Na pequena aldeia da Cerdeira, na serra da Lousã, o incêndio contornou as casas, em parte graças à ajuda do bosque de carvalhos que está a ser recuperado há mais de 20 anos por António Carlos Andrade.
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Em meados de agosto, um incêndio passou pela aldeia de xisto de Cerdeira, na serra da Lousã, mas terá poupado as casas graças a uma barreira natural formada por um bosque de carvalhos, salgueiros, sanguinhos, castanheiros e de outras folhosas.
Desde 2001 que António Carlos Andrade chegou a Cerdeira e cuida de grande parte desse bosque, a par de um projeto de agricultura biológica. Conheça este cuidador de florestas que, disse à Wilder, sempre teve o desejo de viver num local rodeado de espécies autóctones, onde as folhosas predominassem.
WILDER: Quando chegou a Cerdeira e o que queria fazer?
António Carlos Andrade: Cheguei em 2001, por acaso. A ideia inicial era a de criar uma atividade económica, sustentável, em zonas desfavorecidas. Fazer um projeto de agricultura biológica. Quando vim à Lousã fazer a inscrição numa formação de agricultura biológica, foi aí que conheci a Cerdeira. A aldeia é, como tantas outras, formada por um casario central e rodeada por terrenos privados, que eram todos cultivados. Isto, até ao seu abandono devido à emigração. Aí, tive conhecimento de uma casa à venda. Após alguns contactos com o vendedor, comprei a propriedade e os terrenos. Apercebi-me depois que estava a comprar pedaços de uma manta de retalhos, que vinha sendo dividida ao longo de anos. Há duas gerações, era normal as famílias terem 7, 8,9 filhos. A partir de 2001 comecei o processo inverso. Ao longo destes últimos 24 anos continuei essa difícil tarefa. Antes de iniciar o projeto de jovem agricultor, comecei a limpar os terrenos que tinha comprado e que viria a adquirir. Na sua grande maioria, estavam completamente ao abandono e intransitáveis, repletos de uma densa vegetação “piromaníaca”. Havia tufos enormes de silvas, muitas e enormes giestas (algumas com sete metros de altura) e urzes, algumas com 15cm, à altura do peito. Havia também pinheiros, eucaliptos, algumas mimosas e carvalhos, salgueiros, sanguinhos e castanheiros. Foi uma surpresa ter encontrado estas espécies autóctones. Então, à semelhança de uma partitura de guitarra clássica, revelou-se simplesmente um “trabalho” de eliminar o “lixo”, limar e polir arestas, e facilitar a revelação da alma dos seus criadores. Mesmo que a área de produção fosse reduzida, escolhi um local mais perto das casas para a produção das aromáticas. Juntava, desta forma, ao projeto inicial de agro-turismo (plantas aromáticas e turismo), uma outra vertente, ligada às árvores autóctones.

W: E hoje, como é o bosque que existe?
António Carlos Andrade: Existem as que mencionei atrás e alguns dos 130 medronheiros plantados que sobreviveram à passagem do fogo. Para além de ter vindo a plantar carvalhos, azevinhos e sobreiros em zonas específicas, limitei-me a respeitar a regeneração natural que já estava instalada. E a proteger aquelas árvores que iam germinando, já com os terrenos limpos. Numa zona com a maior concentração de azevinhos e infestada por mimosas e pinheiros, alguns com 30 metros de altura e um grande eucalipto, era onde a reflorestação estava mais a acontecer. Esta zona em particular, foi a mais severamente calcinada pelo fogo de agosto. Muito pela sua situação geográfica, em que a sul/sudeste e a um metro de distância está situada uma área de baldio. Na altura, tinha uma carga de combustível de anos e anos sem manutenção, composta de grandes giestas, grandes urzes e pinheiros com uma densidade de plantação/germinação muito grande.
W: Qual o impacto destes incêndios neste bosque?
António Carlos Andrade: O impacto neste bosque, em particular, foi muito reduzido.
W: Qual o papel deste bosque no “combate” ao incêndio?
António Carlos Andrade: Pode dizer-se que são três barreiras de espécies autóctones, em grande parte constituídas por carvalhos. O primeiro contacto com o fogo, que vinha por um terreno abandonado potenciado com pinheiros, um mimosal adulto já decrépito sem manutenção, com árvores partidas e acumulação de grande carga combustível, giestas, urzes com três e quatro metros de altura, entrou um pouco mais no carvalhal. Parou quando terminou aquele combustível que descrevi atrás. Contornando por fora seguiu para norte, outra vez por terrenos mal geridos, com mimosas e eucaliptos. Entre esse bosque e as habitações, situa-se a plantação das aromáticas, ou seja, uma zona com mais manutenção e rega. Ficou intacta, na sua grande maioria. Isto, poderá ter acontecido desta forma, muito devido à ação dos bombeiros.

W: E agora, o que se segue? Vai continuar a dedicar-se ao restauro ecológico em Cerdeira?
António Carlos Andrade: Vou continuar a dedicar-me à minha atividade, como fazia antes. Tentando melhorar em alguns aspectos, nomeadamente assertividade comercial, tentar estabelecer parcerias para desenvolver e organizar atividades que consigam atrair e criar massa crítica ambiental. O que, diga-se de passagem, tem sido incompreensívelmente difícil. Pois, com a narrativa e informação criada e disseminada à volta desta aldeia, gera uma série de condicionantes perceptivas, criando um resultado pernicioso de afastamento e desconfiança.
W: Que conselhos pode dar a quem gostava de começar a fazer o mesmo em outras regiões do país?
António Carlos Andrade: O conselho que eu daria é que, desde o início, tentem perceber quem está à vossa volta. Se está numa perspectiva de cooperar de forma positiva e holística na comunidade ou, por outro lado, numa perspectiva exploratória ou predatória.