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A selaginela, um dos mais pequenos fetos de Portugal e a importância das pequenas coisas

12.08.2025
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Selaginella denticulata. Foto: Fernanda Gamito

No pino do Verão e em dia de calor extremo, uma pequena gruta providencial, onde corre serenamente uma fonte de água fresca, guarda uma pequena maravilha botânica: um dos mais pequenos fetos que ocorrem em Portugal, Selaginella denticulata.

No fim de uma estreita estrada sem saída e com declive muito acentuado, encontra-se uma pequena ponte pedonal sobre a Ribeira da Galega. Do outro lado, uma pequena aldeia com 20 casas de xisto e quartzito, poucas ruas onde não cabem automóveis. Pressentimos um passeio cheio de curiosos contrastes, num reino liliputiano… (ou será do calor?)

Estamos a 10km do centro geodésico de Portugal e a menos distância de famosas praias fluvias a abarrotar de banhistas ruidosos.

Aqui, na minúscula aldeia de Água Formosa, é mesmo o som da água a correr na ribeira que predomina. Algumas cigarras teimosas aguentam o calor do início da tarde. A escassas centenas de metros do casario, nas paredes húmidas da fonte-gruta que deu o nome à aldeia, zumbem vespas sedentas. Só o gotejar contínuo da água sobre o coberto fofo de musgos e outras briófitas já refresca os pensamentos. Vem-nos à ideia que estão aqui há séculos, todas juntas, a par dos líquenes, contrariando a erosão das paredes verdes da pequena gruta que são, ao mesmo tempo, reservatório de água e abrigo de microfauna variadíssima. 

Enquanto recuperamos do calor que faz lá fora, há tempo para uma observação mais atenta às paredes xistosas e é então que descobrimos a selaginela (Selaginella denticulata), uma pequena herbácea, de caule rastejante e ramificado, com folhas denticuladas, de dois tamanhinhos e tipos, até 4mm no máximo.

É um dos mais pequenos fetos que podemos encontrar em Portugal continental e na Madeira e aqui está, mesmo à frente dos nossos olhos, agarrando-se tenazmente à pedra escorregadia ou espreitando por entre as hepáticas.  Aparentemente, a selaginela é comum no Centro e Sul do país, em zonas frescas e sombrias, e é mesmo abundante na bacia ocidental do Mediterrâneo, mas, seja por falta de atenção às pequenas coisas ou por questões do acaso, só agora damos com ela.  

A selaginela em associação com hepáticas. Foto: Fernanda Gamito

No caminho de regresso, ao longo da ribeira, é ainda mais fácil reparar no parente gigante que faz parte da galeria ripícola: o feto-real (Osmunda regalis), com as suas grandes frondes de mais de um metro de comprimento, este, por contraste, um dos maiores fetos que ocorrem em Portugal.

Feto-real, o “gigante”. Foto: Fernanda Gamito

Pressentindo, isso sim, que está tudo ligado (ou será, de novo, o calor que aperta?…), julgamos vislumbrar outra vez o pequeno e fugaz lagarto-de-água que vimos esta manhã na Ribeira do Codes. Afinal, a ribeira daqui liga com a outra mais além, onde estão a praia fluvial e os passadiços, e o inopinado bichinho colorido pode ter decidido refugiar-se em água mais pacata. Só o vimos no tempo de um piscar de olhos, ondulando rapidamente sob a superfície translúcida da ribeira, mas seria certamente um macho, com a sua cor turquesa, além de verde-alface e amarelo.

Onde ainda mora o lagarto-de-água. Foto: Fernanda Gamito

O Lacerta schreiberi é uma espécie endémica da Península Ibérica que está ameaçada por perda de habitat. Ainda é possível avistá-lo no Norte e Centro de Portugal, mas apenas nas margens dos ribeiros que conseguirem manter uma boa qualidade da água e um coberto vegetal denso. 

Lagarto-de-água. Foto: David Perez/WikiCommons

Prosseguimos o passeio, prometendo dar mais atenção a todas as pequenas coisas, pois, por estes lados, só as fragas são grandes e os eucaliptais excessivos.  

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