PUB

Milhafre-real: 17 aves de espécie Criticamente Em Perigo encontradas mortas em Almeida

16.01.2026
leitura de 7 minutos
Milhafre-real. Foto: Francesco Veronesi

As autoridades estão a investigar a morte de pelo menos 17 milhafres-reais (Milvus milvus) em Leomil, concelho de Almeida (distrito da Guarda). Desde 2021, foram encontradas em Portugal 32 aves da espécie mortas por envenenamento, que eram seguidas por GPS pelo projeto LIFE Eurokite. Número total será bastante superior.

Tempos houve em que o milhafre-real era uma espécie bastante comum como nidificante em Portugal e vivia em estreita relação com as populações rurais.

Milhafre-real (Milvus milvus). Foto: Noel Reynolds/WikiCommons

Um século mais tarde e são muito poucos os casais que continuam a fazer ninho no nosso país. Estima-se que existam entre 50 a 100 casais em Portugal Continental, segundo o III Atlas das Aves Nidificantes de Portugal.

A situação é tão preocupante que a Lista Vermelha das Aves de Portugal lhe atribuiu a categoria de Criticamente Em Perigo. Hoje, a maior parte dos milhafres-reais que podemos ver em Portugal são aves invernantes que chegam do Norte e Centro da Europa para aqui passar os meses mais frios do ano.

Uma das razões para este declínio é o uso ilegal de venenos e têm sido registados vários casos de uma ou duas aves envenenadas de cada vez.

No caso dos 17 milhafres agora encontrados, tudo ganha ainda maior importância por causa da escala. Numa nota enviada esta sexta-feira à Wilder, o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) revelou ter recebido a 12 de janeiro uma denúncia por morte de aves selvagens em Leomil, concelho de Almeida.

“Primeiro ouvi falar num milhafre, depois em cinco e agora 17. Este é um episódio drástico que terá um impacto muito significativo” para a espécie, comentou à Wilder José Pereira, presidente da Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural.

De acordo com este responsável, o episódio, “gravíssimo”, aconteceu num dos poucos dormitórios da espécie que existem do Centro/Interior do país. “Terá sido apercebida a grande aglomeração de aves que, no inverno, se aglomeram num dado local para passarem a noite e assim estarem mais protegidas.”

O ICNF já participou a ocorrência ao órgão de polícia criminal competente e acrescentou que “estão em curso os procedimentos previstos em situações como a presente”.

“Foi realizada uma vistoria conjunta ao local na manhã do dia 13-01-2026 para prospeção e recolha de indícios, na qual participaram elementos do serviço de Vigilância e Fiscalização do ICNF e elementos da Guarda Nacional Republicana. Assim que sejam conhecidos os resultados das análises forenses às provas e indícios recolhidos no local o ICNF tomará, no âmbito das suas competências, as providências que venham a revelar-se necessárias.”

Segundo José Pereira, é difícil perceber se estes 17 milhafres-reais serão nidificantes ou invernantes. “A população é muito flutuante” e “ainda há muito por conhecer sobre a espécie”.

Mas uma coisa sabe. “Tenho poucas dúvidas de que este foi um caso de envenenamento ilegal, uma vez que estes casos são recorrentes naquele local”.

Quanto às eventuais razões por detrás deste caso de envenenamento dirigido ao milhafre-real, José Pereira diz que se tratará de um “desconhecimento profundo” em relação a esta espécie. “O milhafre-real é, preferencialmente, necrófago, ou seja, alimenta-se de animais mortos; não se sujeita a tentar caçar animais vivos porque isso implica gastar mais energia. E quando o tenta, prefere presas pequenas como gafanhotos, lagartos, cobras, ratinhos. Não vejo que possa haver motivo de conflito com atividades económicas”, acrescenta.

Durante os próximos dois anos, a Palombar vai estar a trabalhar para conseguir marcar com GPS entre 10 e 15 milhafres-reais adultos, depois de ter conseguido financiamento através de um projeto recentemente aprovado no âmbito do programa Norte 2030, da CCDR Norte. “Vamos reforçar a monitorização da população e mapear os ninhos e casais reprodutores no Nordeste Transmontano”, mais concretamente no Parque Natural do Douro Internacional e áreas limítrofes, contou à Wilder José Pereira.

O projeto prevê ainda apoiar e sensibilizar proprietários que tenham ninhos nos seus terrenos, fazer uma vigilância mais ativa e melhorar a disponibilidade de alimento para estas aves, nomeadamente através de plataformas de alimentação.

José Pereira está já a pensar numa segunda fase deste projeto, havendo financiamento. A ideia é “criar um programa de reforço populacional” para esta ave, no âmbito de um “trabalho profundo para retirar a espécie da categoria Criticamente Em Perigo”.

“Mas antes de tudo, é essencial eliminar as ameaças, incluindo o uso ilegal de venenos que pode dizimar populações.”

Lobo poderia ser o alvo principal do veneno

Ainda assim, é possível que os milhafres-reais não fossem a vítima desejada. “O que usaram como isco [peça de carne onde é colocado o veneno] foi um animal grande, uma ovelha. Na área onde isto aconteceu, e com um isco desse tamanho, é possível que a intenção fosse matar lobos“, considera por sua vez Alfonso Godino, técnico de conservação ligado ao LIFE Eurokite, um projeto internacional que trabalha para a conservação e recuperação do milhafre-real em vários países da Europa.

Uma das principais medidas do projeto tem sido a marcação com emissores GPS e o seguimento à distância de aves desta espécie. Muitas delas, nascidas em países do centro da Europa, vêm passar o inverno à Península Ibérica para fugir ao frio. O problema surge quando esses milhafres não sobrevivem aos meses que passam em Portugal: desde 2021, a equipa do LIFE Eurokite encontrou 32 destas aves mortas em território português, devido à ingestão de venenos.

Milhafre seguido pelo LIFE Eurokite encontrado morto em Castro Verde, em 2021. Foto: A. Godino / AMUS-LIFE EUROKITE

“Estas aves estavam marcadas com emissores GPS do nosso projeto, foi por isso que as detetámos”, sublinha o mesmo responsável. Sendo assim, qual terá sido o número total de milhafres-reais mortos devido a venenos, nesse período de tempo? “Acredito que podemos multiplicar por cinco as 32 aves que encontrámos, sem qualquer problema”, estima Alfonso.

Noventa por cento dos milhafres detetados mortos pelo projeto estavam no Alentejo, que é a principal zona de invernada da espécie em Portugal. De acordo com os dados recolhidos por Alfonso e outros membros da equipa, essas aves tinham chegado em migração, vindas de locais onde se reproduzem na Alemanha, França, Espanha, Países Baixos e República Checa. “Quem faz isto, além de prejudicar a espécie em Portugal, está também a afetar as populações de milhafres nestes outros países”, lamenta Alfonso Godino, que pertence também à direção da AMUS, uma ONG espanhola.

Alfonso explica que o “pico” destes casos de mortalidade costumam acontecer entre outubro e janeiro, numa altura importante para a pecuária e para a caça. No caso dos criadores pecuários, são meses cruciais devido ao nascimento e criação dos borregos que vão ser vendidos e consumidos durante a época de Natal. “Hoje em dia sabemos que já não é costume espalhar grandes quantidades de veneno, como no passado. A técnica agora é colocá-lo em peças pequenas de carne.” O objetivo será principalmente atrair e matar raposas, para as impedirem de matar os filhotes das ovelhas, mas os milhafres-reais – “que têm a capacidade de detetar pequeníssimos pedaços de carne ao longe” – acabam por ser uma das vítimas colaterais desta prática ilegal.

ONGA preocupadas

A Liga para a Protecção da Natureza (LPN) manifestou “a sua profunda consternação e preocupação perante a mortalidade de cerca de duas dezenas de milhafres-reais no concelho de Almeida”.

Milhafre-real (Milvus milvus). Foto: Hansueli Krapf/WikiCommons

“O milhafre-real é uma ave icónica da nossa fauna, facilmente reconhecível nos nossos céus pela sua cauda bifurcada e tons avermelhados. A população residente em Portugal tem vindo a sofrer um declínio acentuado, que justifica o seu estatuto nacional de criticamente em perigo de extinção”, escreve a organização numa nota.

“Um evento de mortalidade desta escala pode fragilizar ainda mais uma espécie sujeita a ameaças que constituem crime como o abate a tiro e a utilização de veneno, ou pela alteração da paisagem, como a eletrocussão em linhas elétricas.”

“Esperamos que a GNR consiga apurar as causas deste triste evento e encontrar a sua origem”, acrescenta.

Por seu lado, a Rewilding Portugal diz estar “a acompanhar o caso”, uma “situação preocupante, que está a ser monitorizada também por nós, em articulação com as autoridades competentes, como o ICNF, o SEPNA/GNR e no âmbito do Programa Antídoto”.

“Este episódio volta a expor uma realidade alarmante, a confirmar: o uso ilegal de venenos continua a ser uma das maiores ameaças à biodiversidade em Portugal. Desde 2021, registam-se dois casos suspeitos de envenenamento por mês, com mortalidade confirmada ou suspeita em animais selvagens e domésticos”, escreve a Rewilding Portugal numa nota.

A organização lembra que “o veneno não afeta apenas uma espécie. Águias-imperiais, abutres-pretos, raposas, lobos e muitas outras espécies protegidas por lei são vítimas diretas ou indiretas destas práticas ilegais”.

“80% das aves de rapina em Portugal apresentam contaminação por raticidas anticoagulantes, químicos usados no controlo de roedores. Estes dados demonstram que o envenenamento secundário é um problema generalizado, silencioso e subestimado, com impactos severos na fauna selvagem.”

Mas ainda que o uso de venenos seja crime, punível com pena de prisão, “a escassez de capacidades laboratoriais e de provas legalmente válidas, resulta num número elevado de casos arquivados ou sem condenação“.

Na opinião desta ONG, “combater o envenenamento ilegal exige uma resposta eficaz e integrada, que envolva autoridades, justiça, comunidade científica, projetos de conservação e sociedade civil”.


Nota: artigo atualizado às 19h55 para acrescentar declarações de Alfonso Godino, sobre milhafres-reais encontrados mortos em Portugal, seguidos pelo projeto LIFE Eurokite, e sobre causas possíveis para este envenenamento.

Não perca