PUB

Confirmam que o maior morcego da Europa consegue caçar aves em pleno voo

15.10.2025
leitura de 4 minutos
Morcego-arborícola-gigante a sair de uma caixa-abrigo para caçar. Foto: Jens Rydell

O morcego-arborícola-gigante (Nyctalus lasiopterus), o maior morcego da Europa, consegue capturar aves em pleno voo, confirmaram investigadores espanhóis graças a uma gravação de audio.

Após décadas de tentativas, uma equipa internacional coordenada pela Estação Biológica de Doñana (EBD-CSIC) e pela Universidade de Aarhus, na Dinamarca, documentou, pela primeira vez, como o morcego-arborícola-gigante é capaz de localizar, perseguir, capturar e consumir pequenas aves durante o voo noturno de migração.

Neste caso, os investigadores conseguiram registar o som de um morcego-arborícola-gigante a predar um pisco-de-peito-ruivo em voo.

O estudo, publicado a 9 de outubro na revista Science, foi possível graças ao uso de dispositivos de seguimento de alta precisão e à infraestrutura científica da Reserva Biológica de Doñana (ICTS Doñana).

Duas décadas de investigação

Há vários anos que a equipa científica da Estação Biológica de Doñana estuda o morcego-arborícola-gigante, uma espécie florestal particularmente difícil de monitorizar. Para o efeito, utilizam caixas-abrigo inteligentes instaladas na Reserva Biológica de Doñana. Cada morcego recebe um microchip subcutâneo, detetado por uma antena em cada caixa. O sistema regista as entradas e saídas, armazena os dados e pode enviar alertas diretamente para o telemóvel dos investigadores.

O grupo já sabia que esta espécie não se alimentava apenas de insetos, como os restantes morcegos europeus, mas também de pequenas aves. A presença de penas nos excrementos, durante as épocas de migração, primavera e outono, levantava essa hipótese.

“Sabíamos que o morcego-arborícola-gigante capturava as suas presas habituais em voo, por isso assumimos que fazia o mesmo com as aves. Mas precisávamos de o demonstrar”, explicou, em comunicado, Carlos Ibáñez, investigador da EBD-CSIC.

Mas esta hipótese gerava ceticismo entre os cientistas. Algumas aves pesam até 50% do peso do morcego, o que parecia incompatível com a sua capacidade de voo.

Mais tarde, análises de isótopos estáveis e de ADN presente em penas confirmaram que estes morcegos consumiam aves, identificando até 31 espécies diferentes, todas migradoras noturnas que voam a grande altitude. Estes resultados reforçaram a ideia de que os morcegos caçavam as aves em voo, mas ainda faltava documentar o comportamento diretamente.

Um registo inédito

Para o conseguir, a equipa recorreu a várias metodologias: câmaras direcionadas aos refúgios, radares militares, gravadores de ultrassons em balões de ar quente e GPS.

Mas havia uma limitação técnica: os dispositivos de seguimento disponíveis eram demasiado pesados para serem usados nos morcegos.

A solução veio de pequenos aparelhos eletrónicos ultraleves, desenvolvidos por cientistas da Universidade de Aarhus, capazes de registar sons (incluindo ultrassons emitidos pelos morcegos), aceleração e altitude.

Estes dispositivos foram colocados em morcegos-arborícolas-gigantes da Reserva Biológica de Doñana, na Andaluzia.

Para aceder aos dados recolhidos, os investigadores tinham de recapturar os animais. Assim, sempre que um morcego regressava à sua caixa-abrigo, o microchip era detetado e a equipa podia recolher a informação.

“Ouvir as gravações foi uma experiência fascinante”, contou Elena Tena, investigadora da EBD-CSIC e autora principal do estudo. “Era como viajar com o morcego-arborícola-gigante durante o voo. Conseguíamos ouvir o bater das asas e o som ambiente, como o coaxar das rãs.”

No total, foram registadas 611 interações de caça. A maioria correspondia a ataques breves a insetos. Mas duas gravações revelaram algo diferente: os morcegos subiram a mais de 400 metros de altitude e, após detetar uma presa, mergulharam rapidamente, batendo as asas com maior intensidade. A emissão contínua de zumbidos, em intervalos curtos, indicava que perseguiam a mesma presa.

Num desses casos, após a perseguição, registaram-se 21 vocalizações de aflição de uma ave, seguidas de 23 minutos de mastigação contínua, enquanto o morcego mantinha altitude e emitia ultrassons de orientação. Ficou assim confirmada a captura e o consumo da ave em pleno voo.

“Depois de tantos anos de investigação, ouvir os sons de uma ave em stress, seguidos de silêncio e depois de mastigação prolongada, foi um momento arrebatador”, recordou Tena. “Embora desperte empatia pela presa, é parte da natureza. Sabíamos que tínhamos documentado algo extraordinário.”

Para identificar a espécie presa, a equipa comparou as vocalizações de alarme registadas com uma base de dados de sons de 19 espécies de aves conhecidas na dieta deste morcego. A presa revelou-se ser um pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula).

Além disso, foi encontrado ADN do morcego-arborícola-gigante em asas de passeriformes recolhidas no solo em zonas de passagem migratória. Isso sugere que, para facilitar o consumo em voo de presas volumosas, os morcegos cortam as asas das aves durante a alimentação.

O estudo não só confirma que o morcego-arborícola-gigante é capaz de caçar aves migradoras em voo, como descreve a sua estratégia de caça. As aves, por sua vez, reagem com manobras defensivas semelhantes às usadas contra falcões, mergulhando rapidamente para tentar escapar. “Por agora, só registámos dois casos, por isso ainda não sabemos com que frequência ou com que grau de oportunismo este morcego utiliza esta técnica. Mas o achado prova, sem dúvida, que esta estratégia existe”, salientou Tena.

Os investigadores acreditam que este estudo tem implicações diretas na conservação desta espécie. O morcego-arborícola-gigante está classificado como Vulnerável em Espanha e a nível internacional. Enfrenta ameaças como a perda de habitat, a competição com espécies invasoras e a mortalidade associada a parques eólicos. “Compreender a fundo a sua ecologia e comportamento de caça é essencial para definir medidas eficazes de conservação e gestão”, consideram.

Em Portugal, esta espécie tem estatuto DD (Informação insuficiente). Ainda assim, segundo o Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental, sabe-se que este morcego ocorre no norte e centro do país; no sul os registos restringem-se ao Alentejo Litoral, Baixo Alentejo e Algarve.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

Não perca