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Texugo (Meles meles) atropelado numa estrada nacional no Alentejo (Portugal). Foto: Joaquim Pedro Ferreira

Mais de 2000 espécies de animais são alvo de atropelamentos mortais, revela novo estudo

03.04.2025

Por todo o mundo morrem nas estradas animais de mais de 2000 espécies diferentes, desde coelhos-bravos a salamandras e corujas. Destas, 126 são de espécies ameaçadas, revela um novo estudo que disponibiliza um banco mundial de dados de mortalidade por atropelamento da fauna selvagem.

A iniciativa internacional Global Roadkill Data, liderada pelo CIBIO-BIOPOLIS, compilou 208.570 registos de atropelamentos de vertebrados terrestres de 54 países nos seis continentes, incluindo dados entre 1971 e 2024.

Mocho galego (Athene Noctua) atropelado numa estrada nacional no Alentejo. Foto: Joaquim Pedro Ferreira

O aumento da rede rodoviária a nível global tem um impacto profundo na biodiversidade, mas a real dimensão dos atropelamentos de animais permanece pouco quantificada.

Um novo estudo, publicado a 31 de Março na revista Scientific Data, fornece agora aquilo que diz ser o mais abrangente conjunto de dados sobre atropelamentos de fauna selvagem a nível mundial.

As estradas, além de fragmentarem habitats naturais, representam uma ameaça direta para inúmeras espécies através mortalidade por colisão com os veículos.

Este estudo identificou mais de 2000 espécies de animais que estão expostos à mortalidade por atropelamento. Entre as espécies ameaçadas mais frequentemente registadas encontram-se o tamanduá-bandeira, a salamandra-de-fogo e o coelho-bravo, todas enfrentando um risco acrescido pelas colisões com veículos.

Texugo (Meles meles) atropelado numa estrada nacional no Alentejo (Portugal). Foto: Joaquim Pedro Ferreira

Segundo Clara Grilo, investigadora do CIBIO-BIOPOLIS e líder desta iniciativa, “o conjunto de dados destaca 126 espécies ameaçadas expostas ao tráfego, levantando sérias preocupações sobre o seu estado de conservação que já é vulnerável”. “Muitas destas espécies apresentam densidades populacionais baixas, tornando-as particularmente sensíveis a uma mortalidade adicional.”

Este banco de dados, de acesso aberto, representa um avanço significativo na conservação da vida selvagem e no desenvolvimento de infraestruturas de transporte ecologicamente sustentáveis, consideram os investigadores. “Ao fornecer registos detalhados da localização dos atropelamentos, resultantes de levantamentos realizados globalmente, pretende apoiar a investigação científica, orientar a formulação de políticas e mitigar os impactos ecológicos e socioeconómicos das colisões entre fauna e veículos”, segundo um comunicado do CIBIO-BIOPOLIS.

Medidas como passagens superiores e inferiores para fauna, vedações ao longo de estradas e sistema de deteção dos animais e aviso dos condutores podem reduzir significativamente o número de atropelamentos.

Os investigadores apelam a uma maior integração destas soluções em políticas públicas e projetos de infraestrutura rodoviária.

Sinal de trânsito no Parque Nacional de Doñana (Espanha). Foto: Clara Grilo

Este conjunto de dados marca a primeira fase do projeto RISKY (Wildlife Mortality from Energy and Transport Infrastructure), que pretende desenvolver uma plataforma web abrangente sobre a mortalidade da fauna causada por infraestruturas de transporte e energia. A plataforma integrará dados globais de acesso aberto não só de estradas, mas também de caminhos-de-ferro, linhas elétricas e parques eólicos, assim como ferramentas de análise para apoiar a investigação e mapas de sensibilidade para orientar decisores no planeamento e estratégias de mitigação de infraestruturas.

O projeto RISKY, financiado pelo programa OSCARS (Open Science Clusters’ Action for Research and Society) da Comissão Europeia, pretende contribuir com conhecimento para o desenvolvimento e expansão de infra-estruturas de energia e transporte que respeitem e protejam a fauna selvagem.


Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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