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Estudo mostra que lontras-europeias têm um comportamento mais social do que territorial

01.04.2026
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Lontra (Lutra lutra). Foto: Bouke ten Cate/WikiCommons

Uma equipa de investigadores analisou reacções de lontras a cheiros que lhe são estranhos nos rios das Asturias e de Leão, em Espanha, no Noroeste da Península Ibérica. As conclusões deste trabalho, dizem, podem ajudar a conservar melhor as populações desta espécie que tem vindo a recuperar nos últimos anos.

As lontras-europeias (Lutra lutra) são capazes de detetar, em menos de 24 horas, a presença de um possível intruso no seu território através do odor das fezes de marcação de outros indivíduos. É o que demonstra um novo estudo, publicado hoje na revista Royal Society Open Science, que analisou a forma como estes mamíferos respondem quando a paisagem olfativa do seu território é artificialmente alterada.

Liderada pelo Museu Nacional espanhol de Ciências Naturais (MNCN-CSIC), a investigação baseia-se em 217 registos de vídeo obtidos em 26 locais de 13 rios das Astúrias e de Leão.

É a primeira vez que se comprova a reação intensa das lontras quando detetam a presença de outro indivíduo no seu território.

“O comportamento dos exemplares estudados aponta para que a espécie seja mais social do que territorial, ou seja, atribui maior importância à interação do que à marcação do território, um dado relevante para a gestão da conservação de uma espécie cuja presença tem aumentado na Península nas últimas décadas”, segundo um comunicado do MNCN-CSIC.

Mapas de odores

Para as lontras, o olfato é fundamental. Estes animais são capazes de construir autênticos “mapas de odores” dos territórios onde vivem.

Nesta investigação, realizada entre setembro de 2024 e junho de 2025, os investigadores tiraram partido desta característica para estudar o seu comportamento.

A equipa adicionou ou removeu amostras de excrementos de outras lontras em territórios de indivíduos cuja atividade já estava a ser monitorizada. A partir das imagens obtidas por câmaras de foto-armadilhagem, os investigadores compararam três situações: uma fase de controlo, a remoção dos excrementos existentes e a introdução de excrementos de uma lontra estranha ao território.

“Os resultados são claros: apenas a introdução de um odor estranho desencadeou uma resposta imediata e marcada”, acrescentou o comunicado.

“Surpreendeu-nos a rapidez com que as lontras detetam o cheiro de um desconhecido”, comentou Vincenzo Penteriani, investigador do MNCN. “Na maioria dos casos, reagiram nas primeiras 24 horas, o que indica que patrulham as suas zonas de marcação praticamente todos os dias.”

Mais de 58% dos comportamentos registados centraram-se em cheirar e avaliar o novo estímulo químico, o que indica que, em vez de adotarem comportamentos agressivos ou de marcação típicos de uma espécie territorial, as lontras priorizam a possível interação com outro indivíduo.

“O facto de predominar a exploração olfativa em vez da sobre-marcação sugere uma estratégia flexível e de baixo custo. Antes de gastar energia em comportamentos fortemente territoriais, a lontra recolhe informação sobre o intruso: quem passou por ali e se poderá ser um potencial parceiro”, explicou María del Mar Delgado, do Instituto Misto de Investigação em Biodiversidade (IMIB-CSIC).

Os autores deste estudo acreditam que o seu trabalho “contribui para uma melhor compreensão da ecologia social da lontra-europeia e as suas conclusões poderão ajudar a melhorar a gestão das populações, ao permitir interpretar melhor os padrões de marcação e otimizar o desenho dos programas de monitorização”.

“Este conhecimento é crucial para interpretar corretamente os dados de campo e para compreender como as lontras organizam o seu espaço, especialmente num contexto de recuperação populacional e de maior sobreposição entre indivíduos”, sublinhou María del Mar Delgado.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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