O cientista e botânico português João Farminhão descreveu e batizou a nova Linaria almadensis, espécie endémica do concelho de Almada, num artigo científico publicado esta semana. A Wilder falou com o autor e conta-lhe tudo.
A descoberta de João Farminhão da planta que batizou agora como Linaria almadensis, em honra do concelho de Almada, resulta de um paciente trabalho de revisão taxonómica. Faz lembrar aqueles detetives que juntam pistas como peças de um ‘puzzle’, até finalmente depararem com a solução do enigma. A descrição da nova espécie foi publicada esta segunda-feira na Botany Letters.
Afinal, não é só na Amazónia ou em ilhas e montanhas tropicais de acesso difícil que se podem descobrir novas plantas para a ciência. “Às vezes, podem estar praticamente por baixo do nosso nariz”, nota o investigador do CFE/Laboratório Associado Terra (Universidade de Coimbra). No caso desta linária, trata-se de uma espécie das arribas do Gargalo do Tejo, de onde será endémica – ou seja, existe exclusivamente nesta parte do concelho de Almada, mesmo frente à cidade de Lisboa, e em mais lado nenhum do planeta.
Foi a 31 de março de 2025, há quase um ano, que se deu o primeiro encontro de João Farminhão com exemplares vivos da Linaria almadensis, contou o botânico à Wilder. Tinha apanhado um Uber até umas arribas que parecem vigiadas pela estátua do Cristo Rei, situadas junto ao troço mais estreito da foz do Tejo – daí o sugestivo nome de Gargalo do Tejo. Ali, aos pés do monumento, caiu de joelhos quando encontrou finalmente um pequeno grupo das linárias que procurava há algum tempo. Mas por estarem alguns metros acima nas arribas, não as conseguiu alcançar. Foi só no dia seguinte, com a ajuda do avô, que finalmente colheu um exemplar, “curiosamente no Dia das Mentiras.”
Um mistério num herbário
Mas esta história começa em 2022, quando João Farminhão viu pela primeira vez, numa folha guardada no herbário LISI (Instituto Superior de Agronomia, Lisboa), uma linária que não correspondia a nada que tivesse visto em publicações científicas. Tinha sido colhida em 2019 em Porto Brandão, uma freguesia ribeirinha do concelho de Almada, e identificada como Linaria supina.
Algum tempo depois, uma nova pista: em conversa com outro botânico, Miguel Porto, num encontro da Sociedade Portuguesa de Botânica, soube que uma amiga comum (Ana Júlia Pereira) tinha observado ao pé do Cristo Rei umas linárias de aparência diferente, que identificara como Linaria supina. Seria a mesma linária que tinha visto no herbário do Instituto Superior de Agronomia? De facto, foi junto àquele monumento que acabou por encontrar os primeiros exemplares vivos da espécie.
O trabalho não ficou por aqui. Foi também necessário consultar a informação disponível sobre todas as linárias existentes em Portugal, Espanha e Norte de África que pertencem ao mesmo grupo desta planta: cerca de 50 espécies e subespécies agrupadas na secção Supinae, uma das vários conjuntos taxonómicos em que se divide o género Linaria. Concluiu que nenhuma destas era igual às linárias do Gargalo do Tejo.
A partir do cruzamento de informações recolhidas em exemplares da nova espécie que encontrou em herbários, imagens de satélite e mapas geológicos, identificou também outros locais para trabalho de campo, incluindo Porto Brandão, a Boca do Vento, Palença, Arrábida ou Banática, conta no artigo científico agora publicado, onde acrescenta que só nesta última localidade detetou mais exemplares da espécie, no final de abril de 2025.
Quanto ao total de exemplares da Linaria almadensis que o investigador localizou em diferentes herbários, totalizam um número baixíssimo: apenas sete exemplares desta planta endémica do Gargalo do Tejo, quando “é comum encontrarem-se dezenas de exemplares de uma mesma espécie em herbários”.
Ainda assim, foi o suficiente para refazer a história científica desta linária misteriosa. Foi colhida pela primeira vez em Porto Brandão, em 1843, pelo botânico austro-húngaro Friedrich Welwitsch, quando este vivia em Portugal, e anos depois pelo jardineiro botânico António Ricardo da Cunha, em 1881. No começo do século XX, António Xavier Pereira Coutinho identificou esses dois exemplares como pertencentes a uma espécie endémica do Norte da Argélia e Marrocos, a Linaria marginata. “Estranho, porque se tratava de uma planta encontrada em Portugal, junto ao Tejo”, explica João Farminhão. Mais tarde, outros botânicos confundiram exemplares desta linária com outras do mesmo grupo, como a Linaria supina e a Linaria polygalifolia, sem nunca a identificarem como nova.

Ameaças que pedem medidas urgentes
Apesar da boa notícia, João Farminhão confessa-se muito preocupado com o futuro da Linaria almadensis, uma vez que só se conhecem até hoje 34 exemplares. Pela investigação que fez, concluiu que a nova espécie está limitada a um habitat muito específico, pois nasce exclusivamente nas arribas da margem sul do Tejo voltadas para Lisboa, em paredões e terraços arenosos na proximidade de rochas calcárias. “Acredito que venham a ser encontrados mais núcleos entre Cacilhas e a Trafaria, mas só devem conseguir identificá-los de binóculos por estarem longe, nas arribas.”
O tipo de habitat a que está associada – prados rupícolas calcários, ou habitat 6110 – é considerado pela legislação europeia como prioritário para a conservação, estando incluído no Anexo I da Diretiva Habitats. “Em teoria, por este ser um habitat prioritário, deveriam ser criadas áreas protegidas, de âmbito nacional ou local”, explica o botânico da Universidade de Coimbra. Além do mais, estas arribas junto ao Tejo guardam também um rico património geológico e paleontológico, avisa. “Já aqui foram identificados fósseis de várias espécies de crocodilos e de outros animais associados a outras paragens.”


A urgência na designação de áreas de conservação nesta área “densamente povoada” deve-se a duas ameaças principais para a nova Linaria almadensis, que numa avaliação preliminar ficou classificada como Criticamente em Perigo, o último degrau de ameaça antes da extinção.
Em primeiro lugar, “uma ameaça histórica grande é a artificialização de uma parte das arribas, cimentada para tornar possível a instalação de várias infraestruturas portuárias e industriais”, lembra o investigador.
Outra ameaça importante são as plantas exóticas invasoras que competem hoje em dia com esta linária, como é o caso das coloridas capuchinhas ou chagas (Tropaleoum majus): “são a nemesis da Linaria almadensis, pois invadem toda a arriba e não resta habitat para esta planta”, adverte João Farminhão. Mas não são caso único. Tanto as canas (Arundo donax) como as azedas (Oxalis pes-caprae) são outras invasoras com grandes impactos.



Ainda assim, esta é uma planta que em paredões mais íngremes cresce praticamente solitária, “muito aprumada, em sítios na vertical a 90 graus onde não cresce quase nada”. A única que lhe faz companhia nesses locais é a corriola-rosada (Convolvulus althaeoides), uma pequena herbácea.
A paisagem que avistamos ao atravessar a Ponte 25 de Abril, tanto o Gargalo do Tejo como a restante foz do rio, são muito recentes do ponto de vista da geologia, acrescenta o investigador: até há pouco tempo, o Tejo entrava no Atlântico mais para sul, pela atual Lagoa de Albufeira, no concelho de Sesimbra. “Foi só há 1,7 milhões de anos, com o surgimento de uma falha tectónica conhecida pelos geólogos como Falha do Gargalo do Tejo, que toda esta parte do rio passou a existir, o que significa que é aí que começa a história da nossa linária.”
Orquídeas honorárias
João Farminhão explica também que gosta muito de linárias e foi por isso que decidiu iniciar um trabalho de revisão taxonómica das espécies deste género guardadas em herbários, que o conduziu à Linaria almadensis. “São plantas com flores muito bonitas, que têm a característica de ter um esporão de néctar.” Trata-se de um apêndice que pode ser mais ou menos alongado e que dessa forma limita o acesso ao néctar apenas a alguns insetos, dependendo do comprimento da língua que estes usam para sugar. O mesmo acontece por exemplo com as orquídeas, pelo que as linárias são assim uma espécie de “orquídeas honorárias”.

No caso da planta agora descrita para a ciência, os seus polinizadores pertencem ao género Anthophora, “abelhas de língua comprida que fazem ninho em taludes em zonas inclinadas”, como acontece nos locais onde vive esta linária.
Farminhão está também surpreendido por estas arribas junto à foz do rio nunca terem sido exploradas a nível botânico, tarefa que aproveitou para fazer: “não há nenhum trabalho que já tenha sido publicado sobre a flora do Gargalo do Tejo, e isto numa zona situada mesmo à beira de uma capital europeia.”
Saiba mais.
Leia mais informação sobre esta nova linária no portal Flora-On, da Sociedade Portuguesa de Botânica, aqui.