PUB

Faia Brava trabalha para aumentar número de coelhos, de olho no gato-bravo e noutros predadores

06.11.2026
leitura de 7 minutos
Registo de gato-bravo feito por uma câmara de foto-armadilhagem, na Reserva da Faia Brava

Poucos meses depois da instalação de 12 tocas artificiais para o coelho nesta área protegida do Vale do Côa, pelo menos seis já têm moradores. A associação quer agora ir mais longe, a pensar em espécies silvestres como o gato-bravo, um felino raro e ameaçado, que ali foi fotografado no início de 2025.

Foi nesta primavera que Ana Nunes e a pequena equipa que ela lidera na Reserva da Faia Brava, situada no Vale do Côa, cuidaram da instalação de 12 marouços, como se chamam os abrigos artificiais destinados ao coelho-bravo.

O objetivo deste e de outros trabalhos, como a renaturalização das charcas iniciada em outubro ou a realização de sementeiras, é criar mais disponibilidade de alimento e melhores condições para várias espécies selvagens, como a águia-imperial-ibérica, o lince-ibérico e o gato-bravo (Felis silvestris), que já aqui foi observado.

Classificada em 2010 como a primeira área protegida privada do país, esta reserva natural estende-se por cerca de 850 hectares divididos entre os concelhos de Figueira de Castelo Rodrigo e Pinhel, no distrito da Guarda.

Um animal esquivo

No início de 2025, câmaras de foto-armadilhagem instaladas na área da reserva captaram imagens do que seria um gato-bravo, o que constituiu um dos poucos avistamentos de um dos mamíferos mais raros da fauna portuguesa.

Registos de gato-bravo feito por foto-armadilhagem na Reserva da Faia Brava, no início de 2025

“Por natureza, trata-se de um animal esquivo”, diz Ana Nunes, que explica dessa forma que as observações sejam tão raras. João Carvalho, investigador da Universidade de Aveiro e membro da direção da Faia Brava – Associação de Conservação da Natureza, partilha da mesma opinião e lembra que além disso os gatos-bravos são territoriais, deslocando-se sozinhos por áreas muito vastas.

Estes registos da espécie aconteceram no âmbito de uma monitorização intensiva que se estendeu por mais de dois meses, com o objetivo de caracterizar a fauna que aqui encontra abrigo. Para isso, em dezembro de 2024 foram instaladas “cerca de 60 câmaras de foto-armadilhagem distribuídas por uma grelha de quadrículas de 500 por 500 metros”, descreve João Carvalho.

Resultado: em momentos diferentes, com cerca de 10 dias de intervalo, três câmaras captaram imagens que parecem ser de um gato-bravo. Habitualmente, a confirmação da presença dessa espécie – e não de um gato doméstico ou de um híbrido resultante de reprodução cruzada entre as duas espécies – depende de análises genéticas aos vestígios deixados por estes animais, que são também muito difíceis de encontrar.

No entanto, Ana Nunes e João Carvalho sublinham que as imagens captadas indicam que se tratará de facto deste felino, atualmente classificado em Portugal como Em Perigo de extinção.

Outro registo de gato-bravo feito por foto-armadilhagem em janeiro de 2025, na Reserva da Faia Brava

Em causa estão as características físicas encontradas: “Cabeça e patas mais robustas do que as de um gato doméstico, cauda farfalhuda com anéis bem definidos e uma lista negra ao longo do dorso”, descreve João Carvalho. O local onde foi fotografado, a três ou quatro quilómetros das aldeias mais próximas, também contribui para afastar dúvidas. Isso e o facto de nenhuma das 60 câmaras ter registado um único gato doméstico ao longo de toda a monitorização.

Atualmente, o gato-bravo enfrenta fortes ameaças no território português, sublinha o também dirigente da Faia Brava, que nota que “as populações estão reduzidas a pequenos fragmentos, com uma conectividade muito pobre”.

Um dos grandes problemas – e uma “ameaça silenciosa” – é a hibridação com gatos domésticos, que também partilham doenças parasitárias com os gatos ferais, mas não só: este carnívoro é igualmente afetado pelas mortes por atropelamento ou por abate propositado e ainda pelo desaparecimento do seu habitat, devido à perda crescente do bosque mediterrânico original.

Entretanto, até junho de 2027 e dependendo da disponibilidade de material, João Carvalho gostaria muito de conseguir organizar uma nova monitorização intensiva dentro da reserva, “com 30 ou 40 câmaras de foto-armadilhagem colocadas durante dois ou três meses”. Quem sabe se o tímido gato-bravo voltará a ser fotografado?

Acima de tudo, “o registo desta espécie tão misteriosa confirmaria o valor ecológico deste território e desta região”, sublinha, lembrando que na reserva natural estão presentes outros animais de ambientes mediterrânicos, “como a fuinha, o saca-rabos, raposas, genetas, javalis e corços, estes últimos cada vez mais abundantes”.

Sem presas, não há predadores

Ao longo dos 26 anos de vida da associação, acrescenta por sua vez Ana Nunes, foi-se afinando uma ideia: a importância das espécies-presa. “É difícil termos predadores, como é o caso do gato-bravo e de outros, se não tivermos abundância de presas”, diz.

Para que isso aconteça, os trabalhos têm continuado nos terrenos da Faia Brava, com a realização de desmatações, a criação de descontinuidades na vegetação e o semear de áreas de alimento com cereais como centeio, aveia e leguminosas, como a ervilhaca. A gestão desta paisagem em mosaico tem de fazer-se com cuidado, uma vez que o coelho precisa de equilíbrio: “nem demasiado mato, nem demasiado descampado”, descreve Ana Nunes.

Já a renaturalização das charcas da reserva passa pelo aumento da vegetação em redor, de forma a que recebam sombra e a água evapore menos, ficando ali disponível durante mais tempo.

“São coisas que demoram a dar resultados”, reconhece a responsável. “Com o abandono dos campos agrícolas, atualmente temos que ser nós a fazer estas ações, como desmatar e criar clareiras e áreas de alimento.”

Ainda assim, até que o coelho recupere, pode haver algumas alternativas. No norte do país, acredita-se que a principal fonte de alimento do gato-bravo são afinal roedores como os ratinhos do campo, avança João Carvalho, que refere um estudo de 2007 realizado no Parque Nacional da Peneda-Gerês, segundo o qual essas presas representam cerca de 77% da biomassa da dieta deste felino.

Casas à prova de raposa

Os censos que a associação faz há anos mostraram entretanto uma população de coelho-bravo na zona norte da reserva, numa área com descontinuidades e próxima de uma charca. Foi aí que nasceu a área de teste onde se instalaram 12 marouços, em março e abril, com o apoio de uma associação espanhola com experiência na conservação da espécie.

Cada marouço tem “quatro caixas de cimento, ligadas por oito tubos semelhantes a manilhas, com orifícios onde passa um coelho à vontade”, descreve Ana Nunes. Por dentro, essas caixas têm duas divisões, incluindo uma “mais resguardada, onde uma coelha pode procriar sem ser perturbada.”

Diferentes fases da instalação de um dos 12 marouços da reserva, destinados ao coelho-bravo. Foto: Faia Brava

Depois de colocado no terreno, cada marouço é enterrado e coberto por terra e pedras e em cima por uma rede de malha e mais terra e, por fim, ramos que foram guardados das podas. Cada camada, aliás, tem uma função, esclarece Ana Nunes. Por exemplo, “a raposa vai escavar e escavar, mas chega a um ponto em que não consegue mais.” Já o saca-rabos “pode meter a cabeça nos orifícios, mas como os buracos são desencontrados não chega às crias”. E quanto aos ramos, protegem os coelhos das aves de rapina.

O cimento como material também não foi escolhido por acaso, uma vez que “é mais drenado do que o plástico, o que reduz a humidade no interior do marouço, que aumentaria a probabilidade de os coelhos apanharem doenças”.

A equipa estudou o resultado destes equipamentos em Espanha, em quintas onde a técnica é usada há muitos anos e onde há “muitos coelho, muito mesmo”, e também “lince-ibérico”, comenta Ana Nunes. “Nós esperamos um dia ficar assim, seria ouro sobre azul.”

Seis tocas já ocupadas

As câmaras de foto-armadilhagem vão rodando entre os marouços a cada duas ou três semanas e em posições cruzadas, para não contarem duas vezes os mesmos animais. Dos abrigos que já foram monitorizados, seis têm imagens de coelhos, portanto estão “seguramente estão ocupados.” Ana Nunes arrisca que haverá “no mínimo três coelhos por marouço”, mas ainda é cedo para saber quantos machos e fêmeas, uma vez que “está tudo muito recente.”

Coelhos nos marouços. Vídeo: Faia Brava

No entanto, nas câmaras têm aparecido também predadores, sobretudo o saca-rabos e a raposa, o que a equipa já previa que iria acontecer. Para dar sossego aos coelhos, a associação pediu aos caçadores da zona que não caçassem nas imediações da área onde se encontram estes abrigos, na parte de fora da área protegida.

Por toda a reserva, as monitorizações desta espécie fazem-se duas vezes por ano – em março e no fim do verão – principalmente através da contagem de latrinas, ou seja, acumulações de dejetos depositados por estes mamíferos em determinados locais, com o objetivo de marcarem território e comunicarem a sua presença a outros coelhos.

É a partir do estudo destes sinais, explica Ana Nunes, que a equipa sabe que na Reserva da Faia Brava existem atualmente três núcleos de coelho-bravo que se mantêm estáveis há vários anos. Entre 2019 e 2020 a população sofreu uma forte quebra, mas desde então recuperou, “talvez por ter ganho resistência às doenças”, diz. Hoje em dia, a coordenadora acredita que haverá “dezenas” de coelhos nesta área protegida.

Nos planos, uma maternidade para coelhos

O próximo passo, se houver financiamento, é criar um núcleo de reprodução próprio para coelhos-bravos numa área fechada e bem protegida, “uma espécie de maternidade”, adianta a mesma responsável.

Os coelhos aí nascidos serão marcados para se distinguirem dos que já vivem na reserva, contribuindo para povoar os marouços. “Uma coisa é comprarmos a um criador e depois soltá-los. Outra coisa é termos o nosso próprio núcleo, em que vamos alimentando os nossos marouços e as populações locais.”

A ideia da equipa é avançar com estes trabalhos em 2027 e também replicar os marouços noutras zonas da reserva, mas ainda aguardam resposta às candidaturas. Ana Nunes admite que há quem critique este tipo de soluções. “Há muitas pessoas que dizem que isso é tudo artificial. Infelizmente, atualmente em Portugal, sem isso não conseguimos bem. E temos que ser nós, seres humanos, a apoiar um bocadinho esta espécie.”

Quanto ao gato-bravo, ainda se sabe pouco sobre a situação em Portugal, mas o objetivo da Faia Brava é criar as condições necessárias para que estes animais possam aqui encontrar um refúgio seguro para assegurar a sobrevivência futura da espécie. Até lá, o trabalho está a fazer-se, toca a toca.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

Não perca