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Como é que este comboio de depressões afectou a vida selvagem de Portugal?

13.02.2026
leitura de 8 minutos
Pilrito-comum (Calidris alpina). Foto: Zeynel Cebeci/WikiCommons

A chuva intensa e persistente e os ventos fortes causaram impactos também em animais e plantas. Conheça o que mamíferos carnívoros, aves, borboletas noturnas e plantas aquáticas podem ganhar ou perder.

As cheias, a queda de árvores, os ventos fortes e as chuvas intensas estão a ter um impacto na vida de plantas e de animais, por todo o país.

Um desses impactos é na temporada de reprodução que, para algumas aves, já começou. Por exemplo, os grifos já estão a incubar os seus ovos.

Paulo Catry, professor e investigador do MARE (Centro de Ciências do Mar e do Ambiente) do ISPA – Instituto Universitário, esteve há dias a observar uma colónia de grifos onde a incubação já começou.

grifos num rochedo
Grifos. Foto: Dave Massie/Wiki Commons

“A meio do dia, apesar do céu nebulado, muitos dos abutres estavam em pé ao lado do ninho (em vez de sentados sobre os ovos), de asas abertas, procurando secar as penas”, contou à Wilder. “Quando há chuva intensa as aves podem ter dificuldade em manter os ovos quentes e em manterem-se secas, o que aumenta os seus gastos energéticos. Para aves planadoras como os grifos, isto pode ser particularmente grave, porque também não conseguem movimentar-se bem (por falta de correntes térmicas ascendentes) e, portanto, têm maior dificuldade em encontrar alimento. Tudo isto pode levar a falhas na reprodução.”

Paulo Catry recorda que “existem alguns estudos na época de nidificação (quando é mais fácil medir o impacto sobre as aves) que indicam que muita chuva leva a um menor sucesso reprodutor”.

O mau tempo também pode afetar a forma como as aves se alimentam. “Quando chove, os insetos tornam-se menos ativos, o que afeta aves insetívoras em busca de alimento”, lembrou Paulo Catry. Por outro lado, aves que se alimentam de invertebrados do solo (como minhocas) – por exemplo melros, poupas, abibes ou tarambolas-douradas – podem ser favorecidas por a água trazê-los mais à superfície.

As aves estuarinas – como flamingos, pilritos, borrelhos, alfaiates, maçaricos – estarão a ter mais dificuldades em encontrar alimento. “Com os níveis da água muito elevados em estuários, como o do Sado ou do Tejo, as lamas que normalmente são expostas pela maré-baixa podem ficar permanentemente submersas durante dias, afetando severamente a acessibilidade de zonas de alimentação” destas aves. Além disso, “a água doce mata muitas das suas espécies-presa”.

Pilrito-comum (Calidris alpina). Foto: Zeynel Cebeci/WikiCommons

“A forte ondulação marinha influencia também as zonas intermareais da costa rochosa e arenosa, tornando largamente inacessíveis zonas de alimentação de rolas-do-mar, pilritos-das-praias e ostraceiros. No fim de semana passada, com marés mortas e grandes ondas, constatei que as limícolas mal se conseguiam alimentar na costa da Ericeira durante a baixa-mar.”

As aves marinhas registam os efeitos mais visíveis deste comboio de depressões. Segundo a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), há registo de mais de 400 papagaios-do-mar encontrados mortos na costa portuguesa nos últimos dias. Mas “tudo indica que a dimensão real do fenómeno seja superior”, escreve a organização em comunicado.

Algumas aves marinhas “chegam a procurar refúgio em lagoas costeiras, estuários ou outros setores abrigados do litoral quando o mau tempo se prolonga”, disse Paulo Catry. “Entre as aves que se observam fugindo ao mau tempo nestes contextos contam-se algumas gaivotas – como as tridáctilas, pequenas, ou de cabeça-preta – e as mobelhas, aves que são raras entre nós”.

A complexidade e diversidade do mundo natural não permite respostas simples. Neste caso do mau tempo que vivemos há espécies que perdem mas também há outras que ganham.

“Esta chuva abundante enche numerosos açudes e charcas que existem nas regiões mais áridas do país e revitaliza ecossistemas críticos para uma parte da avifauna ibérica, como as Marismas do Guadalquivir (de onde nos chegam muitas aves aquáticas)”, destacou Paulo Catry. Além disso, “os solos encharcados também vão favorecer o desenvolvimento das plantas, das suas flores e frutos, dos insetos, dos anfíbios e de outra fauna. Certamente que, para muitas aves, esta chuva invernal, que tanto nos custa, vai representar uma primavera rica e muito produtiva”.

Borboletas noturnas estão “preparadas”

João Nunes, da Rede de Estações de Borboletas Noturnas, também é da mesma opinião. Com cerca de 3000 espécies de borboletas noturnas em Portugal continental “haverá sempre vencedores e vencidos, seja qual for a ameaça”.

Segundo este perito, “as borboletas que voam nesta altura estão ‘preparadas’ para aguentar com chuva, vento e frio. Claro está que um inverno tão intenso pode sempre reduzir o sucesso reprodutivo de algumas espécies em algumas regiões, mas dificilmente será um fenómeno generalizado”.

“As espécies têm as suas dinâmicas populacionais e não será certamente um inverno mais chuvoso que vai interferir com a viabilidade da espécie. Isso apenas se colocará em espécies já ameaçadas previamente, cuja conservação depende muitas vezes da ausência de eventos estocásticos.” 

Já na sazonalidade das espécies, estes eventos podem ter um maior efeito. “Certamente em algumas zonas do país as borboletas do início da primavera, que por vezes começam a surgir logo em fevereiro, podem demorar um pouco mais a emergir das pupas”, salientou à Wilder. “Não obstante, já foram registadas na Rede de Estações de Borboletas Noturnas este ano algumas espécies que anunciam a primavera, como por exemplo a Orthosia gothica.”

Carnívoros procuram outros refúgios

Os mamíferos carnívoros estão, de uma forma geral, “bem adaptados ao meio onde vivem e ao expectável risco de inundações durante o inverno”, disse Francisco Álvares, investigador no CIBIO/InBIO – Associação BIOPOLIS dedicado aos mamíferos carnívoros. 

Raposa. Foto: Monicore/Pixabay

Estes animais selvagens “sabem procurar refúgio em locais adequados, longe de zonas inundáveis e, possivelmente, conseguem até prever fenómenos extremos, permitindo-lhes afastar-se a tempo e procurar um refúgio seguro”. Os mamíferos carnívoros, por exemplo, têm uma “elevada capacidade de movimentação” e ocupam territórios extensos.  

No entanto, “obviamente que poderá haver alguma mortalidade pontual, principalmente por afogamento e entre os indivíduos mais jovens e inexperientes, mas julgo que sem grande impacto ao nível populacional”.

“A chuva intensa e prolongada também poderá reduzir a capacidade de procurarem alimento, mas nesta altura do ano (inverno), a maioria dos mamíferos já reduz naturalmente a sua actividade, incluindo períodos de dormência ou hibernação.”

Ainda assim, o maior impacto das inundações poderá ser nos mamíferos com hábitos semi-aquáticos ou que normalmente ocupam zonas ribeirinhas, como a lontra e o toirão, a toupeira-de-água, roedores e musaranhos. “O impacto negativo será, principalmente, pela destruição de abrigos, os quais podem ser abandonados atempadamente para selecionar locais mais seguros.”

Lontra (Lutra lutra) Foto: Erik Christensen/Wiki Commons

Por outro lado, “para essas espécies semi-aquáticas, as inundações podem até ser positivas, permitindo uma maior área para se alimentarem ou a melhoria da qualidade da água”.

Os mamíferos carnívoros que procuram abrigo em árvores – como a fuinha, a marta e a geneta – “também poderão potencialmente ser afetados pela queda de árvores”. Mas este “não deverá ser um impacto muito significativo pois normalmente estas espécies abrigam-se em árvores nativas de grande porte e bastante robustas (carvalhos e castanheiros), ao contrário das árvores de produção (eucalipto e pinheiro) que foram as maioritariamente afetadas pelos ventos fortes no Litoral Centro do país”.

Há plantas aquáticas raras que podem agora ressurgir

Também Jael Palhas não tem uma resposta única para esta questão. Este investigador no Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra explicou à Wilder que “após muitos anos de secas extremas e prolongadas, a ocorrência de anos com precipitação excepcional poderá afectar muito positivamente alguns habitats e negativamente outros”.

Alguns dos habitats que vão ganhar são os charcos temporários, os charcos dunares e as extensas zonas húmidas que há muitos anos não inundavam, como pauis e leitos de cheias. “Espécies como a Caropsis verticillato-inundata (alcaravia-dos-charcos), que dependem destes charcos temporários, alguns dos quais onde há anos não era detectada, poderão ter este ano uma recuperação da extensão e qualidade dos habitats e recuperar as suas populações.”

Por outro lado, “alguns charcos e lagoas poderão ficar temporariamente conectadas a massas de água maiores e permanentes, facilitando a dispersão de espécies invasoras tanto de plantas como de animais (como lagostins, peixes ou moluscos)”.

“A maior profundidade da água e o maior tempo de inundação facilitam também um maior impacto de espécies invasoras como o lagostim, que assim poderão ter impactes negativos consideráveis em áreas onde antes estavam ausentes ou onde não atingiam grandes densidades populacionais, porque em águas baixas são mais predados por aves e mamíferos.”

Ludevígias no rio Sado. Foto: Jael Palhas

Para muitas invasoras, “estas cheias poderão agravar a invasão ou até causar a libertação na natureza de novas espécies invasoras que estejam em charcos, lagos ou aquários em áreas que tenham sido inundadas agora”. Algumas espécies de plantas anfíbias invasoras, como é o caso das ludevígias, poderão aumentar drasticamente a sua distribuição, pois os fragmentos e sementes transportados pelas cheias poderão colonizar charcos, pauis e campos agrícolas, o que poderá levar a aumentar não apenas a sua dispersão mas também os seus impactes em novas actividades (arrozais, por exemplo)”.

Mas o aumento dos caudais dos rios e as cheias “poderão ter impactes positivos no controlo de algumas invasoras aquáticas, como o jacinto-de-água que, sendo uma planta flutuante livre, será facilmente arrastada para jusante, em direcção ao mar”. Segundo Jael Palhas, este ano poderemos ter “uma boa oportunidade para o conseguir erradicar de algumas áreas”.

Entre os que têm a ganhar estão algumas espécies dependentes dos leitos de cheias e das dinâmicas de sedimentos dos rios. Estas poderão mesmo “conseguir recuperar as suas populações durante alguns anos”.

Além disso, este “poderá ser um bom ano para redescobrir algumas das espécies que estão desaparecidas e cujas sementes possam ser expostas pela erosão das margens  ou dos leitos por caudais excepcionais ou por alagamento de áreas que não eram inundadas há muito tempo”, destacou Jael Palhas. “Espécies como as estrelas-de-água (Damasonium sp.) a Sagittaria ou a Berula erecta, poderão voltar a germinar nas áreas de ocorrência histórica destas espécies. Espécies que preferem longos tempos de encharcamento como o lindíssimo junco-florido poderão este ano recuperar um pouco o estado de algumas populações e produzir mais floração”.

Junco-florido. Foto: Jael Palhas

De momento, os especialistas estão preocupados com a Há uma preocupação com a Linaria almadensis, recentemente descoberta na zona de Almada. “Não se sabe se as derrocadas que têm estado a acontecer na zona poderão ter feito desaparecer esta espécie, empurrando-a para a extinção”, alertou Jael Palhas. É preciso aguardar pela melhoria das condições climatéricas para saber o que aconteceu.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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