Rui Constantino, da Liga para a Proteção da Natureza, e Inês Catry, da Universidade de Lisboa, contaram à Wilder o que está a ser feito para dar as boas vindas a esta ave ameaçada de extinção, que nidifica nas planícies do Alentejo.
Por estes dias, depois de uma longa viagem desde África, já se veem na Zona de Proteção Especial (ZPE) de Castro Verde francelhos (Falco naumanni) em período de corte e a acasalar. Membros da família dos falcões e também conhecidos como peneireiros-das-torres, estas aves migradoras estão ameaçadas de extinção em Portugal, onde ocorrem apenas no Alentejo. As primeiras chegam no final de janeiro.
Os ralos (Gryllotalpa sp.), mas também outros insetos como escaravelhos e gafanhotos, são a refeição preferida dos francelhos e também uma oferta em ocasiões especiais. “São normalmente os machos que escolhem o ninho e tentam encontrar uma fêmea. Por exemplo, oferecendo-lhe alimentos”, explica Rui Constantino, que trabalha há duas décadas com a espécie.

Todos os anos, este técnico da Liga para a Proteção da Natureza (LPN) dedica algum tempo a cuidar dos ninhos artificiais que foram sendo construídos para travar o declínio destas aves desde o final da década de 90, na ZPE de Castro Verde. Esta área da Rede Natura 2000 estende-se por mais de 85.000 hectares, que concentram mais de 80% da população portuguesa da espécie.
Além de centenas de caixas-ninho instaladas em diferentes sítios, incluindo montes alentejanos abandonados, entre 2003 e 2006 foram construídas na região uma dezena de paredes e de torres de nidificação, no âmbito do projeto LIFE-Natureza Peneireiro-das-torres, coordenado pela LPN. Cada uma dessas estruturas, que hoje continuam a ser usadas embora despertem preocupação quanto ao futuro, contém cavidades próximas umas das outras que servem de ninhos aos francelhos. É que estes são aves coloniais e por isso preferem nidificar agrupados, em ajuntamentos que variam entre três ou quatro casais e muitas dezenas. Em Portugal, já se contaram 80 casais na maior colónia da espécie.

Inspiradas no que acontece na natureza, as paredes e torres de nidificação espalhadas pelas planícies da ZPE fazem lembrar condomínios – nalguns casos, com muitos apartamentos. “Há paredes que têm quase 80 buracos”, comenta Rui Constantino, que lembra que estas aves de rapina não são as únicas beneficiadas. Tanto este técnico como Inês Catry, investigadora na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, perceberam já há muitos anos que estas estruturas, que no total representam mais de 600 ninhos artificiais, são aproveitadas por outras espécies. Exemplos? Rolieiros, corujas-das-torres, mochos-galegos, estorninhos, pombos e gralhas-de-nuca-cinzenta, aves que nunca seriam vizinhas tão próximas na natureza.

O diâmetro anti-intrusos: “6,3 centímetros”
“Quando há cerca de 20 anos comecei a trabalhar com os peneireiros-das-torres na LPN, juntamente com a Inês Catry, começámos a detetar que havia um problema de invasão dos ninhos por outras espécies”, recorda Rui Constantino.
Assim, uma tarefa que os dois realizaram por estes dias, na ZPE de Castro Verde, foi adaptar as cavidades de alguns ninhos artificiais para impedir que outras aves colonizem esses espaços, desalojando os peneireiros-das-torres. É o caso dos pombos domésticos, por exemplo, “que fazem destes locais os seus ‘pombais'”, comenta a investigadora da FCUL. Outro alvo são as gralhas-de-nuca-cinzenta, que “se for preciso até constroem os ninhos em árvores” – acrescenta Rui Constantino – mas que não se inibem de entrar à força em buracos já ocupados por peneireiros e expulsá-los à força.

Há cerca de 10 anos, Rui inventou finalmente uma solução para o problema: recorrendo a um sistema que envolve o uso de plástico e de PVC, tornou-se possível reduzir o diâmetro das aberturas para as cavidades. Em duas épocas de reprodução fez ainda várias experiências para chegar ao diâmetro exato, “calculado ao milímetro”, que permite a passagem dos peneireiros-das-torres, “mesmo que seja uma fêmea que tenha ovo”, mas não de aves maiores: 6,3 centímetros.
Todos os anos, Rui, Inês e outros elementos da equipa refazem este sistema anti-intrusos nalgumas estruturas, para renovar o que entretanto se foi deteriorando. Numa sexta-feira 13 de março, deitaram mãos ao trabalho em duas paredes de nidificação na Herdade de Belver e na Herdade de Vale Gonçalinho, propriedades geridas pela LPN.

Mas nem tudo foi alterado, até porque há outras espécies maiores que também podem aproveitar uma pequena ajuda.
“As aberturas [agora adaptadas] permitem a entrada dos francelhos mas também de rolieiros e mochos galegos. Deixámos, em cada parede, algumas aberturas maiores ‘abertas’, para que os peneireiros-vulgares e as corujas-das-torres possam, se quiserem, ocupar estes locais”, descreve Inês Catry.

Deixar a casa limpa
Duas semanas antes, Rui e outros membros da LPN já tinham dado início a outra tarefa anual: limpar o interior dos ninhos artificiais, na tentativa de “deixar a casa limpa” para as novas posturas. “Se forem buracos ocupados por peneireiros-das-torres, ao longo da época estes vão acumulando cocós e outras porcarias lá dentro, sem nunca os limpar. Acabam por ficar com um espaço muito reduzido dentro da cavidade”, explica Rui Constantino. O problema mantém-se com outras espécies. Se um ninho artificial for usado por estorninhos, por exemplo, “fica completamente cheio de palha” e também convém tirar tudo cá para fora.

Neste ano, já se limparam cerca de 200 ninhos, mas até poderiam ser mais. É que quando os invernos são de muita chuva, como aconteceu desta vez, muitos caminhos na planície ficam intransitáveis e é impossível chegar a todas as paredes e torres de nidificação.
Entretanto, o tempo aperta e faltam poucas semanas para que caixas-ninho, paredes e torres de nidificação fiquem totalmente ocupadas. A meio de abril, é provável que praticamente todos os casais de peneireiros-das-torres já tenham a postura completa – embora, nota o técnico da LPN, hoje em dia essas datas sejam mais incertas do que no passado. Depois, será a altura destas aves protegerem e alimentarem as crias, até partirem para África entre agosto e setembro.
Saiba mais.
O francelho ou peneireiro-das-torres é uma ave de rapina que pertence ao mesmo género do peneireiro-comum (Falco tinnunculus), com o qual pode ser confundido. Com 30 centímetros de comprimento e 72 centímetros de envergadura de asas, é mais pequeno do que aquele. Enquanto caçam, as aves destas duas espécies costumam peneirar, ou seja, permanecem em voo no mesmo local ao mesmo tempo que batem as asas, daí o nome comum de “peneireiro”. Veja como identificar qual das espécies se trata, aqui.