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Esta pequena ave atravessa o maior deserto do mundo sem descansar

13.04.2016
leitura de 2 minutos

Os papa-moscas-pretos são mais pequenos do que o pardal-doméstico e pesam cerca de 12 gramas, mas isso não os impede de atravessarem o maior deserto quente do mundo sem pausas para descanso, concluiu agora uma equipa de cientistas holandeses.

 

O papa-moscas-preto (Ficedula hypoleuca) pode ser observado em Portugal durante as épocas de migração, em especial no mês de Setembro, quando a espécie faz uma pausa prolongada, na viagem de regresso aos territórios de invernação na Costa do Marfim e Guiné.

Para chegarem ao destino final de Inverno, estas pequenas aves partem de países como o Reino Unido e a Holanda para uma viagem que demora cerca de cinco semanas, durante as quais um dos maiores desafios é a travessia do deserto do Sahara – tal como no percurso inverso, na altura da Primavera.

 

Papa-moscas-preto em Sussex, no Reino Unido. Foto: Ron Knight / Wiki Commons
Papa-moscas-preto em Sussex, no Reino Unido. Foto: Ron Knight / Wiki Commons

 

Actualmente, com base em estudos de satélite, considera-se que as diferentes espécies de pequenas aves que atravessam este deserto africano, nas suas rotas de migração, voam apenas durante a noite, parando durante o dia para se abrigarem do calor intenso. No entanto, essa análise não tinha ainda sido feita com recurso a observações de indivíduos.

Agora, dois cientistas holandeses concluíram que os papa-moscas-pretos, que medem apenas 12 a 13,5 centímetros, conseguem atravessar de uma só vez o maior deserto quente do mundo, num voo de 40 a 60 horas sem pausas pelo meio. Nesta parte da rota, a espécie contraria o comportamento apresentado durante o resto da viagem, quando voa quase sempre apenas durante noite.

Estes investigadores, da Universidade de Groningen, colocaram em 2013 pequenos aparelhos geolocalizadores em 52 machos e 28 fêmeas de papa-moscas-pretos, nos seus territórios de nidificação em Drenthe, na Holanda, explica o estudo publicado na revista científica Biology Letters.

Em 2014 e 2015, Janne Ouwehand e Christiaan Both conseguiram recapturar 27 destas aves com os respectivos aparelhos. Cada um com um peso de cerca de 0,5 gramas, estes geolocalizadores são como “mochilas muito pequenas”, descreveu Ouwehand à BBC, explicando que gravam os níveis de luz e de temperatura em cada cinco a dez minutos, durante meses.

Foi ao analisarem estes dados que os investigadores concluíram que os papa-moscas-pretos fazem a travessia do deserto num único voo.

Os dois cientistas consideram ainda que estas aves fazem dois percursos diferentes, de acordo com as épocas do ano: durante a Primavera, voam directamente sobre o deserto, mas durante o Outono fazem um desvio de rota sobre o Atlântico.

“A nossa observação de que os papa-moscas na Primavera realizam um voo ininterrupto de pelo menos 500 km para sul, desde o início do deserto, sugere que a fisiologia não é obstáculo para uma grande travessia”, sublinha a equipa no estudo publicado.

Janne Ouwehand e Christiaan Both pretendem agora comparar estas estratégias com as de outras aves migradoras de longa distância – um estudo que consideram “especialmente importante”, tendo em conta os grandes desafios que essas espécies enfrentam actualmente nos territórios onde passam o Inverno.

 

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Se quiser conhecer melhor o papa-moscas-preto e quais os locais e alturas do ano em que pode observar esta pequena ave, pode encontrar essa informação no portal Aves de Portugal, aqui.

 

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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