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Lançado o primeiro guia de campo dedicado aos cágados de Portugal

23.07.2026
leitura de 3 minutos
Cágado-de-carapaça-estriada. Foto: Pedro Alves

Sabia que em Portugal existem 11 espécies de cágados? E que destas, apenas duas são nativas? E que o nosso país faz parte de um esforço ibérico para travar a extinção de uma delas? Para nos ajudar a saber mais, a associação Palombar lançou o primeiro guia de campo inteiramente dedicado a estes discretos répteis.

Talvez seja melhor começar pelo princípio, pelas apresentações.

Os cágados são um tipo específico de tartarugas de hábitos semi-aquáticos, associados à água doce. Tanto podem nadar nas águas de lagos ou de ribeiros como deslocar-se em terra, graças às suas patas com unhas e membranas entre os dedos.

Em Portugal, são conhecidas apenas duas espécies de cágados nativos: o cágado-de-carapaça-estriada (Emys orbicularis), que está Em Perigo de extinção, e o cágado mediterrânico (Mauremys leprosa). 

Que se saiba, pelo menos nove espécies de cágados exóticos têm sido libertadas na natureza; a maioria já são hoje invasoras. O Guia de Campo dos Cágados de Portugal, lançado este mês pela Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, com sede no Vimioso, apresenta e descreve essas nove espécies: tartaruga-da-Flórida (Trachemys cripta ssp.), tartaruga-pavão-do-Belize (Trachemys venusta), tartaruga-peninsular (Pseudemys peninsularis), tartaruga-de-barriga-vermelha-da-Flórida (Pseudemys nelsoni), tartaruga-hieroglífica (Pseudemys concinna), tartaruga-corcunda-do-Ouachita (Graptemys ouachitensis), tartaruga-corcunda-do-Mississipi (Graptemys pseudogeographica ssp.), tartaruga-chinesa-de-pescoço-listado (Mauremys sinensis) e a tartaruga-chinesa-de-três-quilhas (Mauremys reevesii).

Sobre cada uma das 11 espécies, o Guia de Campo – disponível gratuitamente na sua versão online – inclui a sua distribuição atual, a situação em Portugal e uma curta descrição (com o tamanho de machos e de fêmeas ou de que se alimentam, por exemplo).

Além da lista com as espécies presentes em Portugal, faz parte do Guia de Campo uma tabela comparativa que explica como se distinguem estes 11 cágados. Se à partida estes répteis podem ser muito parecidos, o truque é olhar para três partes do corpo específicas: cabeça e pescoço, carapaça e plastrão (a parte ventral do cágado).

Neste Guia de Campo com mais de 50 páginas pode aprender ainda o que fazem estes animais durante todo o ano – quando começam a hibernar, quando nidificam ou quando eclodem os seus ovos -, quais os seus habitats preferidos, como é a galeria ripícola portuguesa, quais as maiores ameaças que enfrentam e qual o papel dos cágados nos ecossistemas ribeirinhos. Por exemplo, os cágados alimentam-se de larvas de mosquitos que podem ser vetores de doenças, um trabalho cada vez mais importante para a saúde pública num cenário de alterações climáticas.

Uma ferramenta para ser usada por qualquer pessoa

“Este guia representa um marco importante para a conservação dos cágados em Portugal”, comentou, em comunicado, Pedro Alves, biólogo da Palombar e um dos autores do guia, juntamente com as biólogas Leonor de Carvalho e Sandra Fernandes e com o biólogo Luís Lourenço.

“É a primeira publicação dedicada exclusivamente aos cágados presentes no nosso país e nasceu da vontade de aproximar o conhecimento científico sobres estas espécies de todos os públicos”, acrescentou.

Para ajudar os menos conhecedores, foi incluído um glossário que descodifica os termos mais técnicos.

“Desde o início, quisemos criar uma ferramenta acessível, capaz de ser utilizada tanto por especialistas como por estudantes, professores, naturalistas e qualquer pessoa com curiosidade pela natureza. Mantivemos o rigor científico, mas optámos por uma linguagem mais simples e próxima do leitor”, explicou Pedro Alves.

A publicação resulta da experiência adquirida durante o projeto Water Bridges, um projeto de 18 meses que arrancou em 2025 dedicado à conservação de um dos répteis mais ameaçados do Europa, o cágado-de-carapaça-estriada.

Em Portugal, a iniciativa envolveu especialmente comunidades séniores do Parque Natural do Douro Internacional, promovendo ações de sensibilização e a entrega de cágados autóctones encontrados pela população para posterior devolução ao seu habitat natural.

“Muitas das entregas de cágados nativos à equipa da Palombar para posterior devolução foram momentos marcantes”, contou Sara Freire, responsável pela área de Educação Ambiental da Palombar e coordenadora do projeto em Portugal. “As histórias que recolhemos ao longo deste caminho foram enriquecedoras, emotivas e inspiradoras.”

Segundo a responsável, estas experiências demonstraram que “a conservação da natureza é mais eficaz quando se constrói em conjunto com as pessoas, valorizando os seus conhecimentos, as suas experiências e a sua ligação ao território”.

Pedro Alves espera que “este guia inspire mais pessoas a conhecer, valorizar e proteger os cágados e os ecossistemas aquáticos de Portugal, contribuindo para a conservação de elementos únicos do nosso património natural.”

A versão impressa deste Guia de Campo será utilizada apenas em ações de educação ambiental promovidas pela Palombar e não estará disponível para venda.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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