No pino do Verão e em dia de calor extremo, uma pequena gruta providencial, onde corre serenamente uma fonte de água fresca, guarda uma pequena maravilha botânica: um dos mais pequenos fetos que ocorrem em Portugal, Selaginella denticulata.
No fim de uma estreita estrada sem saída e com declive muito acentuado, encontra-se uma pequena ponte pedonal sobre a Ribeira da Galega. Do outro lado, uma pequena aldeia com 20 casas de xisto e quartzito, poucas ruas onde não cabem automóveis. Pressentimos um passeio cheio de curiosos contrastes, num reino liliputiano… (ou será do calor?)
Estamos a 10km do centro geodésico de Portugal e a menos distância de famosas praias fluvias a abarrotar de banhistas ruidosos.
Aqui, na minúscula aldeia de Água Formosa, é mesmo o som da água a correr na ribeira que predomina. Algumas cigarras teimosas aguentam o calor do início da tarde. A escassas centenas de metros do casario, nas paredes húmidas da fonte-gruta que deu o nome à aldeia, zumbem vespas sedentas. Só o gotejar contínuo da água sobre o coberto fofo de musgos e outras briófitas já refresca os pensamentos. Vem-nos à ideia que estão aqui há séculos, todas juntas, a par dos líquenes, contrariando a erosão das paredes verdes da pequena gruta que são, ao mesmo tempo, reservatório de água e abrigo de microfauna variadíssima.


Enquanto recuperamos do calor que faz lá fora, há tempo para uma observação mais atenta às paredes xistosas e é então que descobrimos a selaginela (Selaginella denticulata), uma pequena herbácea, de caule rastejante e ramificado, com folhas denticuladas, de dois tamanhinhos e tipos, até 4mm no máximo.
É um dos mais pequenos fetos que podemos encontrar em Portugal continental e na Madeira e aqui está, mesmo à frente dos nossos olhos, agarrando-se tenazmente à pedra escorregadia ou espreitando por entre as hepáticas. Aparentemente, a selaginela é comum no Centro e Sul do país, em zonas frescas e sombrias, e é mesmo abundante na bacia ocidental do Mediterrâneo, mas, seja por falta de atenção às pequenas coisas ou por questões do acaso, só agora damos com ela.

No caminho de regresso, ao longo da ribeira, é ainda mais fácil reparar no parente gigante que faz parte da galeria ripícola: o feto-real (Osmunda regalis), com as suas grandes frondes de mais de um metro de comprimento, este, por contraste, um dos maiores fetos que ocorrem em Portugal.

Pressentindo, isso sim, que está tudo ligado (ou será, de novo, o calor que aperta?…), julgamos vislumbrar outra vez o pequeno e fugaz lagarto-de-água que vimos esta manhã na Ribeira do Codes. Afinal, a ribeira daqui liga com a outra mais além, onde estão a praia fluvial e os passadiços, e o inopinado bichinho colorido pode ter decidido refugiar-se em água mais pacata. Só o vimos no tempo de um piscar de olhos, ondulando rapidamente sob a superfície translúcida da ribeira, mas seria certamente um macho, com a sua cor turquesa, além de verde-alface e amarelo.

O Lacerta schreiberi é uma espécie endémica da Península Ibérica que está ameaçada por perda de habitat. Ainda é possível avistá-lo no Norte e Centro de Portugal, mas apenas nas margens dos ribeiros que conseguirem manter uma boa qualidade da água e um coberto vegetal denso.

Prosseguimos o passeio, prometendo dar mais atenção a todas as pequenas coisas, pois, por estes lados, só as fragas são grandes e os eucaliptais excessivos.