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Castro Verde nunca foi tão importante para o rolieiro, ave Criticamente Em Perigo

31.07.2026
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Rolieiro. Foto: D.R.

O rolieiro está entre as aves mais espantosas de Portugal. A cada primavera, esta ave migradora de longas distâncias volta de África para se reproduzir no nosso país, quase sempre em Castro Verde (Alentejo). Nos últimos 20 anos, esta que é uma das 14 espécies de aves mais raras de Portugal, perdeu 67% da sua área de distribuição mas aumentou a sua população naquele cantinho alentejano, revela um novo estudo.

O que se passa em Castro Verde pode ser considerado um sucesso de conservação da natureza. Graças à instalação de ninhos artificiais nos últimos 20 anos, o número de rolieiros que ali se reproduzem aumentou desde 2009, ano em que foi realizado o primeiro censo nacional da espécie.

Um rolieiro em voo, no Alentejo. Foto: Norberto Esteves/Wiki Commons

Em 2024, restavam apenas entre 72 a 82 casais reprodutores desta espécie em Portugal, 96% dos quais (69 a 79 casais reprodutores) encontrava-se concentrada em Castro Verde. Apenas foram registados três casais fora desta área, nas Zonas de Proteção Especial de São Vicente e de Vila Fernando.

Estes dados fazem parte de um estudo sobre a população de rolieiro realizado por uma equipa de investigadores composta por Nuno Fialho (da Estação Biológica de Mértola), Inês Catry, (da Estação Biológica de Mértola e do CE3C, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa), João Gameiro (do CIBIO) e Teresa Catry (do CE3C).

Esta equipa combinou dados de censos nacionais da população reprodutora com a monitorização de longo prazo de cerca de 650 eventos de nidificação e um programa de anilhagem com anilhas de cor que envolveu mais de 1.500 indivíduos marcados.

Inês Catry em trabalho de monitorização de crias de rolieiro em Castro Verde. Foto: Wilder

Nos últimos 20 anos, Castro Verde tem vindo a reforçar a sua posição como bastião para esta ave colorida.

“Este crescimento deve-se, sobretudo, à evolução positiva observada na Zona de Proteção Especial (ZPE) de Castro Verde, onde o número de casais reprodutores duplicou ao longo das últimas duas décadas”, escrevem os autores de um artigo publicado a 23 de julho na revista científica Ardeola.

A esmagadora maioria, 96%, escolhe os campos de Castro Verde para se reproduzir, antes de voltar para África subsariana, sobretudo para as savanas da África Austral, para a invernada.

É na ZPE de Castro Verde que subsiste o principal núcleo populacional da espécie em Portugal. “Esta área abrange cerca de 850 quilómetros quadrados e apresenta uma paisagem moldada pela atividade agrícola, dominada sobretudo por campos de cereais de sequeiro e pousios utilizados para a criação extensiva de gado.” Os autores acreditam que tal se deva, em grande parte, “à disponibilização contínua de ninhos artificiais e ao aumento da produtividade reprodutora” naquela região alentejana.

“Atualmente, a população reprodutora encontra-se praticamente confinada à ZPE de Castro Verde, pelo que o aumento observado a nível nacional resulta essencialmente do crescimento sustentado desta população, onde o número de casais duplicou ao longo dos últimos vinte anos.”

Inês e Teresa Catry em trabalho de monitorização dos rolieiros em Castro Verde. Foto: Wilder

Mas a área de distribuição da espécie em Portugal, que desde 2006 o estatuto de Criticamente Em Perigo de extinção, recuou 67% entre o período de 1999–2005 e 2024. 

Demasiado dependentes de ninhos artificiais

A situação de vulnerabilidade do rolieiro explica-se pela perda de habitat de alimentação, provocada pela intensificação agrícola, e pela falta de cavidades naturais para nidificação.

“A população portuguesa de rolieiro continua a ser pequena, geograficamente muito restrita e fortemente dependente de ninhos artificiais (utilizados por 81% dos casais reprodutores) e de uma elevada produtividade reprodutora”, escrevem os autores do artigo.

Ninho artificial em Castro Verde, ocupado por um rolieiro. Foto: D.R.

Nos últimos 20 anos, o rolieiro beneficiou da instalação de cerca de mil ninhos artificiais, originalmente concebidos para o peneireiro-das-torres (Falco naumanni). Estes incluíram caixas-ninho de madeira, potes de barro e paredes artificiais de nidificação.

Nas últimas duas décadas verificaram-se alterações significativas na proporção de rolieiros que utilizam ninhos artificiais. “Em Castro Verde, essa proporção duplicou em 20 anos e, em 2024, 81% dos casais reprodutores ocupavam ninhos artificiais.”

“Enquanto o desaparecimento de casais reprodutores em grande parte do território nacional parece resultar da perda e degradação do habitat e da escassez de locais adequados para nidificação, o crescimento excecional observado em Castro Verde é atribuído, em larga medida, ao sucesso dos programas de instalação de ninhos artificiais”, escrevem os autores do artigo.

Mas resta saber se esta evolução é sustentável no tempo, especialmente num contexto de alterações climáticas.

Crias de rolieiro num ninho artificial. Foto: D.R.

A verdade é que, embora a população portuguesa de rolieiro tenha aumentado ao longo dos últimos 20 anos, continua a contar com menos de 100 casais reprodutores e ocupa a menor área de distribuição alguma vez registada.

Além disso, sublinham os investigadores, “como cerca de 80% dos casais reprodutores utilizam ninhos artificiais, a população tornou-se fortemente dependente das medidas de conservação, nomeadamente da manutenção contínua destas estruturas de nidificação”.

“Os resultados deste estudo sugerem que estruturas artificiais, como caixas-ninho e paredes artificiais de betão, constituem substitutos eficazes das cavidades naturais. Contudo, podem também criar uma armadilha de conservação, na medida em que a persistência da população passa a depender de uma gestão continuada.”

Ainda assim, salientam que o fornecimento de caixas-ninho representa um investimento reduzido. “Estima-se um custo de aproximadamente 11 euros por casal e por ano, valor que corresponde apenas a uma pequena fração das receitas do alojamento turístico da região, fortemente apoiadas pelo turismo de natureza.”

Os autores defendem, contudo, que as tradicionais caixas-ninho de madeira deverão ser progressivamente substituídas por modelos com maior isolamento térmico, capazes de resistir ao aumento previsto da frequência, duração e intensidade das ondas de calor.

Teresa Catry a fazer monitorização de rolieiros em Castro Verde. Foto: Wilder

Para o futuro, estes investigadores consideram “uma prioridade” estudar os possíveis impactos das alterações da paisagem sobre os principais recursos alimentares do rolieiro.

Além disso, defendem que “os esforços de conservação deverão centrar-se na manutenção do núcleo populacional de Castro Verde, promovendo simultaneamente a expansão da distribuição do rolieiro em Portugal, tanto para recuperar parte da sua distribuição histórica como para reduzir a vulnerabilidade da espécie a ameaças localizadas e aumentar a sua resiliência a longo prazo”.

A colonização de novas áreas dependerá, provavelmente, da criação de corredores de habitat que assegurem locais adequados para nidificação e alimentação. “Este tipo de gestão poderá favorecer uma expansão gradual da população a partir de Castro Verde.”

Por fim, os autores consideram que a monitorização de longo prazo “é indispensável para aumentar a eficácia e a eficiência das ações de conservação”. “A avaliação contínua dos efeitos das diferentes medidas de gestão permitirá melhorar a tomada de decisões, adaptar as estratégias de conservação e maximizar o sucesso da proteção desta espécie.”


Descubra aqui sete curiosidades sobre uma das aves mais coloridas de Portugal.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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