O ruído eletromagnético, uma característica dos ambientes urbanos, está a ter um efeito inesperado no comportamento dos morcegos, revela um estudo publicado a 28 de maio na revista Science.
O ruído eletromagnético ocorre naturalmente na atmosfera mas tem aumentado significativamente por causa das atividades humanas, sendo produzido por aparelhos eletrónicos, linhas elétricas e até por luzes LED.
Agora, um estudo liderado por investigadores da Universidade britânica de Bangor, da Universidade da Letónia e da Universidade de Oldenburg, na Alemanha, revelou efeitos inesperados da exposição a este ruído.
A equipa expôs morcegos-pigmeus (Pipistrellus pygmaeus) a ruído de radiofrequência de banda larga fraco (0-300 MHz) durante cerca de 30 minutos enquanto observavam o pôr do sol, testando depois a orientação do voo mais tarde durante a noite. Estudos anteriores já tinham demonstrado que este tipo de ruído pode interferir com a capacidade dos animais para detetar o campo magnético terrestre.
Como se sabe que os morcegos-pigmeus em migração para as suas áreas de invernada calibram pistas ambientais ao pôr do sol para navegarem mais tarde durante a noite, os investigadores previram que este ruído iria perturbar a capacidade dos morcegos para detetar o campo magnético e, consequentemente, a calibração do seu sistema interno de orientação. No entanto, esperavam que esse efeito ocorresse apenas quando os animais fossem expostos durante esse período crítico de calibração.
Os investigadores verificaram que os morcegos expostos a este ruído partiram em direções aleatórias, ao contrário dos morcegos não expostos, que se orientaram normalmente na direção migratória esperada.
Contudo, para surpresa da equipa, estudos adicionais indicaram que a orientação dos morcegos é perturbada independentemente de a exposição ocorrer durante esse período crítico de calibração ou apenas depois do pôr do sol.
Mais surpreendente ainda, os efeitos perturbadores deste ruído eletromagnético prolongaram-se durante várias horas após o período de exposição, sugerindo um “efeito residual” provocado pela breve exposição. Os investigadores esperavam que o impacto terminasse assim que o ruído deixasse de estar presente.
Estas conclusões sugerem que “a poluição por ruído eletromagnético poderá ter um impacto maior no comportamento animal do que se pensava anteriormente”, escrevem os autores do estudo.
A investigação levanta, por isso, questões sobre as consequências deste tipo de poluição para a fauna selvagem que se desloca através de paisagens dominadas pela atividade humana, como acontece com os animais migradores, mesmo quando atravessam essas áreas apenas durante curtos períodos.
“Esta descoberta foi bastante surpreendente”, comentou Richard Holland, professor de Comportamento Animal na Universidade de Bangor. “A nossa intenção era perceber de que forma o ruído afetaria o sistema de deteção magnética dos morcegos, mas os resultados sugerem que o impacto deste ruído eletromagnético é mais complexo do que isso.”
Já se sabia que o ruído eletromagnético nesta gama interfere com o sentido magnético. Mas não “que tivesse um impacto significativo nos animais migradores, porque é mais prevalecente em cidades do que em zonas rurais”. Segundo Richard Holland, “presumia-se que, como os animais atravessariam rapidamente estas áreas, não seriam afetados durante muito tempo, ou sequer afetados. No entanto, os nossos resultados indicam que mesmo uma breve exposição pode produzir efeitos que persistem para além do período de exposição e independentemente de outras pistas ambientais”.
Contudo, a razão para estes efeitos continua incerta. “Pode acontecer que o impacto esteja relacionado com a forma como os morcegos interpretam o campo magnético — por exemplo, o ruído eletromagnético pode fazer com que o campo pareça invulgar e os morcegos decidam ignorá-lo”, disse Will Schneider, investigador na mesma universidade e co-autor do estudo. “Por outro lado, poderá introduzir algum tipo de fator de stress que leve os morcegos a decidir não migrar nessa noite, razão pela qual partem em direções aleatórias em vez de seguirem a direção migratória, como fizeram os morcegos de controlo não expostos.”
Will Schneider acredita que estes efeitos podem ter consequências ecológicas significativas que até agora não eram conhecidas.
Sobretudo, considera “preocupante que as normas atuais de exposição tenham sido concebidas exclusivamente para humanos, deixando a fauna selvagem vulnerável, mesmo dentro desses limites.”