marinhas e algumas rapinas, entre outras.

Há depois algumas espécies que tipicamente passam mais tarde e cujos números atingem o máximo em Outubro – aqui incluem-se várias espécies que não são migradoras transarianas e que ficarão a invernar pelo sul da Península Ibérica ou pelo norte de África – é o caso dos tordos, dos fringilídeos e dos patos, por exemplo.

Pato-trombeteiro. Foto: Andreas Trepte/Wiki Commons

Na primeira metade de Novembro ainda há alguns movimentos, mas em geral isso corresponde à ponta final da migração e já não é exactamente um pico.

W: Podes dar algumas sugestões de bons locais para testemunharmos estas migrações?

  • Sagres e cabo Espichel para passeriformes migradores e aves de rapina – no caso de Sagres realiza-se o Birdwatching Sagres, festival de observação de aves nos primeiros dias de Outubro;
  • Cabo Raso, cabo Carvoeiro e cabo de São Vicente para aves marinhas;
  • Qualquer zona húmida costeira para aves aquáticas em geral.

Note-se que a observação das migrações pode não envolver necessariamente aves “a passar” e sim apenas a descansar ou a alimentar-se durante a paragem que fizeram após terem feito uma movimentação nocturna, por exemplo. O que se nota nestes casos é que há uma grande rotação e que o número de aves e a diversidade de espécies varia marcadamente de uns dias para outros.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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