Morcego-anão e aerogerador na Serra do Alvão. Foto: Paulo Barros

A história de uma fotografia: o morcego-anão e as eólicas no Alvão

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Um pequeno morcego morto, com 5 gramas, contrasta com o fundo dominado por aerogeradores imponentes, com várias toneladas. Conheça a história da fotografia, “The dark side of green energy“, do investigador Paulo Barros.

Esta fotografia chamou a atenção da Associação Espanhola para a Conservação e Estudo dos Morcegos (SECEMU) que a escolheu para ilustrar o mês de dezembro no seu calendário oficial. A Wilder quis saber a história desta imagem junto do seu autor, Paulo Barros, investigador na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e membro da equipa de investigadores para os morcegos do Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental.

Morcego-anão e aerogerador na Serra do Alvão. Foto: Paulo Barros

WILDER: Quando e onde tirou esta fotografia?

Paulo Barros: A fotografia foi tirada no final da primavera deste ano, no Norte de Portugal, mais precisamente na Serra do Alvão.

W: Qual a espécie na imagem?

Paulo Barros: Trata-se do morcego-anão (Pipistrellus pipistrellus), uma das espécies de morcegos mais abundantes em Portugal Continental. É uma espécie amplamente distribuída por todo o território nacional, com presença generalizada.

Apesar de apresentar um declínio significativo em alguns países europeus, em Portugal os dados disponíveis apontam para uma tendência populacional relativamente estável.

W: Como encontrou este morcego, foi por acaso ou no âmbito de um trabalho de campo?

Paulo Barros: Esta é uma das espécies com maior incidência de mortalidade associada a parques eólicos, tanto em Portugal como na Europa, e foi encontrada no âmbito das monitorizações regulares (semanais) de um dos parques eólicos da Serra do Alvão.

Em Portugal, a monitorização de morcegos em parques eólicos — em particular os que se inserem em áreas da Rede Natura 2000 — é obrigatória no contexto dos processos de Avaliação de Impacte Ambiental (AIA). Os respetivos condicionamentos de licenciamento impõem medidas específicas para este grupo faunístico. A obrigatoriedade e o enquadramento legal resultam essencialmente da legislação ambiental de AIA e das diretrizes técnicas do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), bem como das decisões sobre impacte ambiental que acompanham cada projeto individual.

Na maioria dos casos, a monitorização de morcegos torna-se uma condição vinculativa do processo de AIA, obrigatória para o promotor e, normalmente, inclui o registo da atividade acústica, a inventariação e monitorização de abrigos e a monitorização da mortalidade.

W: Porque considera esta uma fotografia especial? Qual a sua mensagem?

Paulo Barros: Para mim esta fotografia é especial porque condensa, num único enquadramento simples e direto, uma tensão ética e ecologicamente complexa que, muitas vezes, permanece invisível no debate público sobre as energias renováveis.

O primeiro plano, visualmente forte, mostra um pequeno e frágil morcego morto, com apenas cerca de 5 gramas, contrastando com o fundo dominado por aerogeradores imponentes, com várias toneladas, símbolos de progresso e sustentabilidade.

A fotografia, apesar de expressar a perda individual de um morcego comum, funciona como uma metáfora: não é apenas “um morcego comum”, mas sim o custo oculto de uma solução global. O título da fotografia, “The dark side of green energy”, orienta a leitura da imagem para uma ideia clara — nenhuma forma de produção de energia é isenta de impactes ambientais.

A imagem não demoniza a energia eólica, mas questiona a narrativa simplificada de que “verde” significa automaticamente “inofensivo”. A transição energética, embora necessária, tem efeitos reais sobre a biodiversidade, neste caso sobre os quirópteros, espécies protegidas e ecologicamente fundamentais para os ecossistemas.

Em síntese, considero que é uma fotografia poderosa porque não grita — mostra; não acusa diretamente — obriga a pensar. Transforma um dado técnico numa mensagem acessível e emocionalmente forte, funcionando simultaneamente como denúncia, alerta e convite à responsabilidade, sendo particularmente relevante para o público em geral.

W: O que se sabe sobre os impactos das turbinas eólicas nos morcegos de Portugal?

Paulo Barros: Em Portugal, o conhecimento sobre os impactes dos parques eólicos nos morcegos é atualmente relativamente sólido em termos qualitativos e de identificação de padrões gerais, embora persistam lacunas quantitativas e regionais. Este conhecimento resulta, sobretudo, de mais de 20 anos de monitorizações associadas aos processos de Avaliação de Impacte Ambiental, relatórios técnicos de monitorização e alguns estudos científicos publicados.

Em termos de impactes diretos, a mortalidade ocorre durante a fase de exploração e pode resultar de dois mecanismos principais: colisão com as pás dos aerogeradores e barotrauma.

Em Portugal, a mortalidade absoluta tende a ser moderada quando comparada com Espanha e com regiões da Europa Central, mas é ecologicamente relevante. Tal deve-se, sobretudo, à tipologia geográfica dos parques eólicos portugueses, geralmente localizados em zonas montanhosas, onde a atividade de morcegos é menor do que em áreas de baixa altitude, típicas da localização da maioria dos parques eólicos em Espanha e na Europa Central.

Os impactes indiretos prendem-se, principalmente, com a perturbação e possível exclusão, resultando numa possível redução da atividade e alterações no uso do espaço na zona onde são instalados os parques eólicos.

Relativamente às espécies mais afetadas em Portugal, os dados de monitorização revelam um padrão consistente, destacando-se Pipistrellus pipistrellus, Pipistrellus pygmaeus (morcego-pigmeu), Nyctalus leisleri (morcego-arborícola-pequeno), Tadarida teniotis (morcego-rabudo), Hypsugo savii (morcego de Savi) e Cnephaeus serotinus (morcego-hortelão-escuro) como as espécies com maior registo de mortalidade.

Estas espécies, típicas de áreas abertas, partilham características de voo relativamente alto e rápido, o que aumenta o risco de colisão com as pás dos aerogeradores.

Os períodos de maior risco correspondem às épocas de migração regional (primavera e outono) e de dispersão pós-reprodutora, especialmente em parques eólicos localizados próximos de vales e linhas de água, em cristas com continuidade florestal ou inseridos em paisagens estruturadas (mosaicos florestais e agroflorestais).

Apesar do conhecimento já existente, subsistem lacunas importantes, nomeadamente ao nível dos impactes a longo prazo sobre as populações, dos efeitos cumulativos de múltiplos parques numa mesma região e da relação direta entre a mortalidade observada e as tendências populacionais nacionais.

W: E haverá formas de compatibilizar a conservação dos morcegos e a produção de energia eólica?

Paulo Barros: Embora não seja possível eliminar totalmente os impactos sobre os morcegos, existem medidas capazes de minimizar significativamente esses impactos, permitindo compatibilizar a conservação das espécies com a produção de energia eólica.

Isso é viável desde que o problema seja abordado como uma questão de planeamento, gestão adaptativa e responsabilidade ecológica, e não como um conflito irreconciliável.

A compatibilização começa com um planeamento rigoroso, evitando a construção de parques eólicos em corredores ecológicos, áreas de elevada atividade de morcegos e proximidade de abrigos. A fase seguinte deve basear-se em estudos pré-construção robustos, incluindo amostragem acústica em altura (na zona de impacto real) e não apenas ao nível do solo.

Durante a fase de exploração, a medida mais eficaz e bem documentada é o aumento da velocidade de arranque (cut-in speed) das turbinas nos períodos de maior risco, nomeadamente nas épocas de migração regional (primavera e outono) e de dispersão pós-reprodutora. Estudos indicam que esta medida pode reduzir a mortalidade em 50 a 90%, com perdas energéticas geralmente inferiores a 1–3%.

Uma variante mais avançada, conhecida como “curtailment inteligente” (smart curtailment), integra a deteção acústica em tempo real, juntamente com variáveis ambientais como vento e temperatura. Esse sistema desliga os aerogeradores apenas quando o risco de colisão é elevado, reduzindo ainda mais a mortalidade dos morcegos, mantendo simultaneamente elevada a produção de energia.


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Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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