Neste cenário de vento extremo e de cheias, Carine Azevedo responde a perguntas que tantos de nós fazemos: Porque caíram tantas árvores? Como resistem? Saiba mais sobre a resistência das árvores e porque estas não são um problema para as cidades.
Nas últimas semanas, muitas regiões do país têm sido profundamente afetadas por episódios de vento extremo e cheias. Casas e empresas sofreram danos, carros destruídos, estradas cortadas e áreas florestais severamente afetadas. Para quem vive estes acontecimentos, o impacto não é passado, é presente.
A paisagem transformou-se rapidamente e as árvores caídas tornaram-se uma das imagens mais visíveis das tempestades: troncos partidos, copas no chão e raízes arrancadas do solo. À primeira vista, parece que falharam. Mas para compreender o que aconteceu é preciso olhar para além do que é visível.
Porque é que tantas árvores caíram?
As árvores não estão preparadas para situações tão extremas e inesperadas. A sua biologia responde a padrões relativamente estáveis: à regularidade das estações, à frequência média do vento, à alternância entre períodos secos e húmidos. As estratégias que moldam a forma da copa, a flexibilidade do tronco ou a profundidade das raízes resultam de milhares de anos de adaptação a essas regularidades.


O que estamos a viver neste inverno foge a esse padrão. A sucessão rápida de tempestades, com ventos extremos, solos permanentemente saturados e pouco tempo de recuperação entre eventos, criou condições que muitas árvores nunca enfrentaram ao longo da sua vida. Não se tratou de um episódio isolado, mas de vários fenómenos encadeados, cada um a testar árvores já fragilizadas pelo anterior.
Quando os padrões mudam demasiado depressa, até as melhores estratégias deixam de funcionar.
Como resistem as árvores?
As árvores “lutam” para se manterem de pé e raramente caem à primeira rajada, mesmo quando os ventos são fortes. Os primeiros a reagir são os ramos mais finos que se movem e absorvem parte da energia do vento. A copa reorganiza-se e torna-se mais permeável ao ar. O tronco flete e as raízes ajustam a tensão no solo, reforçando a ancoragem. Esta flexibilidade explica porque tantas árvores resistem a ventos fortes durante anos sem cair.
No entanto, quando o vento é persistente e se repete com intensidade crescente, o esforço acumula-se. Rajadas sucessivas deixam marcas invisíveis: microfissuras no lenho, ramos enfraquecidos, raízes que começam a perder aderência ao solo, etc. A árvore continua de pé, mas já não está intacta.
Com os solos saturados de água, o problema passa a ser a ancoragem. À medida que a água ocupa os poros do solo, a sua resistência diminui e o sistema radicular perde capacidade para contrabalançar a força do vento.
Nestas condições, árvores estruturalmente saudáveis – com copas equilibradas, troncos íntegros e sistemas radiculares extensos – podem tombar, não por debilidade própria, mas porque o meio que as sustenta já não responde. Por vezes, basta uma nova rajada, nem sempre a mais intensa, para provocar o desenraizamento.

Por outro lado, quando a árvore resiste ao arranque, a energia do vento concentra-se no tronco ou nos ramos principais. A madeira, sujeita a tensões repetidas, pode romper-se subitamente, dando origem a quebras que resultam de um processo prolongado de fadiga estrutural. Nesses casos, a árvore parte-se, no tronco ou nos ramos de maior dimensão.
Árvores em meio urbano
Nas cidades, as árvores vivem frequentemente em condições muito diferentes das naturais. O espaço disponível para as raízes é limitado, muitas vezes confinado a caldeiras estreitas, e os solos são compactados ou impermeabilizados, dificultando a entrada de oxigénio e água. As copas são muitas vezes moldadas por podas que alteram a sua arquitetura natural. Mesmo árvores aparentemente saudáveis podem ter sistemas radiculares reduzidos ou desequilibrados.
Quando a estes constrangimentos se junta um fenómeno meteorológico excecional, o risco aumenta. Não porque as árvores sejam inerentemente perigosas, mas porque cresceram em contextos que limitaram a sua capacidade de resposta a situações extremas.

Nas cidades, o problema raramente é a presença de árvores. É a forma como lhes damos, ou não, espaço para crescer.
Árvores nas florestas
Nas florestas, sobretudo nos povoamentos monoespecíficos, a vulnerabilidade está associada à própria estrutura do povoamento. Árvores da mesma espécie, idade e altura formam conjuntos uniformes, onde o vento atua de forma contínua e pouco fragmentada. Quando uma árvore cede, cria-se um efeito dominó que aumenta a exposição das restantes. A ausência de diversidade estrutural e funcional torna estas florestas particularmente vulneráveis a episódios extremos.
A diversidade – de espécies, de idades, de formas – funciona como um amortecedor natural, distribuindo melhor a energia do vento. Não impede o vento, mas fragmenta a sua ação, reduz a propagação das quedas e aumenta a resiliência do conjunto.

As árvores não são o problema
É importante dizê-lo com clareza: a queda de árvores pode ter consequências sérias. Ninguém olha para uma árvore caída sobre uma casa ou um carro sem sentir medo, revolta ou impotência. Compreender porque é que aconteceu não retira peso ao estrago nem apaga o impacto vivido.
Mas é fundamental compreender que as árvores não são culpadas do que aconteceu. Pelo contrário, muitas resistiram até ao limite das suas capacidades, em condições que ultrapassaram aquilo para que estavam biologicamente preparadas.
O que falhou não foi a árvore em si, mas o conjunto de circunstâncias em que foi chamada a resistir: episódios meteorológicos extremos encadeados, solos saturados, espaços de crescimento limitados e estruturas florestais ou urbanas pouco resilientes. Em muitos casos, as árvores fizeram exatamente aquilo que a sua biologia lhes permite fazer e falharam apenas quando o sistema à sua volta deixou de responder.

As árvores continuam a ser importantes, nas cidades e nas florestas. Regulam o clima, protegem os solos, armazenam carbono, sustentam ecossistemas e melhoram a qualidade de vida. É preciso continuar a plantar árvores. Mas, num contexto de eventos extremos cada vez mais frequentes, precisamos, acima de tudo, de as plantar melhor.
Isso implica reconhecer que as árvores são organismos vivos, adaptáveis mas finitos, e que não podem ser tratadas como infraestruturas rígidas ou apenas elementos decorativos. Significa também aceitar que o risco nunca pode ser eliminado por completo e que, num clima em mudança, algumas perdas serão inevitáveis. A diferença está em decidir se essas perdas resultam de sistemas mais resilientes ou de fragilidades acumuladas ao longo do tempo.
Cuidar das árvores não é garantir que nunca cairão. É criar condições para que cresçam, resistam e recuperem, sabendo que a força da natureza nem sempre respeita limites, por mais bem preparadas que estejam.