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Alterações climáticas estão a mudar relação entre peixes do mar

08.10.2019
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Peixe unicórnio elegante. Foto: MathieuTTL/WikiCommons

Peixes limpadores da grande barreira de coral australiana podem deixar de limpar outras espécies, alerta estudo internacional liderado por investigadores portugueses.

Nos recifes de coral, a maioria dos peixes é “cliente” dos peixes limpadores. Estes libertam-nos de parasitas e de pele morta e até os ajudam a aliviar o stress.

É isto que acontece, por exemplo, entre o peixe-limpador da espécie Labroides dimidiatus e o peixe unicórnio-elegante (Naso elegans).

Peixe unicórnio elegante. Foto: MathieuTTL/WikiCommons

Até agora eram pouco conhecidos os potenciais efeitos do aumento da temperatura da água dos oceanos e da acidificação nestas carismáticas associações entre peixes.

Um estudo internacional – coordenado por investigadores portugueses pólo da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) – quis saber que consequências podem ter as alterações climáticas nas relações entre estas duas espécies de peixes.

Quatro peixes-balão-de-espinhos-longos (Diodon holacanthus) à espera dos serviços de limpeza de dois peixes limpadores. Foto: Divervincent/WikiCommons

Num artigo publicado a 4 de Setembro na revista Scientic Reports do grupo Nature, os investigadores concluíram que, “após uma longa exposição a água mais quente e mais ácida, os peixes limpadores – Labroides dimidiatus – reduzem a motivação para interagir com outros peixes do recife de coral”, explica um comunicado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

O trabalho, realizado no Laboratório Marítimo da Guia – onde há um grupo de investigação que estuda o impacto das alterações climáticas nos organismos marinhos -, usou valores de temperatura e de pH previstos pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) para o fim do século.

Segundo os investigadores, o aumento da temperatura da água e da sua acidez causam alterações neurobiológicas associadas ao comportamento limpador dos peixes.

Ou seja, ao estudar o funcionamento do cérebro destes peixes, os cientistas “perceberam que as alterações observadas estavam correlacionadas com mudanças nos níveis de neurotransmissores no cérebro (dopamina e serotonina)”.

“Acreditamos que estas mudanças neurobiológicas associadas ao comportamento limpador podem afectar a manutenção das estruturas comunitárias dos recifes de coral”, escrevem os autores no artigo científico.

Isto porque, estas relações entre peixes “modelam a diversidade, abundância e recrutamento de inúmeras espécies de peixes”, segundo o comunicado.

“Perceber como as alterações climáticas podem afetar estes mutualismos é uma prioridade para a investigação marinha.”

O trabalho, iniciado em Novembro de 2014, contou com a colaboração de investigadores da Universidade Nova de Lisboa, da Universidade de Uppsala, na Suécia e da Universidade de James Cook, na Austrália.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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