O cardo-dos-picos e a papoila estão entre as mais de 1700 espécies de plantas identificadas pelas mais de 650 pessoas que participaram no VI Bioblitz Flora de Portugal, de 15 a 18 de maio. Perito defende que deveria haver uma monitorização constante das nossas espécies ameaçadas.
Cidadãos, investigadores e amantes da natureza juntaram-se, mais uma vez, para uma ação de ciência cidadã nacional dedicada ao conhecimento da flora portuguesa.
O resultado do trabalho de 655 observadores ainda não está fechado mas, até agora, estão registadas 1706 espécies de plantas diferentes, num total de 13.945 observações submetidas através das plataformas iNaturalist e Biodiversity4All.
Estes números ainda são provisórios, uma vez que os participantes podem continuar a carregar observações até ao final do mês e o processo de validação científica continua em curso. “Nem sempre é possível validar todas as observações, porque as fotografias podem não ter qualidade suficiente ou faltar características de diagnóstico importantes”, explicou à Wilder Sergio Chozas, da direção da Sociedade Portuguesa de Botânica, entidade que organizou a iniciativa, juntamente com o Biodiversity4all.
Os coordenadores fazem um balanço muito positivo da edição deste ano e salientam que o papel da ciência cidadã na recolha de informação sobre a biodiversidade portuguesa saiu reforçado.
“O conhecimento atual da nossa flora é fulcral. Não podemos desenvolver medidas de proteção de espécies cujo estado desconhecemos”, defendeu este investigador e professor convidado na Faculdade de Ciências e membro do CE3C.
Segundo Sergio Chozas, o último grande esforço nacional de avaliação da flora foi realizado no âmbito da Lista Vermelha da Flora de Portugal Continental. Mas este esforço já aconteceu há quase 10 anos (entre 2016 e 2018) e abrangeu “apenas cerca de um quinto das espécies que ocorrem em Portugal continental”, ou seja, 630 espécies.
Ou seja, “há espécies que nunca foram avaliadas e outras cuja avaliação tem entre oito e 10 anos de antiguidade”.
Por isso, iniciativas como este BioBlitz ajudam a complementar o conhecimento científico existente e permitem acompanhar alterações na distribuição e floração das plantas.
As 10 espécies mais comuns
Este ano, as dez espécies mais observadas durante o bioblitz foram plantas comuns, de habitats humanizados e que estão em plena floração nesta época do ano.
Foram elas o cardo-dos-picos (Galactites tomentosus), a língua-de-vaca (Echium plantagineum), a papoila (Papaver rhoeas), a tripa-de-ovelha (Andryala integrifolia), a centáurea-menor (Centaurium erythraea), a alcachofra-de-São-João (Cynara humilis), a flor-de-ouro (Bellardia trixago), o bole-bole-maior (Briza maxima), a erva-de-São-João (Hypericum perforatum) e o pampilho (Coleostephus myconis).
“Comparando estes resultados com os de anos anteriores, poderemos avaliar o efeito das chuvas deste ano ou acompanhar o impacto das alterações climáticas na floração destas espécies”, referiu Sergio Chozas.
O investigador destacou também a dimensão social da iniciativa. “Uma das coisas mais importantes é pôr as pessoas a passear e a reparar nestas espécies fascinantes.”
O BioBlitz Flora de Portugal funciona como um projeto aberto, integrando observações de qualquer utilizador das plataformas digitais durante o período do evento, mesmo sem adesão formal à iniciativa. Esta metodologia permite comparar resultados com ações semelhantes realizadas em Espanha, como o #Biomaratón, e medir o impacto efetivo do evento através da comparação com os registos realizados na semana anterior.
Apesar do entusiasmo gerado pela participação pública, Sergio Chozas considera que Portugal continua longe de ter programas consistentes de monitorização das espécies botânicas mais ameaçadas. Um trabalho que assume especial importância quando vivemos num contexto de alterações climáticas e crescente pressão sobre os ecossistemas.
“Infelizmente estamos muito longe de ter programas efetivos de monitorização”, lamentou Sergio Chozas. “Existem alguns investigadores e naturalistas que fazem esse trabalho para algumas espécies, e o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), no âmbito dos relatórios que periodicamente deve enviar à União Europeia, consulta os especialistas, mas sem grande respaldo de trabalho efetivo de campo.”
Actualmente, pelo menos 381 espécies de plantas estão ameaçadas em Portugal, segundo a Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental. Destas, 84 estão classificadas como Criticamente Em Perigo, como o feto-do-cabelinho (Culcita macrocarpa), o cardo-azul-anão (Eryngium viviparum) ou o visco-branco (Viscum album L. subsp. album).
“Ninguém escapa à tirania dos factos: a extinção ameaça uma parte significativa da flora vascular portuguesa”, escreveram os autores da Lista Vermelha.