A escabiosa-do-sudoeste (Succisa brevipedunculata) passou despercebida durante quase dois séculos, confundida com outras espécies. Os botânicos e naturalistas João Farminhão e Udo Schwarzer investigaram a fundo a identidade desta espécie endémica da região Sudoeste e fizeram ainda uma descoberta “chocante”: os seus frutos parecem brilhar no escuro.
Em meados de outubro e novembro, quando grande parte das plantas já terminou a floração, há uma erva vivaz que se destaca nos matos do Sudoeste português. Junto ao chão, mantém uma roseta de folhas, da qual emergem longos caules floríferos. As suas flores são de tom violeta. É a escabiosa-do-sudoeste (Succisa brevipedunculata), uma nova espécie para a Ciência, agora descrita por João Farminhão e Udo Schwarzer num artigo publicado a 30 de setembro num artigo na revista científica Mediterranean Botany.

A escabiosa-do-sudoeste “é uma planta aparentada com os suspiros-roxos; esta é talvez a espécie mais conhecida desta família em Portugal”, explica à Wilder João Farminhão, investigador do CFE/Laboratório Associado Terra (Universidade de Coimbra) e da Sociedade Portuguesa de Botânica.
Para quem não a conhece, João Farminhão faz as apresentações. “A escabiosa-do-sudoeste é uma erva vivaz que apresenta uma roseta de folhas rentes ao chão e que no outono produz uns longos caules floríferos que chamam a nossa atenção quando quase mais nada está em flor.”
A disposição das folhas não é, aliás, uma característica sem significado. Trata-se de uma estratégia frequente na região mediterrânica, onde as plantas têm de lidar com grandes variações de humidade, precipitação e temperatura.
“Muitas plantas têm as suas estruturas de dormência rente ao chão, produzem estas folhas basais e investem depois, só no momento da floração, no seu crescimento mais vertical”, explica o investigador. “É uma forma de vida que despende menos energia do que estar a manter todo um corpo à superfície, alto, num clima que tem grandes contrastes.”
A floração outonal é outra das particularidades desta espécie. O exemplar que serviu de base à sua descrição científica, conhecido como exemplar-tipo, foi colhido a 9 de novembro de 2024 e encontrava-se em plena floração.
Segundo João Farminhão, a floração nesta altura do ano poderá representar uma oportunidade reprodutiva. “É uma estratégia que temos de compreender melhor porque, se fosse algo muito fácil do ponto de vista evolutivo, haveria mais plantas a florir nesta altura. Mas é uma oportunidade de assegurar a reprodução, quando há alguns insetos em voo e quando há menor competição por pólen, por atenção com outras espécies. Podemos pensar nisso como uma fuga à competição interespecífica.”
As plantas do género Succisa florescem entre o final do verão e o outono. Embora possam observar-se algumas flores desde julho, o pico de floração acontece nesta altura, tendo começado no final de outubro.
Uma história que começou em 1848
A história da escabiosa-do-sudoeste começou quando a primeira colheita conhecida foi realizada em abril de 1848, na Serra de São Domingos, parte da Serra do Cercal, no concelho de Odemira.

Foi o botânico austríaco Frederico Welwitsch (1806 – 1872) quem encontrou a planta. Como ainda não estava em floração, observou sobretudo a roseta de folhas basais e alguns restos das inflorescências do ano anterior. Identificou-a então como Scabiosa betica, uma espécie endémica do Sul de Espanha.
“Foi uma identificação bastante razoável, atendendo àquilo que se conhecia na altura como plantas deste grupo, das dipsacóideas, que crescem em sítios rochosos”, considera João Farminhão. A planta ocorre precisamente em locais com pedras soltas e solos rochosos consolidados.
O exemplar recolhido por Welwitsch encontra-se atualmente no herbário do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa.
Depois dessa primeira colheita, a planta voltou a ser recolhida em 1893, em Odemira, pelo botânico Gonçalo Sampaio (1865-1937). Só nos anos 90 do século XX voltou a ser identificada, desta vez como Succisa pinnatifida, uma espécie que ocorre no noroeste da Península Ibérica e que parecia corresponder melhor à sua identidade.
Mas havia diferenças por explicar.
“A escabiosa-do-sudoeste esteve durante 175 anos confundida com essa espécie, precisamente, e até com outras espécies”, resume o investigador.
A suspeita de que poderia tratar-se de algo diferente surgiu em fevereiro de 2024. João Farminhão tinha reparado que algumas espécies com distribuições disjuntas em Portugal, sobretudo plantas que ocorrem predominantemente no Norte mas apresentam populações isoladas no Sul, mereciam uma atenção especial.
“Quando olhamos para um mapa de distribuição de uma espécie e vemos populações muito afastadas do centro de distribuição, devemos ficar sempre com a pulga atrás da orelha. Devemos sempre desconfiar se as plantas que ocorrem isoladas serão a espécie que ocorre na restante área de distribuição”, explica.
Foi precisamente isso que aconteceu. Enquanto consultava o Flora-On, uma plataforma de informação sobre a flora portuguesa, reparou em registos de plantas identificadas como Succisa pinnatifida que ocorriam no Sul do país. Algumas fotografias pareciam mostrar características diferentes das plantas conhecidas no Norte.
“Fui ao herbário, na sala ao lado onde estava, e encontrei a colheita de 1893, por Gonçalo Sampaio. Olhei para aquela escabiosa-do-monte e achei-a diferente do material colhido no Minho, Douro Litoral, no noroeste da Península Ibérica. E a partir daí surgiu esta questão de tentar perceber se poderia ser algo diferente.”
Em junho de 2024, uma publicação nas redes sociais ajudou a reforçar a suspeita. Udo Schwarzer, com quem viria a descrever a nova espécie, tinha encontrado uma planta identificada como Succisa pinnatifida em Aljezur, perto de casa, e desconhecia a sua presença naquela região.

Pouco depois, os dois investigadores decidiram trabalhar em conjunto. “Desafiei o Udo para fazermos trabalho de campo juntos, ir à procura desta planta, conhecer o melhor possível a sua área de distribuição, a sua ecologia e, se se confirmasse que era algo distinto, descrevê-la.”
O trabalho de campo começou a 24 de agosto de 2024. Em Aljezur encontraram uma população localmente abundante e observaram diferenças que justificavam uma investigação mais aprofundada.
Duas escabiosas (bem) diferentes e um choque
Uma das diferenças mais evidentes estava no comprimento dos pedúnculos, ou seja, as estruturas que suportam os conjuntos das flores.
“Quase todos os pedúnculos eram bastante curtos, enquanto que na escabiosa-do-monte, do noroeste da Península, os pedúnculos são muito compridos. Isso chamou-nos logo a atenção.”
As folhas também eram diferentes: na população do Sul, eram tipicamente mais compridas e tinham margens menos recortadas.
Mas foi já em laboratório que os investigadores encontraram outras diferenças importantes, desta vez nos frutos. Estes estão envolvidos por uma estrutura que apresenta características distintas nas duas espécies.
“Enquanto no Norte apresenta uns dentes, cada um deles tridentado, os dentes deste invólucro na espécie do Sul estão inteiros, não têm estes dentinhos laterais”, explica João Farminhão.
A observação dos frutos revelou, porém, uma surpresa que nem sequer entrou na descrição publicada: parecem ser fluorescentes no escuro, sob luz ultravioleta.
A descoberta aconteceu por acaso. Udo Schwarzer ligou uma luz ultravioleta em vez da habitual luz branca e reparou que os frutos brilhavam no escuro.

“Acontece, mas não é nada comum e, portanto, foi um choque muito grande para nós”, conta João Farminhão.
O fenómeno é particularmente interessante porque poderá ter implicações na forma como a planta atrai os seus polinizadores. O investigador explica que, habitualmente, a cor das flores está relacionada com a identidade dos polinizadores, enquanto a cor dos frutos está associada aos animais que dispersam as sementes.
“É estranhíssimo os frutos intervirem na atração dos polinizadores também”, comenta.
A hipótese é que a reflexão ultravioleta dos frutos possa ter um papel na atração de insetos. Os investigadores sabem que, noutras espécies do género Succisa, os principais polinizadores são moscas-das-flores, que conseguem ver muito bem a radiação ultravioleta.
Como a escabiosa-do-sudoeste apresenta flores e frutos ao mesmo tempo, os investigadores suspeitam que os frutos possam também contribuir para atrair os polinizadores.
“Suspeitamos que os frutos com esta reflectância ultravioleta na nossa escabiosa-do-sudoeste tenham a ver também com uma estratégia em que pode haver atração dos polinizadores através dos frutos.”
É uma hipótese que ainda precisa de ser testada. Os investigadores já dispõem de equipamento que permite medir a reflexão ultravioleta das plantas, mas ainda não tiveram oportunidade de realizar essas medições.
“Gostaríamos de estudar isto da forma mais objetiva possível”, diz João Farminhão. E deixa uma sugestão que poderá interessar a quem gosta de explorar a natureza: “Poderá ficar aqui um convite para todos nós andarmos com uma black light à noite, a fazer sessões de botânica noturna ultravioleta. Poderá haver outras plantas que brilham no escuro e nós não sabemos.”
O próprio investigador já fez algumas experiências. Uma noite, conta, fechou-se num herbário às escuras e examinou, com uma luz ultravioleta, todas as plantas do grupo da Succisa. “Encontrei, de facto, mais uma coisa ou outra que brilha e coisas misteriosas que temos ainda de investigar. Acho que isto é objetivamente fascinante.”
Uma espécie endémica, mas vulnerável
A escabiosa-do-sudoeste é conhecida, até agora, apenas nos concelhos de Odemira, Aljezur, Monchique e Silves. A sua distribuição abrange a Serra do Cercal e vales associados, áreas de Aljezur e a Serra da Brejeira, no maciço de Monchique.

A espécie ocorre sobretudo em matos sobre rochas de xisto ou grauvaque, quase sempre em encostas expostas a norte ou noroeste. São habitats que, apesar da sua riqueza natural, nem sempre recebem a atenção que merecem.
“Aquela é uma das áreas com menor densidade populacional do país, é uma zona em que podemos atravessar hectares sem ver viva alma. E tem estes matos riquíssimos em endemismos portugueses e ibéricos que têm pouca valorização por parte da população local. Porque é mato, não tem uma boa reputação.”
A descoberta de uma espécie nova veio reforçar a importância destes espaços. Até porque uma parte substancial dos matos do Sudoeste já foi ocupada por eucaliptais e plantações de pinheiro.
“De facto, nós intervimos de forma muito significativa no território, sem termos uma noção da distribuição destes valores naturais tão importantes como são as espécies endémicas restritas”, alerta o investigador.
A situação é particularmente preocupante porque algumas populações da nova espécie estão fora de qualquer área protegida. As primeiras populações encontradas em Aljezur, por exemplo, localizam-se numa plantação de pinheiro-manso e fora do sistema nacional de áreas classificadas.
Embora uma parte importante da população conhecida esteja dentro dos sítios de interesse comunitário de Monchique e da Costa Sudoeste, existem núcleos relevantes que não beneficiam de proteção legal.
Atendendo à sua reduzida área de distribuição e às ameaças observadas no terreno, os investigadores propuseram classificar a espécie como Vulnerável.
“Há dois critérios geográficos que utilizamos para avaliar o risco de extinção, a área de ocupação e a extensão da ocorrência, e de facto ambos os critérios permitem a classificação como ameaçada, porque observamos no terreno ameaças ao estado, à qualidade e à extensão do habitat.”
Ainda há muito por descobrir na flora portuguesa
Para João Farminhão, a descoberta de uma nova espécie endémica é também uma oportunidade para aproximar as pessoas do património natural das suas regiões.
“A descoberta de espécies novas endémicas é uma oportunidade fantástica para cativarmos e entusiasmarmos mais pessoas a preocuparem-se com os patrimónios naturais locais.”

O investigador chama-lhe “bairrismo biográfico”: a ideia de que, tal como as pessoas sentem orgulho nos monumentos e nos lugares históricos das suas terras, também podem vir a reconhecer e valorizar as espécies que só existem na sua região.
“Quero acreditar que, com o tempo, a consciência patrimonial coletiva vai ser cada vez mais inclusiva. E, portanto, que as pessoas integrem no seu imaginário coletivo também as plantas que só existem na sua terra.”
Portugal continental tem atualmente mais de 90 espécies de plantas vasculares endémicas oficialmente reconhecidas, um número que, segundo João Farminhão, poderá ultrapassar as 100 nos próximos anos.
Mas descobrir novas espécies significa também reconhecer que algumas podem estar em risco antes mesmo de serem conhecidas. O investigador chama a atenção para um estudo publicado em 2023 que estima que três em cada quatro espécies de plantas ainda por descrever a nível mundial estarão gravemente ameaçadas de extinção.
“O que ainda está por descrever é sobretudo a diversidade mais rara: as plantas com distribuições mais restritas, com habitat com menor expressão espacial.” Na verdade, esta é uma realidade que se observa também na Europa, uma região relativamente bem estudada, onde muitas das novas espécies descritas são raras e têm áreas de distribuição limitadas.
A descoberta da escabiosa-do-sudoeste mostra, por isso, que conhecer a flora continua a ser uma tarefa fundamental para a conservação. Mas é também uma tarefa que enfrenta dificuldades.
“Infelizmente, a comunidade botânica é muito pequena e, sobretudo a profissional, é mesmo muito pequena”, reconhece João Farminhão. Os cidadãos cientistas ajudam a colmatar algumas destas lacunas. Os registos publicados em plataformas como o iNaturalist permitem aos investigadores mapear mais rapidamente a distribuição das espécies.
Ainda assim, faltam recursos humanos para fazer um levantamento mais completo da biodiversidade. O próprio Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e outras autoridades competentes têm, segundo o investigador, um défice crescente de recursos humanos, o que limita a capacidade de cartografar e acompanhar as espécies.
“Não temos biólogos municipais, não temos essa figura, não temos pelo menos uma pessoa em cada concelho responsável por compilar este tipo de informação. Num país biodiverso como o nosso até não seria uma má ideia.”
Até porque, sublinha, “ainda há muito trabalho para fazer e temos de continuar a apostar na descrição da flora” portuguesa.