PUB

Conservação

Espanha diz não ter sido informada por Portugal sobre mudanças no centro de reprodução do lince-ibérico

20.05.2026
leitura de 4 minutos
Lince-ibérico. Foto: Programa de Conservação Ex-Situ/arquivo

Governo espanhol aguarda explicações do ICNF sobre alteração no modelo de gestão do CNRLI, em Silves, e admite que o tema nunca foi discutido nos órgãos de cooperação ibérica. Pedido de reunião entre os dois países, feito há mais de um mês, não obteve resposta de Portugal.

O Governo espanhol afirmou à Wilder não ter recebido qualquer comunicação formal do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) sobre a anunciada mudança no modelo de gestão do Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico (CNRLI), em Silves, incluindo a substituição da actual equipa técnica responsável pela reprodução em cativeiro da espécie já a 1 de junho.

Em respostas enviadas esta quarta-feira, o Ministério para a Transição Ecológica e o Desafio Demográfico de Espanha (MITECO) revela que o tema “não foi tratado nem comunicado até ao momento” nos órgãos de cooperação administrativa entre Portugal e Espanha dedicados ao lince-ibérico.

O programa de conservação ex-situ desta espécie funciona a nível ibérico e todas as decisões relativas aos quatro centros que fazem a reprodução de lince-ibérico são decididas em conjunto, entre Portugal e Espanha. Entre essas decisões estão a troca de linces entre centros, para garantir a maior variabilidade genética na população, qual o número de linces e quais se irão reproduzir em cada temporada, e ainda a escolha dos animais que se vão reintroduzir na natureza e em que locais isso será feito.

Esta colaboração ibérica foi formalizada há quase 20 anos, com o acordo de cedência de linces firmado entre Espanha a Portugal, em 2008.

“Não foi recebida comunicação formal por parte do ICNF relativamente às questões refletidas no vosso meio de comunicação”, refere o ministério espanhol.

A posição espanhola surge numa altura em que vários especialistas internacionais ligados ao programa ibérico de conservação desta espécie classificada como Vulnerável manifestaram preocupação com a mudança anunciada pelo ICNF, alertando para riscos no bem-estar dos animais e na continuidade do programa de reprodução ex situ.

Espanha aguarda explicações de Portugal

O MITECO sublinha que mantém um “contacto fluido e muito frutífero, a nível técnico, com representantes do ICNF nos órgãos de cooperação administrativa sobre o lince-ibérico”, mas admite que ainda não dispõe de informação sobre as alterações previstas por Portugal.

“Não existe uma posição do Governo espanhol neste momento, dado que não se dispõe de informação sobre essas possíveis mudanças”, refere Madrid. “Estamos à espera de as conhecer para as avaliar e comentar detalhadamente com as autoridades portuguesas.”

Segundo o Governo espanhol, também não é ainda possível avaliar o impacto potencial da mudança no programa ibérico de conservação do lince.

“Hoje não se pode informar sobre o impacto que isso poderia ter no desenvolvimento do programa de conservação ex situ do lince-ibérico, por não se conhecerem as propostas do ICNF.” “De momento, não é possível prever os efeitos destas propostas de alteração até conhecermos os detalhes do seu alcance”, respondeu o MITECO às perguntas colocadas pela Wilder.

Astrid Vargas, coordenadora espanhola do Programa de Reprodução do lince-ibérico em cativeiro entre 2003 e 2010, disse à Wilder que “este tipo de decisões deveria ter sido articulado com Espanha”, até porque “vai afetar toda a planificação a nível ibérico”. A especialista defendeu que a conservação desta espécie “é um esforço colaborativo. Graças a isso teve sucesso. Têm de se consultar uns aos outros”. E lembrou que todo o trabalho que acontece no CNRLI é coordenado com o resto da rede de centros de cria, em Espanha. “Tem sido uma relação harmoniosa. Uma disrupção deste tipo pode afetar todo o programa ibérico.”

Carta enviada a Lisboa continua sem resposta

O ministério espanhol confirmou igualmente que enviou, a 15 de Abril, uma carta ao ICNF propondo a realização de uma reunião da Comissão Bilateral Portugal-Espanha no âmbito do acordo de cooperação entre o Reino de Espanha e a República Portuguesa relativo ao programa de reprodução em cativeiro do lince-ibérico.

No entanto, até ao momento, “não foi recebida resposta por parte do ICNF”.

Segundo o MITECO, a carta foi enviada pela Direção-Geral de Biodiversidade, Florestas e Desertificação, organismo daquele ministério. Espanha recusou divulgar o conteúdo integral da carta por considerar tratar-se de uma comunicação interna entre administrações públicas.

Apesar das reservas e da ausência de informação detalhada, o executivo espanhol evita, para já, críticas diretas à actuação portuguesa.

“Devido à confiança leal e ao trabalho efetivo desenvolvido pelas autoridades portuguesas com o lince-ibérico, em estreita cooperação entre Espanha e Portugal, confia-se que a sustentabilidade e o bom funcionamento do programa de conservação ex situ se mantenham no futuro, incluindo a importantíssima contribuição do CNRLI de Silves”, refere o ministério.

Esta terça-feira, 19 de maio, o gabinete da ministra portuguesa do Ambiente e da Energia confirmou à Wilder que Maria da Graça Carvalho remeteu um despacho urgente ao conselho diretivo do ICNF a recomendar que qualquer alteração ao funcionamento do CNRLI deve ter em conta o bem maior dos animais que lá vivem.

A alteração anunciada deste que é o único centro de reprodução da espécie em Portugal, onde vivem hoje cerca de 30 linces-ibéricos, incluindo oito crias com poucos meses de vida, está a gerar profunda preocupação entre organizações não governamentais portuguesas, grupos parlamentares e até entre alguns dos maiores especialistas mundiais na conservação de felinos selvagens. Entre eles estão o Grupo de Especialistas de Felinos da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), Urs Breitenmoser e Alexander Sliwa.

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

Não perca