Estudo liderado pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa identificou uma nova ferramenta útil para o estudo deste predador de topo, através da análise de dezenas de exemplares guardados em coleções científicas portuguesas.
Uma equipa de investigadores analisou restos de 78 exemplares de lobo-ibérico guardados em duas coleções científicas portuguesas, concluindo que através da análise de um único dente deste predador de topo, é possível obter informações relevantes sobre o tamanho corporal e o sexo de cada animal.
O lobo-ibérico, conhecido pelo nome científico Canis lupus signatus, é uma subespécie do lobo-cinzento que habita apenas na Península Ibérica, que em Portugal está classificada como Em Perigo de extinção. Estima-se que existem atualmente apenas cerca de 300 lobos em território nacional, a maioria a norte do Douro.
Publicado na revista científica The Anatomical Record, este estudo analisou o primeiro molar inferior, também conhecido como dente carniceiro, de restos de lobo-ibérico, todos eles recolhidos entre 1900 e 2006. Cerca de meia centena desses 78 estão guardados na coleção de mamíferos do Museu de História Natural e da Ciência e os restantes pertencem à coleção osteológica de referência do Laboratório de Arqueociências, também em Lisboa. Neste último, muitos dos exemplares ali presentes tinham sido recolhidos através do Sistema de Monitorização de Lobos Mortos, gerido pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas.

“Os investigadores demonstraram que o comprimento deste dente [primeiro molar inferior] pode ser utilizado para estimar a massa corporal destes animais”, resume um comunicado enviado pelo centro de investigação CE3C, ligado à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Em média, as estimativas obtidas pela equipa diferiram apenas 2,4 quilos da massa corporal real.
A análise revelou também que machos e fêmeas são muito diferentes, uma vez que os primeiros apresentam, em média, massas corporais que são 21,4% superiores às fêmeas, com base nos pesos registados pelos investigadores, e 11,6% superiores quando a massa é estimada a partir do dente. A morfometria do dente permitiu ainda distinguir machos e fêmeas com uma precisão de aproximadamente 79%.
Um dente em vez de um esqueleto completo
“O nosso estudo demonstra que um único dente pode preservar informações valiosas para a biologia, a ecologia e a evolução do lobo-ibérico, sobretudo quando não dispomos do esqueleto completo”, explica Leonardo Cotts, primeiro autor do estudo, investigador do CE3C e colaborador do Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC).
“A metodologia desenvolvida poderá ser particularmente útil no estudo de espécimes de museu e restos encontrados no campo, permitindo obter informação sobre o tamanho e o sexo dos animais sem necessidade de dispor do animal em vida ou de cadáveres completos”, salienta por sua vez o CE3C, no comunicado. A mesma abordagem, acrescenta, poderá também ser utilizada em estudos ecológicos, monitorização de populações e para a conservação do lobo-ibérico.

“Conhecer a variação do tamanho corporal entre machos e fêmeas é importante para compreender a ecologia da espécie, nomeadamente a relação entre tamanho, comportamento e utilização dos recursos”, acrescenta Maria da Luz Mathias, também co-autora do estudo, investigadora do CE3C e colaboradora do MUHNAC.
A equipa considera que a diferença de tamanhos entre machos e fêmeas pode estar relacionada com diferenças nos papéis de cada sexo, como acontece por exemplo com os lobos na América do Norte: ali, os machos tendem a lidar principalmente com a caça de presas e com interações agressivas face a outros lobos; quanto às fêmeas, embora também se envolvam na caça, passam mais tempo a cuidar das crias.
Os investigadores analisaram ainda possíveis diferenças entre lobos provenientes das regiões a norte e a sul do rio Douro – uma vez que este curso de água é considerado “uma importante barreira geográfica para o lobo-ibérico em Portugal”, refere o estudo – mas não encontraram diferenças significativas na massa corporal estimada para os machos adultos. Em comparação com outros canídeos do género Canis, o lobo-ibérico apresenta uma massa corporal média intermédia: é maior do que espécies como o coiote e o chacal, mas menor do que alguns lobos de maior porte, como o lobo cinzento canadense.
“Os resultados desta investigação ressaltam a importância dos museus para além da sua função expositiva, demonstrando o valor das coleções científicas como um património inestimável para investigações sobre a biodiversidade e a conservação”, acrescenta Leonardo Cotts.
Esta investigação foi desenvolvida através de uma parceria bilateral entre a Universidade de Lisboa e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Saiba mais.
Recorde a situação dos lobos situados a sul do Douro e o que é urgente para conservar esta população enfraquecida, numa conversa com o investigador Duarte Frade, aqui.