Diogo Oliveira, biólogo e fotógrafo de natureza, conta em entrevista à Wilder porque decidiu fazer o novo Guia de Fauna de Lisboa e tudo o que nele podemos encontrar.
Com mais de 700 fotografias e informações distribuídas por mais de 280 páginas, o novo Guia de Fauna de Lisboa dá-nos a conhecer aves, mamíferos, anfíbios, répteis, peixes, artrópodes e outros animais que vivem nesta cidade, que “alberga uma diversidade de fauna extraordinária”, nota o autor, que fala também sobre os desafios que teve com esta obra e sobre as novidades que está a preparar para breve.
Como é que surgiu esta ideia de lançar um Guia de Fauna de Lisboa?
Diogo Oliveira: Lisboa foi a cidade onde vivi a maior parte da minha vida e com a qual tenho uma ligação muito forte. Sempre me surpreendeu o facto de existir tão pouca informação acessível sobre a biodiversidade da cidade. Muitas pessoas associam Lisboa apenas ao património histórico e cultural, mas a verdade é que alberga uma diversidade de fauna extraordinária, muitas vezes desconhecida até pelos próprios habitantes. É também uma forma de devolver à cidade um pouco daquilo que ela me deu ao longo dos anos.
A que públicos se destina?
Diogo Oliveira: A todos os que gostam de natureza, desde curiosos e famílias até observadores e fotógrafos de vida selvagem, e ainda estudantes, quer estejam no secundário ou num curso superior. Embora esteja focado em Lisboa, muitas das espécies apresentadas podem ser observadas noutras regiões de Portugal.
Quantas espécies estão neste livro e como é que foram selecionadas?
Diogo Oliveira: O guia inclui apenas 224 espécies, isto porque a lista total de espécies registadas para Lisboa ultrapassava as 1500. E por isso, a seleção baseou-se nas espécies mais comuns e fáceis de observar. Uma vez que o guia se centra apenas na cidade de Lisboa, deixando de fora as zonas periféricas, dei prioridade às espécies que qualquer pessoa tem uma probabilidade realista de encontrar em parques e jardins. O guia tem mais de 700 fotografias, com uma média de três fotografias por espécie.

E porque é que as plantas não estão incluídas?
Diogo Oliveira: Isso deve-se à enorme biodiversidade existente. A realidade é que existem muitas mais espécies do que a maioria das pessoas imagina e, estando limitado a menos de 300 páginas, acabei por ter de deixar inúmeras de fora, sobretudo de invertebrados. Se incluísse também a flora, teria de fazer uma seleção demasiado simplificada. Considero que a melhor solução seria criar um livro dedicado exclusivamente às plantas, e espero conseguir avançar com esse projeto no futuro.

O que podemos encontrar sobre cada uma das espécies de animais retratadas neste livro?
Diogo Oliveira: Procurei que o guia tivesse informações detalhadas sobre cada espécie. Cada uma tem uma página dedicada, em formato de ficha, onde o primeiro nome que surge é o nome científico. Acho que o público deve começar a familiarizar-se com esses nomes, pois são o que nos permite realmente identificar. O nome comum pode variar bastante e levar a erros, enquanto o nome científico é único no mundo para aquela espécie. Algumas espécies diferentes de aves, por exemplo, podem ter o mesmo nome dependendo da região do país onde estamos.
As fichas foram desenhadas para fornecer informações sobre a biologia e a morfologia de cada animal, de forma a que o leitor o consiga identificar. A cada espécie, foi adicionada uma lista de espécies semelhantes, que irá ajudar quem lê a não confundi-la com outras.
Em cada página, existe ainda uma pequena lista de detalhes que considero importantes e que foram sintetizados. Aí, podemos encontrar um calendário com informações dos meses em que esse animal se encontra em reprodução ou os meses em que pode ser observado. Existem informações sobre o comprimento, o peso, sobre a ocorrência da espécie em Portugal, sobre a sua longevidade, sobre a sua alimentação, e por fim, temos uma lista de hotspots onde será mais fácil observá-la.

São todas espécies comuns e fáceis de encontrar? Fiquei curiosa, por exemplo, quanto à enguia ou às cobras e a outros animais mais esquivos…
Diogo Oliveira: Na maioria dos casos, sim. Embora algumas requeiram um esforço maior por parte do observador, como é o caso das cobras que são mais discretas e difíceis de encontrar.
Diria que metade das espécies no guia são fáceis de observar. O objetivo era compilar num guia as espécies que um observador atento ou um biólogo pode encontrar com relativa facilidade, e ajudar o público a distingui-las. Não queria apenas mostrar os animais que toda a gente vê diariamente, como os pardais e os melros, mas revelar toda a riqueza escondida da fauna de Lisboa. Queria ainda ajudar o público a reconhecer algumas espécies que observam nos seus passeios e que acabam por confundir com outras mais abundantes; ou seja, acabar com o mito de que tudo é pardal ou melro.
No caso da enguia, estas podem ser observadas em zonas rochosas das margens do rio Tejo. Com alguma paciência, conseguimos observar uma. Quanto às cobras não são difíceis de observar, só temos de estar mais atentos. Já assisti a casos de uma cobra num muro de pedra a apanhar sol, com centenas de pessoas a caminharem ao lado e ninguém a dar por ela. E são animais que desempenham um papel fundamental no controlo de pragas citadinas, como é o caso dos roedores.

Quais foram os maiores desafios na elaboração e na produção deste guia?
Diogo Oliveira: Em primeiro lugar, a falta de apoio. Acho que esse será sempre o maior desafio em Portugal quando falamos de ambiente, de conservação e de espécies. Quando comecei a estudar biologia, lembro-me de que existiam diversas publicações sobre animais, que foram livros que fui comprando e adicionando à minha coleção. Os anos foram passando e notou-se um desinvestimento nestes guias por parte das entidades responsáveis pela preservação e conservação em Portugal. Estes livros ajudam a aproximar as pessoas da natureza. Quando deixam de existir, criam uma lacuna no conhecimento das novas gerações.
O segundo desafio foi, sem dúvida, a seleção das espécies. Quando começamos a explorar a biodiversidade de uma região, percebemos rapidamente que é impossível incluir tudo num único volume.
Quanto custa e como é que se pode adquirir?
Diogo Oliveira: Este guia encontra-se em duas línguas, um escrito em português e outro em inglês, com os títulos Guia de Fauna de Lisboa e Lisbon Wildlife Guide. Ambos têm um preço de 35 euros.
Sendo um biólogo preocupado com o ambiente, algo que sempre me fez confusão era a impressão de grandes volumes. Não só por causa do espaço necessário para guardar aquela quantidade de livros, usualmente 1000 exemplares, como também a dificuldade em vendê-los a todos. Nalguns casos, acabavam por ficar esquecidos num armazém, a ganhar pó ou humidade, e nunca viam a luz do dia.
Por isso, procurei alternativas à tradicional impressão de um milhar de exemplares de uma só vez, e encontrei o ‘print-on-demand’, em que a gráfica apenas imprime à medida que recebe encomendas. Assim não tenho 1000 destes livros armazenados em casa. Outra vantagem é que quem viver fora de Portugal consegue também adquirir o guia, e outro detalhe é que não se vai esgotar porque não está limitado aos 1000 exemplares impressos.
O guia pode ser adquirido através da loja da ONWILD, em www.onwild.net/livros, e todos os livros encomendados através do meu site serão enviados com um autógrafo do autor. No caso de estarem a viver fora de Portugal, recomendo encomendarem através da Amazon ou do Clube de Autores.
Podem ainda encontrá-lo em eventos onde estarei presente, e em entidades parceiras que colaboram na divulgação deste livro.
Que outros guias já lançaste?
Diogo Oliveira: Este é o meu terceiro. O primeiro livro que publiquei foi o Guia de Fauna da Tapada da Ajuda, logo após terminar os meus estudos, com a ajuda de duas professoras do Instituto Superior de Agronomia (a professora Leonor Morais e a professora Sara Amâncio). O segundo foi lançado no ano passado, o Guia da Biodiversidade de Oeiras. Nesse, podem descobrir a fauna, flora, fungos, algas, entre outros grupos interessantes que podem ser observados no município.
E tens mais guias planeados para breve?
Diogo Oliveira: Tenho imensos planeados. Atualmente estou a finalizar o Guia de Fauna do Porto; o design vai ser semelhante ao de Lisboa, com ligeiras alterações para melhorar a parte visual. Vai conter mais espécies, e espécies diferentes que não se encontram na região lisboeta. Já tenho parte dos textos escritos, as fotografias selecionadas e alguns dados recolhidos. Falta compilar tudo e rever toda a informação novamente.
Entretanto estou na fase inicial do Guia de Fauna de Portugal, um livro que vai tentar mostrar os animais mais interessantes que podemos observar no país. O design vai ser completamente renovado para esta edição, de forma a conseguir mostrar o que de melhor existe por cá. Este guia deverá dar origem a duas edições, focadas no Alentejo e no Algarve.
Quero ainda criar livros dedicados à fotografia e a contar histórias com as fotografias sobre as diversas viagens que já fiz, mas esses vão ter menos informação sobre as espécies.
Acredito que existe uma enorme necessidade de aproximar as pessoas da natureza que existe à sua volta. O objetivo é continuar a criar ferramentas que ajudem a descobrir e a valorizar a biodiversidade portuguesa.
E juntamente com amigos biólogos, estamos a preparar um guia muito especial, que será o primeiro em Portugal do género… No próximo ano iremos revelar mais detalhes.