Projeto MAMEDE quer testar novas técnicas de monitorização de fauna aquática, ajudando a conservação de espécies ameaçadas e a gestão de invasores. A Wilder falou com o responsável do estudo, Filipe Banha.
O projeto MAMEDE – ‘Monitoring Aquatic Mountain Ecosystems: new DEtection tools for rare animal species’, que teve início em outubro, decorre no Parque Natural da Serra de São Mamede, no Alto Alentejo. Entre as técnicas de monitorização que vão ser testadas está o eDNA, também conhecido como DNA ambiental, que diz respeito à recolha e análise do material genético que diferentes seres vivos deixam no ambiente em redor, como a água de rios e lagos.
Vão ser realizadas experiências em todos os cursos de água das bacias hidrográficas dos rios Guadiana e Tejo inseridos nesta área protegida, por onde correm por exemplo os rios Xévora, Caia e Sever e as ribeiras de Arronches e de Nisa.

Nos trabalhos deste projeto, participam investigadores do MARE – Centro de Ciências do Mar e Ambiente e do CREATE, ligados à Universidade de Évora, que é a entidade beneficiária e coordenadora. “O MAMEDE contribuirá decisivamente para a inovação das tecnologias de monitorização da fauna aquática, permitindo desenvolver estratégias mais eficazes de conservação de espécies ameaçadas e de controlo de espécies invasoras, alinhadas com os objetivos do Parque Natural da Serra de São Mamede”, considera o investigador responsável, Filipe Banha.
O alvo do estudo vão ser os principais grupos taxonómicos da fauna aquática da região, incluindo peixes, crustáceos, bivalves, répteis e anfíbios.
Filipe Banha destaca algumas espécies com “elevado valor de conservação” que estão aqui presentes: o Unio tumidiformis, um bivalve dulçaquícola classificado como Em Perigo pela União Internacional para a Conservação da Natureza e o peixe saramugo (Anaecypris hispanica), também considerado “Em Perigo”. “Estas duas espécies endémicas do sul da Península Ibérica estão ameaçadas pelos impactos das espécies invasoras e pela perda de habitat, resultante da degradação e poluição dos cursos de água”, considera este investigador. Outro animal aquático em risco é a rã-ibérica (Rana iberica), “um anfíbio endémico da Península Ibérica, classificado como ‘Vulnerável’, sensível à perda de habitat e à alteração da qualidade da água”.

Quanto às espécies exóticas invasoras já registadas no parque natural alentejano, de acordo com Filipe Banha, destacam-se o lagostim-vermelho-da-Louisiana (Procambarus clarkii) e a lucioperca (Sander lucioperca).
“O trabalho em desenvolvimento visa avaliar o estado de outras espécies nativas ameaçadas e monitorizar potenciais espécies invasoras em expansão, que poderão atingir o parque”, sublinha o mesmo responsável.

Porquê em São Mamede?
O Parque Natural da Serra de São Mamede, que se estende por mais de 55.524 hectares no distrito de Portalegre, “situa-se numa zona de transição biogeográfica onde ocorrem espécies no limite sul da sua distribuição, típicas de regiões mais frias”, nota Filipe Banha. Além disso, “abrange parte do hotspot de biodiversidade da bacia do rio Guadiana, albergando comunidades aquáticas de elevado valor ecológico.”
A equipa quer também avaliar os impactos que as alterações climáticas estão a ter nas espécies da região, considerada “particularmente vulnerável” por se situar no sul de Portugal, onde efeitos como o aumento das temperaturas e a redução da disponibilidade hídrica são mais intensos. O investigador nota também que se trata de uma área próxima da fronteira com Espanha, o que “aumenta ainda o risco de introdução de espécies invasoras, que podem dispersar através das linhas de água transfronteiriças”.
Dentro de três anos, quando o projeto estiver concluído, espera-se que tenham sido alcançados vários resultados, a começar pelo desenvolvimento de “novos produtos e metodologias de monitorização, com o objetivo de preservar a biodiversidade e minimizar os impactos das espécies invasoras”, descreve o investigador da Universidade de Évora. Os trabalhos incluem também “uma forte componente de sensibilização, destinada a reduzir comportamentos de risco que favorecem a dispersão de espécies invasoras”. Está prevista ainda a promoção do consumo de espécies invasoras que já habitam no parque natural, de forma a que sejam removidas de uma forma sustentável.
O projeto é apoiado pelo Programa Promove da Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI e com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Edição 2025, dirigido a iniciativas inovadoras que contribuam para o desenvolvimento das regiões do interior do país.