Estamos a entrar na altura do ano mais entusiasmante para quem gosta de ver aves. Milhares estão já a passar sobre Portugal em direcção a África nas migrações de Outono. Gonçalo Elias explica este fenómeno fascinante e sugere locais para o podermos ver.
WILDER: Podes descrever a migração outonal das aves que está, por estes dias, a acontecer em Portugal?
Gonçalo Elias: A migração é um fenómeno fascinante e, ao mesmo tempo, muito complexo.
Numa abordagem simples, podemos dizer que nesta época assistimos a grandes movimentos, que levam muitas aves a migrar das suas áreas de reprodução para as chamadas zonas de invernada, onde irão passar o resto do ano.
Para muitas espécies, isto significa voarem em direcção a sul, aproximando-se das regiões tropicais, situadas em África – é o padrão migratório mais conhecido para as aves europeias.

No entanto, apenas uma parte das aves migradoras segue este padrão, pois há outro tipo de movimentações, que não se desenvolvem necessariamente no sentido norte-sul. Há padrões muito curiosos, como migração leste-oeste, migração em «8», migração altitudinal ou migração do interior para a costa, entre muitos outros.
A este propósito, partilho a gravação de um webinário intitulado “Os segredos da migração“, que realizei no ano passado, através do portal Aves de Portugal. Nesta sessão, exploro os diferentes padrões migratórios das aves, com o objectivo de ajudar a entender a complexidade e a diversidade de estratégias existentes.
W: Há, ou não, vagas de aves a sobrevoar Portugal, migrando para Sul vindas de outras regiões da Europa? Se sim, que espécies serão?
Gonçalo Elias: Sim, nesta época do ano passam por cá milhares de aves, a caminho de África. Algumas sobrevoam o país e passam por cá sem parar, outras detêm-se durante alguns dias com o fito de acumularem reservas de gordura. São várias dezenas de espécies, que pertencem maioritariamente aos seguintes grupos:
- passeriformes, especialmente aves insectívoras, como papa-moscas, felosas, toutinegras, rouxinóis, chascos e andorinhas;
- outras aves terrestres, também maioritariamente insectívoras, como andorinhões, cucos e noitibós;
- aves de rapina que se alimentam de insectos (como o vespeiro-europeu e alguns falcões) ou de répteis (águia-cobreira);
- aves aquáticas, sobretudo limícolas, que também dependem muito de invertebrados para a sua sobrevivência, mas também gaivinas, moleiros e painhos.
Algumas destas aves movimentam-se sobretudo de noite, aproveitando o dia para descansar e para se alimentarem; já as rapinas, as andorinhas e os andorinhões migram frequentemente de dia e, por isso, não é raro ver indivíduos ou bandos a passar para sul.

W: E as aves que se reproduziram no nosso país, quais as que já estão a partir?
Gonçalo Elias: As que partem mais cedo após a reprodução são as duas espécies de cucos: o cuco-canoro e o cuco-rabilongo. Ambos são parasitas, o que significa que depositam os seus ovos em ninhos de outras espécies de aves, ficando estas últimas com a tarefa de cuidar das crias do cuco. Quanto aos cucos adultos, voltam para África assim que fizeram o “serviço”.
No Reino Unido tem sido realizado, desde há alguns anos, um projecto de marcação e seguimento de cucos-canoros, que permitiu concluir que a maioria dos adultos abandona o país nos meses de Junho e Julho. Em Portugal não há muitos dados, contudo o calendário migratório não deverá ser muito diferente.
Em Agosto parte a maioria dos abelharucos, dos papa-figos e dos milhafres-pretos.
Em Setembro quase todas as aves migradoras que nidificaram no nosso país abalaram para África, mas durante algumas semanas ainda é possível encontrar indivíduos dessas mesmas espécies, que poderão ser aves de passagem vindas de regiões mais a norte.
W: E já há indivíduos de espécies que estão a chegar a Portugal para aqui passarem os meses mais frios?
Gonçalo Elias: Ainda é um pouco cedo. A maioria das chegadas de invernantes dá-se a partir de meio de Outubro, embora alguns indivíduos possam chegar mais cedo.

Agora convém notar que muitas espécies ditas invernantes são, na realidade, migradoras de passagem também e podem ser vistas por cá logo a partir de Agosto ou Setembro – por vezes, mesmo em meados de Julho! Isto é particularmente evidente no caso de limícolas e gaivotas, das quais em Agosto já podemos ver grandes bandos. A maioria destas espécies tem populações que são migradoras de longa distância e que vão passar o inverno na África subsariana, mas também tem outras populações que não descem até África e passam o Inverno em Portugal. Estas duas populações misturam-se e na época das migrações (Setembro, por exemplo), não é fácil distinguir o que são indivíduos invernantes daqueles que apenas estão aqui de passagem, salvo quando as aves foram objecto de programas de marcação, caso em que é possível fazer um seguimento individual.
W: Em termos gerais, quando acontece o pico das migrações de outono?
Gonçalo Elias: Esse pico varia bastante consoante as espécies.
Os que partem mais cedo são os cucos, pelas razões já referidas – o seu pico de partida deverá ser em Junho ou Julho.
Algumas aves nidificantes, como as felosas-poliglotas ou os rouxinóis-comuns, também começam a partir bastante cedo e o pico da sua passagem dá-se durante o mês de Agosto.
Para a maioria dos passeriformes migradores – nomeadamente felosas, papa-moscas, chascos e petinha-das-árvores -, o pico acontece em Setembro, o mesmo acontecendo com rolas-bravas, limícolas, gaivinas, aves marinhas e algumas rapinas, entre outras.
Há depois algumas espécies que tipicamente passam mais tarde e cujos números atingem o máximo em Outubro – aqui incluem-se várias espécies que não são migradoras transarianas e que ficarão a invernar pelo sul da Península Ibérica ou pelo norte de África – é o caso dos tordos, dos fringilídeos e dos patos, por exemplo.

Na primeira metade de Novembro ainda há alguns movimentos, mas em geral isso corresponde à ponta final da migração e já não é exactamente um pico.
W: Podes dar algumas sugestões de bons locais para testemunharmos estas migrações?
- Sagres e cabo Espichel para passeriformes migradores e aves de rapina – no caso de Sagres realiza-se o Birdwatching Sagres, festival de observação de aves nos primeiros dias de Outubro;
- Cabo Raso, cabo Carvoeiro e cabo de São Vicente para aves marinhas;
- Qualquer zona húmida costeira para aves aquáticas em geral.
Note-se que a observação das migrações pode não envolver necessariamente aves “a passar” e sim apenas a descansar ou a alimentar-se durante a paragem que fizeram após terem feito uma movimentação nocturna, por exemplo. O que se nota nestes casos é que há uma grande rotação e que o número de aves e a diversidade de espécies varia marcadamente de uns dias para outros.