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Fotógrafos que persistem em admirar as aves da Palestina inauguram exposição em Portugal

23.01.2026
leitura de 3 minutos
Beija-flor-da-palestina (Cinnyris osea). Foto: Mohamad Shuaibi

Milhões de aves continuam a voar sobre a Palestina, a fazer ninhos por entre escombros. E há pessoas que continuam a admirá-las e a fotografá-las, “mesmo quando são privadas de tudo”. A 24 de janeiro é inaugurada uma exposição de fotógrafos palestinianos na MIRA Galerias (Porto).

A exposição “Aves da Palestina – a persistência da vida na catástrofe”, que estará patente até 28 de março, reúne 29 fotografias e vários vídeos de aves selvagens captadas em Gaza, Cisjordânia e Galileia, uma região profundamente marcada pela guerra.

Abelharuco-verde-árabe (Merops cyanophrys) na Cisjordânia. Foto: Mohamad Shuaibi

São 29 as espécies de aves incluídas na mostra, entre elas a ave nacional da Palestina, o beija-flor-da-palestina (Cinnyris osea), mas também o abelharuco-verde-árabe (Merops cyanophrys), a coruja-da-palestina (Strix hadorami) e o estorninho-d’asa-ruiva (Onychognathus tristramii).

Há ainda fotografias de espécies que também ocorrem em Portugal, como a poupa (Upupa epops), o cartaxo (Saxicola rubicola), o mocho-galego (Athene noctua) ou a águia-pesqueira (Pandion haliaetus).

A Palestina é um importante corredor para centenas de espécies de aves que viajam entre África, a Europa e a Ásia. A cada migração, milhões de aves voam sobre esta parte do mundo.

“Sobrevoam palestinianos na ‘maior prisão a céu aberto’ em Gaza – sitiada por terra, mar e ar desde 2007 e agora alvo de um genocídio – e palestinianos que vivem sob ocupação, apartheid e limpeza étnica na Cisjordânia”, escrevem os organizadores da exposição. 

Por toda a Palestina, as aves constroem ninhos nos buracos de edifícios bombardeados, nos telhados de postos de controlo e nos beirais de torres de vigia. Voam sobre os muros de betão que fragmentam o território e empoleiram-se no arame farpado que segrega e confina a população palestiniana.

Coruja-da-palestina (Strix hadorami) na Cisjordânia. Foto: Saed Shomaly

“Apesar da violência, da opressão e das restrições impostas pela ocupação israelita, os palestinianos continuam a levantar a cabeça para admirar as aves que cruzam o céu e sonhar com liberdade.” 

Em Gaza, as gémeas Lara e Mandy Sirdah persistem na observação de aves. Ambas começaram a fotografar a vida selvagem há mais de uma década e, apesar das dificuldades, já identificaram 165 espécies de aves em Gaza. Em novembro de 2023, foram expulsas de casa pelo exército israelita, mas continuaram a publicar fotografias, nomeadamente na sua página no Instagram (onde têm mais de 10 mil seguidores), e a manter uma lista das aves avistadas enquanto estavam deslocadas no sul da Faixa de Gaza.

Apesar da devastação, Lara e Mandy mantêm a ligação às aves. “Observar a vida selvagem trouxe-nos muito conforto perante o terror da guerra,
do deslocamento e das tragédias em Gaza”, contaram aos organizadores desta exposição.

Na Cisjordânia ocupada, os fotógrafos palestinianos Mohamad Shuaibi, Saed Shomali e Bashar Jarayseh observam aves desafiando as sufocantes restrições impostas pela ocupação e a violência colonial israelita.

Para Mohamad Shuaibi, o objectivo destas imagens é mostrar um outro lado da Palestina. “Não é só morte e bombardeamentos. Há pessoas que se interessam pela vida selvagem, mesmo quando são privadas de tudo,” diz. “Há vida aqui. E nós amamos a vida.”

Perdiz-do-deserto (Ammoperdix heyi) no deserto do Naqab. Foto: Sinaa Ababsa

“Às vezes saio a pensar se vou voltar ou não”, contou Saed Shomaly, que trabalha como guia turístico na zona de Belém, onde fundou o Instituto Palestiniano para a Biodiversidade e Sustentabilidade. “Mas se morrer, fiz o que podia pela Palestina e pelas aves.”

“Através da minha câmara, procuro mostrar a beleza, a vulnerabilidade e a resiliência das aves”, comentou, por seu lado, Bashar Jarayseh, biólogo palestiniano a especializar-se em ornitologia. A ligação de Bashar às aves começou quando tinha 13 anos, com a participação em anilhagem no Centro de Educação Ambiental em Beit Jala, na Cisjordânia ocupada.
Desde então, tem-se dedicado ao estudo e à protecção das aves na Palestina. Segundo Bashar, “são embaixadoras do mundo natural que nos sustem a todos”.

Sinaa Ababseh, descendente de palestinianos que sobreviveram à limpeza étnica da Palestina em 1948 e conseguiram ficar nos seus terrenos na Galileia, fotografa aves como forma de se manter ligada à sua terra e de valorizar a beleza e a biodiversidade à sua volta.

A inauguração, marcada para as 16h00, será seguida , às 18h00, de uma conversa com três dos autores palestinianos, Mohamad Shuaibi, Bashar Jarayseh e Sinaa Ababseh.

A exposição foi organizada com o apoio do Colectivo pela Libertação da Palestina, MIRA Galerias, Meeru, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) e a Associação Ambiental Pé Ante Pé.

Marta Vidal, jornalista que esteve em Gaza na primavera de 2023 para fazer uma reportagem sobre observadores de aves naquela região e uma das organizadoras da exposição, avançou à Wilder que, depois do Porto, vão tentar que a exposição seja exibida em Lisboa e em outras partes do país.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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