Foto: © João Santos

A história de como João Santos fotografou este lince-ibérico no Vale do Guadiana

Início

Técnico superior no Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, João Santos está envolvido na monitorização desta espécie icónica, na região do Alentejo.

“É um animal que me diz muito, não só pela raridade e pelo percurso de conservação em Portugal, mas também pelo seu comportamento discreto e difícil de observar, o que faz com que cada registo tenha sempre um significado especial”, afirmou João Santos numa entrevista escrita dada à Wilder, sobre este felino reintroduzido em 2015 no Parque Natural do Vale do Guadiana.

Quanto ao retrato que há poucas semanas fez de uma fêmea de lince, que partilhou no Instagram, faz parte de um trabalho de fotoarmadilhagem que está a realizar desde há vários meses, focado nesta espécie. “Acredito que, através da imagem, é possível criar uma ligação com as pessoas sobre o que se passa no terreno e torná-las mais conscientes da importância de cuidar e proteger estes espaços, as pessoas e as espécies que lá vivem”, sublinha.

WILDER: Há quanto tempo se dedica à fotografia de natureza?

João Santos: Desde muito cedo. Comecei por hobby aos 14/15 anos, com a influência de uma professora do ensino básico e, vivendo no interior alentejano, com grande parte do tempo passado no campo, o primeiro contacto com a fotografia surgiu através da fotografia de paisagem. O bichinho ficou e acabei por perceber que era esse o caminho que queria seguir.

Mais tarde, aprofundei esse interesse a nível académico. Sou licenciado em Fotografia e Cultura Visual e mestre em Fotografia Documental, percurso que me ajudou a desenvolver não só a parte técnica, mas também a forma como olho e penso a fotografia. A fotografia de fauna e flora apareceu depois, já numa fase posterior e de forma bastante natural, muito ligada à minha atividade profissional e ao contacto diário com a vida selvagem.

W: Faz fotografia como profissão ou acumula com outras funções?

João Santos: Atualmente trabalho como técnico superior no Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), desenvolvendo trabalho entre a ZPE (Zona de Proteção Especial) de Moura-Mourão-Barrancos e o Parque Natural do Vale do Guadiana. Embora a fotografia não seja a minha função principal, está bastante presente no trabalho que desenvolvo, sobretudo na monitorização de espécies e no registo de valores naturais. No terreno, acaba por ser uma ferramenta importante, seja no acompanhamento de espécies, no registo de ocorrências ou na documentação de habitats.

Paralelamente, também vou desenvolvendo trabalhos de fotografia fora do ICNF, numa vertente mais pessoal. Trata-se igualmente de uma forma de comunicação e sensibilização, ajudando a dar a conhecer melhor o trabalho no terreno e a aproximar as pessoas da conservação da natureza.

Fêmea de lince-ibérico (Lynx pardinus) no Parque Natural do Vale do Guadiana. Foto: © João Santos

W: Qual é a história por trás desta fotografia de lince-ibérico?

João Santos: Resulta de um trabalho de fotoarmadilhagem direcionada ao lince que tenho vindo a desenvolver ao longo dos ultimos meses, muito ligado também ao que faço no terreno no dia a dia. Numa fase inicial fazia muitas imagens de lince em contextos de reintrodução e seguimento, soltas ou momentos com maior presença humana, mas sentia que muitas vezes faltava naturalidade aos animais, e isso acabou por me levar a procurar uma abordagem mais discreta e fiel ao seu comportamento.

A fotoarmadilhagem veio permitir precisamente isso: captar o lince com a tranquilidade com que se move no seu habitat, sem interferência. A câmara foi colocada numa área com uma densidade de linces elevada, num território bem conhecido, o primeiro em Portugal a voltar a ter linces em liberdade após a reintrodução, onde a probabilidade de registo era muito alta e onde existia também o conhecimento de ser território de uma fêmea possivelmente prenha, o que aumentava a expectativa de poderem surgir também crias.

Ainda assim, nunca temos a certeza de que [o animal] vai passar exatamente no local que escolhemos, por mais bem estudado que esteja, e isso faz parte do processo. Neste caso acabou por surgir essa fêmea, o que por si só já tornou o momento especial. Fica agora a esperança de que a câmara, que continua no mesmo local há cerca de um mês até à data e que permanece ativa, possa vir a registar também algumas crias nas próximas semanas.

W: O lince-ibérico é um dos seus temas preferidos? E o que o atrai na espécie?

João Santos: Sim, sem dúvida. Antes de começar a trabalhar no ICNF, em 2018, nunca tinha visto um lince em estado selvagem. Tive a sorte de começar a trabalhar logo no Parque Natural do Vale do Guadiana numa altura em que o projeto de reintrodução ainda estava na fase inicial e de fazer parte das equipas de monitorização, o que acabou por criar uma ligação muito forte à espécie. É um animal que me diz muito, não só pela raridade e pelo percurso de conservação em Portugal, mas também pelo seu comportamento discreto e difícil de observar, o que faz com que cada registo tenha sempre um significado especial.

O que mais me atrai é precisamente essa dificuldade e o facto de ser um símbolo da conservação em Portugal, um animal que durante muitos anos esteve ausente e que hoje começa novamente a fazer parte da paisagem. Ter tido a sorte de acompanhar os primeiros passos e estar envolvido nesse processo é, para mim, um motivo de orgulho.

Reintrodução na natureza de um lince-ibérico no Parque Natural do Vale do Guadiana. Foto: João Santos / ICNF

W: Que equipamentos e técnicas utilizou?

João Santos: Para esta fotografia utilizei uma câmara DSLR dentro de uma caixa “estanque”, conectada a um sensor de movimento e com flashes externos para criar uma iluminação mais controlada, num sistema de fotoarmadilhagem bastante usado por fotógrafos de vida selvagem.

O posicionamento da câmara resulta também de um trabalho de casa, com recurso a uma rede de câmaras de fotoarmadilhagem mais convencionais, que me permite perceber melhor como os animais utilizam o território. Este tipo de setup permite ir além da fotoarmadilhagem mais tradicional, conseguindo imagens com muito mais qualidade, sobretudo ao nível da luz e da composição, mas mantendo sempre a abordagem que procuro: captar o animal de forma totalmente natural, sem “medo” da presença humana, e com um resultado mais cuidado do ponto de vista estético.

W: O resultado correspondeu às expectativas?

João Santos: Superou-as totalmente. Neste tipo de fotografia, o resultado é sempre uma incógnita até ao momento em que o vemos, nunca sabemos exatamente o que esperar. Quando colocamos a câmara no terreno conseguimos controlar o enquadramento, os ‘settings’ que achamos mais adequados, mas não decidimos por onde o animal vai passar nem a que horas, e isso influencia muito o resultado final. Ainda assim, sabemos que pode sempre ser melhor, e é para isso que continuo a trabalhar.

W: Por fim, que projetos de fotografia tem neste momento em mãos?

João Santos: Para além da fotoarmadilhagem, neste momento continuo a desenvolver vários projetos ligados à fotografia, com temáticas bastante diferentes, com um foco mais alargado no território e na forma como o vemos e valorizamos, mantendo uma ligação natural à minha atividade profissional.

Isto leva-me a ver a fotografia não tanto como uma forma de arte, mas sim como uma forma de comunicação, não só da vida selvagem mas também para dar a conhecer o território, em particular o Alentejo, seja através da astrofotografia ou da fotografia de paisagem, mostrando-o como uma região com uma qualidade e autenticidade únicas.

Acredito também que, através da imagem, é possível criar uma ligação com as pessoas do que se passa no terreno e torná-las mais conscientes da importância de cuidar e proteger estes espaços, as pessoas e as espécies que lá vivem. É esse o caminho que quero continuar a seguir no futuro.

Inês Sequeira

Trabalhei 14 anos na secção de Economia do jornal Público. Juntamente com a Helena Geraldes e a Joana Bourgard, em 2015 ajudei a fundar a Wilder, onde me sinto como “peixe na água”. Escrevo sobre plantas, animais, espécies comuns e raras, ciência, conservação, políticas ambientais e naturalistas. Aprendo e partilho algo novo todos os dias.

Não perca