Estuário do Tejo. Foto: Joana Bourgard/Wilder

Dia do Ambiente: ONU apresenta 7 formas para restaurarmos o planeta

António Guterres apelou ao restauro dos ecossistemas e chamou-nos “geração restauro” no Dia Mundial do Ambiente que se celebra a 5 de Junho. Como o tema escolhido para 2024 é “Restauro da terra e resiliência face à desertificação e seca”, as Nações Unidas apresentam sete formas para ajudar a recuperar o planeta.

“A Humanidade depende da terra. Mas, por todo o mundo, um cocktail tóxico de poluição, caos climático e dizimação da biodiversidade está a transformar terras saudáveis em desertos e ecossistemas vibrantes em zonas mortas. Estamos a aniquilar florestas e a esgotar a força da terra para suportar ecossistemas, agricultura e comunidades”, alertou António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, por ocasião deste dia.

O responsável apelou aos países para cumprirem os seus compromissos para restaurar ecossistemas e solos degradados. “A inação é demasiado cara. Mas acção rápida e eficaz faz sentido economicamente. Cada dólar investido na recuperação dos ecossistemas cria até 30 dólares de benefícios económicos”, acrescentou.

“Somos a geração restauro. Juntos, vamos construir um futuro sustentável para a terra e para a humanidade.”

Mas como? As Nações Unidas apresentam sete formas de o conseguir:

Tornar a agricultura sustentável: em todo o mundo, pelo menos dois mil milhões de pessoas dependem da agricultura para sobreviver. Mas “os nossos sistemas agrícolas actuais são insustentáveis e são uma das maiores causas da degradação dos solos”, alertou a ONU. A organização apela aos Governos para redireccionar subsídios agrícolas para práticas sustentáveis e de mais pequena escala. E os consumidores podem escolher produtos sazonais e locais e incluir mais alimentos amigos do solo – como feijões, lentilhas e ervilhas – na sua alimentação.

Salvar o solo: o solo é bem mais do que a terra debaixo dos nossos pés, é o habitat mais biodiverso do planeta. Quase 60% de todas as espécies vivem no solo e 95% dos alimentos que comemos são aí produzidos. Um solo saudável actua como sumidouro de carbono, armazenando gases com efeito de estufa que, de outra forma, entrariam na atmosfera, tendo assim um papel crucial na mitigação climática. Para manter os solos sustentáveis é preciso “apoiar a agricultura orgânica e amiga do solo”, defende a ONU. Por exemplo, através de cultivar alimentos sem perturbar muito o solo e mantendo uma cobertura orgânica no solo. Cada um de nós pode apostar na compostagem, sempre que possível, para usar restos de frutas e vegetais nos seus jardins e vasos.

Proteger os polinizadores: três em cada quatro culturas de produção de frutas e sementes dependem dos polinizadores. As abelhas são talvez os mais conhecidos mas há muitos outros animais que também pertencem a este grupo, desde os morcegos a borboletas, aves e escaravelhos. Na verdade, sem morcegos bem que poderíamos dizer adeus a bananas, abacates e mangas. Ainda assim, apesar da sua importância, os polinizadores estão em grave declínio. Para os proteger, precisamos reduzir a poluição do ar, minimizar o impacto adverso dos pesticidas e fertilizantes e conservar prados, florestas e zonas húmidas onde vivem. Autoridades e cidadãos poderiam cortar menos a vegetação nas cidades e criar charcos amigos de polinizadores para permitir à natureza regressar. Além disso, plantar uma variedade de flores nativas nas cidades e em jardins privados iria atrair aves, borboletas e abelhas.

Restaurar ecossistemas de água doce: estes ecossistemas sustêm os ciclos da água que mantêm os solos férteis; fornecem alimento e água a milhões de pessoas, protegem-nos de secas e inundações e dão habitat para inúmeras plantas e animais. Ainda assim, estão a desaparecer a um ritmo alarmante por causa da poluição, alterações climáticas, sobre-pesca e sobre-exploração. “Podemos travar este declínio melhorando a qualidade da água, identificando fontes de poluição e monitorizando a saúde dos ecossistemas de água doce”, defende a ONU. As espécies invasoras podem ser removidas e as espécies nativas devem ser replantadas. As cidades podem liderar na inovação no que diz respeito à gestão de efluentes e inundações urbanas, por exemplo.

Renovar áreas marinhas e costeiras: os mares e oceanos fornecem à humanidade oxigénio, alimento e água, enquanto ajudam a mitigar as alterações climáticas. A ONU apela aos Governos para acelerarem a implementação da convenção quadro Mundial para a Biodiversidade Kunming-Montreal e restaurar mangais, florestas de algas marinhas, recifes de coral e estuários. Uma medida crucial é a aposta em produtos que possam ser reutilizados e reciclados e manter os plásticos longe dos oceanos.

Trazer a natureza de volta para as cidades: mais de metade da população do planeta vive em cidades. Até 2050 prevê-se que duas em cada três pessoas vivam num centro urbano. Hoje, as cidades consomem 75% dos recursos do planeta, produzem mais de metade dos resíduos e geram, pelo menos, 60% das emissões de gases com efeito de estufa. À medida que as cidades crescem, transformam o mundo natural à sua volta, potencialmente levando a secas e degradação dos solos. “Mas as cidades não precisam de ser selvas de betão. Florestas urbanas podem melhorar a qualidade do ar, dar sombras e reduzir a necessidade de instalações para refrigeração”, defende a ONU. “Preservar os canais da cidade, os seus lagos e outras zonas com água pode aliviar ondas de calor e aumentar a biodiversidade. Instalar mais jardins nos telhados e verticais nos nossos edifícios pode dar habitats para aves, insectos e plantas.”

Gerar financiamento para o restauro de ecossistemas: os investimentos em soluções baseadas na natureza precisam mais do que duplicar até aos 542 mil milhões de dólares até 2030 para cumprir os objectivos mundiais de restauro dos ecossistemas, de biodiversidade e do clima. Para isso, é preciso a colaboração dos Governos e do sector privado, nomeadamente integrando nos seus modelos de negócio o restauro de ecossistemas, tecnologia verde e gestão eficiente dos resíduos. Os cidadãos podem ajudar a financiar, através de donativos, projectos que estejam a restaurar ecossistemas.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.