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Entrevista: “A população de rolieiro cresceu devido às medidas de conservação mas tornou-se dependente delas”

03.08.2026
leitura de 9 minutos
Foto: Norberto Esteves/Wiki Commons

Uma equipa estuda há 20 anos uma das aves mais ameaçadas do país, o rolieiro. Nesta entrevista à Wilder, a investigadora Teresa Catry fala das hipóteses de sobrevivência da “ave azul” em Portugal e do que será preciso fazer para travar o seu desaparecimento.

WILDER: O vosso estudo fala num aumento de 26% da população de rolieiro desde 2009. Este é um verdadeiro sinal de recuperação ou apenas uma estabilização de uma população muito pequena?

Teresa Catry: Acreditamos que é um crescimento real, mas de uma população que ficou extremamente reduzida e confinada a Castro Verde: este crescimento reflecte um aumento em Castro Verde. No entanto, a qualquer momento, este crescimento pode começar a estabilizar, uma vez que a área de distribuição dos rolieiros é hoje em dia extremamente reduzida. Apesar da disponibilização de ninhos artificiais ter contribuído significativamente para o aumento da população, com uma resposta espectacular em termos de taxas de ocupação destes ninhos, sabemos que existem outros factores que vão contribuir para determinar o futuro desta população, nomeadamente alterações a nível do uso do solo e do clima, mas também interações com outras espécies (predadores e competidores).

Teresa Catry em trabalho de monitorização de rolieiros em Castro Verde. Foto: Wilder

W: Apesar do aumento da população, a área de distribuição diminuiu 67%. Como se explica este aparente paradoxo?

Teresa Catry: A espécie desapareceu de muitos locais onde ocorria há algumas décadas, nomeadamente nos distrito de Castelo Branco, Portalegre e Évora. Apesar da informação ser escassa, pensa-se que as alterações de habitat (nomeadamente intensificação agrícola e fragmentação de áreas de agricultura extensiva) e a perda de locais de nidificação estão entre as principais causas para estas alterações. Apesar de existirem dados relativos à distribuição dos rolieiros nos anos 70 e 80, o primeiro censo nacional só foi realizado em 2009. Assim não sabemos concretamente qual seria o tamanho da população reprodutora nesta altura, mas era concerteza pequena. Ao mesmo tempo que nestas áreas os roleiros iam desaparecendo, na zona de Castro Verde começaram a aumentar. A espécie é relativamente recente em Castro Verde  – apesar do habitat de alimentação ser favorável (grandes áreas de cultura extensiva de cereais com pousios) não existiam locais apropriados à nidificação (árvores com cavidades). No entanto, o abandono dos montes (e a concentração das pessoas em aldeias e vilas) e consequente degradação destas estruturas, resultou num improvável habitat de nidificação para espécies que dependem de cavidades – os rolieiros, a par com os francelhos, aproveitaram esta oportunidade para colonizar a região. Posteriormente, esforços de conservação dirigidos aos francelhos (projectos LIFE coordenados pela Liga para a Proteção da Natureza, LPN), nomeadamente a disponibilização de um grande número de ninhos artificiais, acabaram por ter um impacto muito positivo na população de rolieiros, que ocuparam estes ninhos com muito sucesso. Assim, contrariando a tendência de declínio no resto do país, a população de Castro Verde cresceu significativamente nas últimas décadas.

W: Hoje, 96% dos rolieiros portugueses reproduzem-se em Castro Verde. Isto torna a espécie mais vulnerável?

Teresa Catry: Sim, naturalmente que esta é uma preocupação. Quando toda a população está restringida a uma pequena área geográfica, qualquer alteração nesta área pode pôr em causa a conservação da espécie. A população de rolieiro está maioritariamente concentrada na Zona de Protecção Especial (ZPE) de Castro Verde, o que teoricamente oferece algumas garantias em termos de preservação do habitat. No entanto, sabemos que mesmo nestas áreas estão a acontecer mudanças importantes ao nível do habitat. Há uma diminuição na área de cultivo de cereal num sistema de rotação que providencia áreas importantes de pousio (descanso da terra) e simultaneamente um aumento na produção de pastagens para vacas (que estão a substituir as ovelhas) que são ceifadas muito mais cedo do que o cereal.

Teresa Catry em trabalho de monitorização de rolieiros em Castro Verde. Foto: Wilder

Para já não sabemos ao certo que consequências terão estas alterações, mas é muito provável que as comunidades de insectos, que são as principais presas dos rolieiros, possam ser afectadas. Se as actuais práticas agrícolas, que tornam a ZPE de Castro Verde um local único no país para a conservação das aves estepárias, forem alteradas, o facto dos rolieiros estarem restringidos a esta região pode ter consequências bastante catastróficas para a sobrevivência da espécie no nosso país.

W: O estudo mostra que 81% dos casais utilizam ninhos artificiais. Podemos dizer que, sem eles, o rolieiro poderia voltar a desaparecer de Portugal? E a conservação do rolieiro precisa ainda de mais ninhos artificiais? 

Teresa Catry: Sim, actualmente é difícil pensar na sobrevivência da espécie em Portugal sem estes ninhos artificiais. É por isso que falamos numa “armadilha de conservação”. A população cresceu devido às medidas de conservação implementadas mas tornou-se dependente delas. Para garantir a continuidade da espécie em Castro Verde (e em Portugal) é preciso continuar a criar condições de nidificação, em particular ninhos artificiais. Nos últimos três anos foram disponibilizados um grande número de caixas-ninho no âmbito de vários projectos, nomeadamente o projeto Rolieiro (financiado pela VIRIDIA – Conservation in Action e coordenado pela Estação Biológica de Mértola) e o projecto LIFE Powerlines (coordenado pela LPN). Este esforço foi feito maioritariamente na ZPE de Castro Verde embora tenham sido também disponibilizadas algumas caixas-ninho em vários locais onde a espécie ainda está ou esteve presente num passado recente, nomeadamente Cuba, Évora, São Vicente, Vila Fernando, etc.

Um rolieiro em voo, no Alentejo. Foto: Norberto Esteves/Wiki Commons

Na ZPE de Castro Verde o rolieiro não precisa necessariamente de mais ninhos artificiais, mas precisa que estes sejam duradouros (embora mais alguns ninhos pudessem ser bons porque há alguma competição por ninhos, nomeadamente entre francelhos, rolieiros, mochos, estorninhos, etc, uma vez que todos eles ocupam estes ninhos artificiais). A vida útil dos ninhos artificiais é relativamente curta, daí que seja necessário garantir que estes são substituídos por novos quando deixarem de ter préstimo. Esse é um dos grandes desafios: garantir financiamento a longo prazo. Nas áreas fora da ZPE de Castro Verde podem ainda ser disponibilizados mais ninhos, mas mais importante é preciso garantir áreas com habitat de alimentação adequado e criar condições para que os rolieiros cheguem a áreas onde já desapareceram. É precisamente esta a lógica da criação de corredores que promovam a expansão da espécie. Sabemos hoje que os rolieiros têm uma capacidade de dispersão relativamente reduzida, pelo que é pouco provável que colonizem espontaneamente áreas distantes de Castro Verde. Contudo, se for criada uma rede contínua de potenciais áreas de reprodução — disponibilizando caixas-ninho em locais com habitat de elevada qualidade, distribuídos ao longo de um gradiente de distância em relação a Castro Verde — os rolieiros poderão, de forma gradual, ir colonizando territórios cada vez mais afastados. Foi essa a ideia que implementámos com o Projecto Rolieiro, mas à qual é importante dar continuidade.

W: O estudo identifica a intensificação agrícola como uma das principais ameaças. O que mudou concretamente na paisagem de Castro Verde nos últimos anos? E o que seria necessário mudar na gestão agrícola para garantir o futuro da espécie?

Teresa Catry: A intensificação agrícola aconteceu maioritariamente fora de Castro Verde. Em Castro Verde a maior mudança prende-se, como referido anteriormente, com o aumento de produção de gado bovino e a consequente troca de áreas cultivadas com cereais num sistema de rotação com pousios para pastagens/forragens (fenos) e aumento da área com pastagens permanentes.  Não sabemos ainda detalhadamente quais são as consequências destas alterações. Embora as pastagens possam ser ricas em insetos, como gafanhotos e coleópteros — presas-chave para os rolieiros —, o facto de serem ceifadas muito mais cedo do que as culturas de cereal pode criar um desfasamento temporal entre a disponibilidade destes insetos e o período de maior procura alimentar pelos rolieiros, nomeadamente durante a alimentação das crias. São precisos mais estudos para perceber o real impacto destas alterações na paisagem. É fundamental garantir a disponibilidade de recursos alimentares, o que depende da manutenção de sistemas agrícolas relativamente extensivos, com pousios e uma utilização reduzida ou inexistente de pesticidas.

W: Descobriram que os rolieiros raramente se afastam mais de alguns quilómetros do local onde nasceram. Isso surpreendeu-vos?

Teresa Catry: Já desconfiávamos que a capacidade de dispersão fosse limitada, uma vez que em mais de 20 anos de trabalho com a espécie e a monitorização de centenas de aves, nunca encontrámos um rolieiro com uma anilha espanhola, apesar de existirem vários programas de anilhagem no país vizinho. Mas estes dados confirmam realmente que os rolieiros são bastante filopátricos.

Monitorização de crias de rolieiro em Castro Verde. Foto: Wilder

W: As caixas-ninho de madeira poderão deixar de ser adequadas com o aumento das ondas de calor. Já existem evidências desse problema em Portugal?

Teresa Catry: Sim, já há vários anos fizemos um estudo que mostra que as temperaturas elevadas no Alentejo podem ser um problema para as aves que usam as caixas-ninho de madeira – onde as temperaturas podem ser mais altas do que no exterior! Durante o projecto Rolieiro, à semelhança de outros projectos europeus,  foram instaladas caixas-ninho feitas de cortiça e cal e que têm melhor isolamento térmico, precisamente na tentativa de minimizar os impactos das ondas de calor. Estamos agora a avaliar os resultados. As temperaturas atingidas nestas caixas são de facto inferiores às das tradicionais caixas de madeira, mas não sabemos ainda se são 100% eficazes contra as cada vez mais frequentes ondas de calor.

W: O estudo refere que ainda sabemos pouco sobre o que acontece ao rolieiro durante a migração e a invernada em África. Quais são as maiores incógnitas? O que sabemos atualmente sobre as ameaças que enfrenta no Sahel e na África Austral?

Teresa Catry: Sabemos que a maioria dos rolieiros que nidificam em Portugal atravessa o Sahel e passa o inverno na África Austral – em Angola, Namíbia e Botsuana – utilizando sobretudo savanas e outras paisagens abertas. A região do Sahel, que é importante como local de paragem durante a migração, tem sofrido algumas importantes transformações, nomeadamente intensificação agrícola, mas também secas prolongadas, factores que poderão afetar a disponibilidade de alimento. Quanto às áreas de invernada mais a sul, o conhecimento é ainda muito limitado. É, por isso, difícil identificar com precisão as principais ameaças, embora seja provável que algumas sejam semelhantes.

W: Há projetos para seguir indivíduos com GPS durante toda a migração?

Teresa Catry: De momento não. Nos últimos anos marcámos alguns indivíduos com GPS, mas foram poucos. Alguns resultados destas migrações foram publicados na Wilder!

W: Se pudesse escolher apenas três medidas prioritárias para garantir o futuro do rolieiro em Portugal, quais seriam?

Teresa Catry: É imprescindível conservar este último bastião que é a população de Castro Verde e ter esperança que a partir daqui eles se possam expandir novamente. Nesse sentido, garantir a qualidade do habitat através da manutenção do sistema de cultivo extensivo de cereais de sequeiro em rotação é talvez a condição mais importante. A segunda é continuar a disponibilizar locais de nidificação, seguros e adaptados às cada vez mais exigentes condições climatéricas. Por fim, é essencial continuar a sensibilizar agricultores, proprietários e a população em geral para a importância desta e de outras espécies e realçar o valor do património natural único de Castro Verde.

Rolieiro. Foto: D.R.

W: É realista pensar que o rolieiro possa voltar a ocupar regiões onde existia há algumas décadas? Ou que possa descer na categoria de ameaça na Lista Vermelha?

Teresa Catry: Sim, é realista, mas não quer dizer que seja provável. Dependerá dos esforços de conservação e das políticas ambientais implementadas no futuro próximo. Existem várias espécies que têm requisitos ecológicos semelhantes aos do rolieiro. Nesse sentido, esforços feitos para outras espécies poderão beneficiar o rolieiro e vice versa. 

W: Está, ou não, assegurado o financiamento para a monitorização constante e ações de conservação dirigidas a esta espécie?

Teresa Catry: De forma alguma. É uma luta constante. E não apenas para o rolieiro!

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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