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Investigadores desvendam a viagem de um rolieiro, do Baixo Alentejo ao sul de África

26.04.2024
leitura de 4 minutos
Foto: Andy Morffew

Na primavera de 2023, uma equipa de cientistas portugueses marcou cinco rolieiros com pequenos emissores GPS para os seguir nos seus voos, incluindo na migração. A Wilder falou com a investigadora Teresa Catry e conta-lhe o que já conseguiram saber.

Por estes dias, muitos dos rolieiros que se reproduzem na zona de Castro Verde, no Baixo Alentejo, já chegaram às planícies típicas da região e estão a dar início a uma nova época. Estas aves migradoras, classificadas em Portugal como Criticamente em Perigo de extinção, estão a ser estudadas (e não só) por investigadores, na tentativa de travar o declínio da espécie.

Em causa está o Projecto Rolieiro – Conservação do Rolieiro em Portugal, gerido pela Estação Biológica de Mértola e financiado pela associação Viridia. Há cerca de um ano, de forma a conhecer melhor as viagens de migração, a equipa de quatro investigadores marcou cinco rolieiros adultos com minúsculos emissores GPS, uma vez que estas aves pesam apenas cerca de 150 gramas e não suportariam algo mais pesado. Há poucos dias o esforço foi finalmente compensado, quando conseguiram obter a informação da viagem realizada por um dos rolieiros já regressados à zona de Castro Verde.

Um rolieiro em Castro Verde, à entrada de um ninho. Foto: João Gameiro

“Estes GPS não transmitem os dados em tempo real (via satélite ou rede telemóvel), pois guardam os dados numa memória interna e transmitem-nos apenas quando entram em contacto com uma estação móvel, composta por uma antena e um receptor. Durante todo o período de migração o GPS foi guardando os dados, que só foram descarregados para a nossa estação quando o rolieiro voltou a Castro Verde”, explica Teresa Catry, uma das investigadoras da equipa, que trabalha no CESAM – Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, na Universidade de Lisboa.

“Om-BB”, como na base de dados do projeto ficou registada esta ave a partir da ordem seguida pelas cores (em inglês) das anilhas que usa – uma laranja e uma metálica na pata esquerda e duas azuis na pata direita – fez um longo caminho entre Castro Verde e a região de África onde passou o inverno, e mais tarde no regresso. Por exemplo, a equipa descobriu que durante a viagem de ida passou por um total de 19 países diferentes, numa travessia que se prolongou por quase cinco meses.

Rotas de migração do rolieiro registado como Om-BB. A rota mais próxima da “barriga” de África, que passa pela Guiné, Costa do Marfim, Gana e Benim foi seguida no regresso a Castro Verde. Foto: Inês Catry

“Saiu de Castro Verde no dia 20 de Julho de 2023, entre o fim da tarde e o início da noite, e chegou à Namíbia no dia 6 de Dezembro”, descreve Teresa Catry. A Namíbia situa-se na África Austral, já bem depois do grande deserto de areia do Saara e da faixa de savanas que se segue, o Sahel, e faz fronteira com Angola, África do Sul, Botswana e Zâmbia.

Ao estudarem a informação agora conseguida, os investigadores aperceberam-se também de que – tal como já tinha sido registado para outras aves da mesma espécie – foi no escuro que “Om-BB” percorreu uma boa parte da longa distância entre Castro Verde e o destino final. Foi durante a noite que voou muitos milhares de quilómetros, atravessando “barreiras” como as montanhas do Atlas, no Magrebe, areias do Sara e o Mar Mediterrâneo. Estima-se que estas aves percorrem em média mais de 9000 quilómetros por cada migração.

Os dados obtidos confirmaram também que este rolieiro seguiu o mesmo comportamento de outros da mesma espécie ao atravessar a imensidão do deserto: voou bastante mais depressa. “Isso já foi registado anteriormente”, nota a mesma investigadora, que acrescenta: “A velocidade de voo varia ao longo da migração. No caso deste indivíduo, a velocidade máxima foi atingida num dia em que voou 920 quilómetros! Mas a média é bastante mais baixa, talvez metade ou mesmo menos.”

Mauritânia, Angola, Guiné e Camarões

O pequeno emissor transportado por “Om-BB” foi programado para guardar apenas quatro localizações por dia para poupar memória e bateria, mas permitiu saber com detalhe onde é que o rolieiro foi fazendo pausas maiores. Chamadas pelos investigadores de ‘stopovers’, estas paragens são importantes para as pequenas aves comerem e recuperarem energias.

“Na viagem de ida para as áreas de invernada, fez um primeiro ‘stopover’ de quase uma semana no sul da Mauritânia (situada na região do deserto do Saara), a que se seguiu um longo período de paragem de quase dois meses no sul do Niger. Antes de chegar à Namíbia, ainda esteve cerca de um mês em Angola, maioritariamente em dois locais mais no sul”, relata Teresa Catry.

Já na viagem de regresso, depois de deixar a zona de África mais tropical, este rolieiro fez uma paragem de cerca de duas semanas nos Camarões, na região ocidental da África Central, e uma segunda pausa no sul da Guiné-Conacry – país que faz fronteira com a Guiné-Bissau – que se prolongou por cerca de três semanas.

Em Portugal, o rolieiro é uma espécie Criticamente em Perigo de extinção. Foto: Zeynel Cebeci/Wiki Commons

Finalmente, depois de dois meses de viagem, a 10 de Abril “Om-BB” chegou finalmente a Castro Verde, onde a época de reprodução está a decorrer. Pode ser que ocupe alguma das caixas-ninho instaladas na região, outra medida dos trabalhos para a conservação da espécie que deram os primeiros passos há mais de 10 anos.

O seguimento à distância da migração destas aves a partir do Baixo Alentejo já se fez também entre 2012 e 2014, mas com aparelhos “diferentes e muito mais limitados”, descreve ainda Teresa Catry. Ainda assim, deu origem a alguma informação nova, incluindo um artigo científico publicado em 2015, que combinou informação de investigadores de diferentes países.

Nas próximas semanas, a equipa espera recuperar os dados das outras quatro aves que tinham sido marcadas há um ano. E em breve, os trabalhos deverão continuar, com a marcação de mais 10 a 15 rolieiros, que serão seguidos não só na migração mas enquanto voam e cuidam das crias pelos campos de Castro Verde.


Saiba mais.

Conheça os objetivos e o trabalho que tem sido desenvolvido, no âmbito do Projeto Rolieiro.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

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