A Rugulopteryx okamurae é uma espécie exótica de origem asiática que se tem alastrado de forma preocupante na costa portuguesa, especialmente no Algarve e na zona de Cascais. Esta semana, o Governo aprovou um programa de ação nacional para travar o seu avanço.
O Programa de Ação Nacional para o Controlo da Macroalga Invasora Rugulopteryx okamurae 2026-2030 define um quadro integrado de atuação para monitorizar, conter e mitigar os impactes desta espécie.

“Sabemos que, nesta fase, não é realista prometer a erradicação desta alga, mas podemos estar mais bem preparados, atuar mais depressa”, disse a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, em comunicado.
A Rugulopteryx okamurae é uma alga castanha nativa do Oceano Pacífico, em particular do Japão e da Coreia do Sul. Em 2002 foi registada pela primeira fora do seu habitat nativo no Mar Mediterrâneo, mais concretamente em Lagoa Thau (França). Investigadores acreditam que a alga terá sido introduzida durante a importação de ostras japonesas da espécie Crassostrea gigas. Em 2015, a alga foi registada pela primeira vez no Estreito de Gibraltar, em Ceuta.
Esta alga foi detectada pela primeira vez em Portugal em 2019 na ilha de São Miguel, nos Açores. Em Portugal continental, os primeiros registos no Sul datam de 2021, com posterior expansão pelo Algarve e pela costa alentejana. Em 2024, foi também registada ao largo de Cascais. Nos Açores, já tinha chegado a oito das nove ilhas em 2024.
A Rugulopteryx okamurae está incluída na lista de espécies exóticas invasoras que causam preocupação na União Europeia.
O Programa aprovado agora, que concretiza a Estratégia Nacional para a Gestão da Macroalga Invasora Rugulopteryx okamurae, aprovada em julho de 2025, foi feito por um grupo coordenado pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que reuniu várias instituições, desde organismos da Administração Pública, autarquias a instituições científicas.
“Devido às características da espécie e ao grau de disseminação já alcançado, a sua erradicação é considerada praticamente impossível”, constata o comunicado do Ministério do Ambiente e da Energia. “A atuação concentra-se, por isso, em duas frentes: prevenir o desenvolvimento da espécie em novas localizações, através da deteção precoce e da atuação imediata, e minimizar os impactes nas zonas onde já se encontra instalada.”
Para reforçar a capacidade de antecipação, o Programa prevê criar uma Base de Dados Nacional Georreferenciada (WebGIS), estações de vigilância em pontos estratégicos, sensores subaquáticos e câmaras remotas em zonas críticas. Está ainda previsto o recurso a imagens de satélite e veículos aéreos não tripulados, um sistema de alerta precoce e o desenvolvimento de algoritmos de deriva baseados nas correntes e nos ventos.
No terreno, as intervenções vão variar consoante a situação mas estão previstas a remoção manual e mecânica, extração na coluna de água e instalação de barreiras de contenção ou deflexão. O Programa contempla também procedimentos para o transporte e o armazenamento temporário em terra da biomassa recolhida.
O Programa prevê também o desenvolvimento e teste de métodos de remoção sustentável, a avaliação dos impactes ambientais e económicos da espécie, ensaios de restauro ecológico dos ecossistemas após a remoção e o estudo do potencial de valorização da biomassa recolhida, incluindo a sua caracterização bioquímica e estudos de pré-viabilidade para unidades de processamento local.
Outra prioridade passa por reduzir o risco de propagação para novas zonas. Segundo este ministério, a alga está a ser disseminada pelas águas de lastro, incrustações nos cascos de embarcações, equipamentos de pesca, aquicultura e ainda por dispersão natural.
Estão previstas ações de formação, sensibilização e códigos de boas práticas dirigidos aos setores envolvidos.
O Programa inclui ainda uma vertente de comunicação, sensibilização e ciência cidadã, com uma plataforma nacional de informação e registo, sinalização em marinas, portos e zonas de mergulho e materiais informativos para praias e zonas balneares. Prevê também ações dirigidas às comunidades piscatórias, operadores turísticos, aquicultores e praticantes de atividades náuticas, assim como a criação de um canal de comunicação com Espanha e outros países onde ocorre esta alga invasora, para reforçar a partilha de informação e a cooperação.
A elevada capacidade de dispersão e proliferação desta alga tem impactes nos ecossistemas marinhos e em várias atividades económicas, como a pesca. Esta alga está a causar, por exemplo, uma diminuição das capturas e danos nas artes de pesca.
“Estamos perante uma espécie invasora que já tem uma presença significativa e que exige uma resposta coordenada e sustentada”, comentou Maria da Graça Carvalho. “Este Programa permite-nos passar de intervenções pontuais para uma atuação nacional, assente na ciência, na prevenção, na deteção precoce e na capacidade de resposta no terreno.”
“Queremos proteger os ecossistemas marinhos e, ao mesmo tempo, reduzir os impactes sobre os pescadores, as autarquias, o turismo e as populações”, acrescentou a governante.
Saiba mais.
Descubra mais sobre esta alga aqui com a ajuda do biólogo marinho João Canilho Santos.