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Soluções: eles estão a recuperar a turfeira dos Graminhais e esta ajuda a evitar cheias

06.02.2026
leitura de 4 minutos
Turfeira dos Graminhais. Foto: Tarso Costa

A prevenção de cheias, derrocadas e enxurradas, é apenas um dos serviços prestados pela turfeira dos Graminhais, na ilha de São Miguel. Conheça o trabalho da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) que há anos cuida desta verdadeira “esponja” natural.

A turfeira dos Graminhais “esconde-se” a cerca de 900 metros de altitude no bordo norte da caldeira do vulcão da Povoação, concelho do Nordeste, na ilha açoriana de São Miguel.

Turfeira dos Graminhais. Foto: Tarso Costa

A SPEA conhece-a bem. Há mais de 20 anos que trabalha para conservar esta esponja natural. E a expressão assenta como uma luva.

Na verdade, um dos seus muitos predicados é ajudar a prevenir as cheias rápidas, muito frequentes nos Açores.

“Graças à vegetação característica, maioritariamente musgos do género Sphagnum, esta turfeira tem um efeito de retenção de água”, explicou à Wilder Tarso Costa, técnico da SPEA Açores.

O que acontece é que estes musgos, como o musgão, têm uma grande capacidade de armazenar a água das chuvas até atingir o seu ponto de saturação. Depois, libertam a água, mas muito lentamente. “Em casos de chuvas fortes, estes musgos absorvem a água que, sem eles, seria levada directamente para o rio. Assim, esta vegetação nativa ajuda a reduzir o volume e a velocidade da água nos rios”, acrescentou.

Além disso, as turfeiras como a do Planalto dos Graminhais ajudam a promover a infiltração da água nos solos, recuperando assim os lençóis freáticos.

Turfeira dos Graminhais. Foto: Tarso Costa

Internacionalmente, as turfeiras são reconhecidas como um dos principais aliados naturais contra as alterações climáticas. A sua importância sente-se em várias frentes.

O trabalho da SPEA no restauro da turfeira do Planalto dos Graminhais começou em 2009 com o LIFE Laurissilva (2009–2013), foi reforçado a partir de 2021 com o LIFE IP Azores Natura e, atualmente, decorre no âmbito do SpongeBoost. Este projeto europeu de investigação e inovação colaborativa – que decorre de Janeiro de 2024 a Dezembro de 2027 e é financiado pelo programa Horizon Europe – inclui os Graminhais como um dos sete estudos de caso na Europa.  

Além da turfeira em São Miguel, o projeto selecionou turfeiras em Espanha, Bélgica, Alemanha e Estónia. A ideia é comparar o antes e o depois das intervenções, monitorizar os efeitos do restauro das turfeiras e testar soluções baseadas na natureza com potencial de replicação noutras turfeiras europeias.

Medidas de restauro

Uma das coisas que tem sido feita para recuperar esta turfeira e a vegetação natural local é a remoção de espécies invasoras ou que não são as mais indicadas, como é o caso da silva-brava, do capim, do junco e da criptoméria (Cryptomeria japonica), espécie nativa do Japão e da China, plantada há décadas junto às linhas de água. Estas, por exemplo, formam muito ensombramento o que não permite o desenvolvimento das plantas nativas.

Outra espécie exótica, a gigante (Gunnera tinctoria) é, segundo Tarso Costa, uma das mais problemáticas para a turfeira e todos os anos são retiradas muitas dezenas de quilos desta espécie.

No lugar destas espécies estão a ser plantadas espécies nativas, mais favoráveis à promoção da infiltração das águas nos solos, por exemplo.

Outra medida é a criação de diques, ou seja, pequenas barreiras no leito de rios e ribeiras da região. Estes retêm a água e os sedimentos, ajudando a reduzir a velocidade da água.

Turfeira dos Graminhais. Foto: Filipe Figueiredo

A equipa tem transplantado pequenas bolsas de musgo nativo que, depois, vai proliferar e reforçar o papel das turfeiras.

Todo este trabalho tem impactos também no turismo local. “A maioria das pessoas que vem a São Miguel vem pelo turismo de natureza e hoje há mais de cem empresas na região ligadas ao turismo”, lembrou Tarso Costa. A economia local do Nordeste beneficia também das acções de restauro da turfeira, que envolvem 16 pessoas actualmente.

Ainda assim, acrescentou o especialista, o restauro ecológico que está a acontecer na região, mais perto das nascentes, deveria ser feito também mais a jusante para ter um maior impacto na prevenção das cheias. E deveria acontecer em outras zonas húmidas dos Açores, como na zona das Sete Cidades.

De momento, a SPEA também está a trabalhar no restauro de outra micro bacia hídrica com cerca de 30 hectares na Mata dos Bispos, em Povoação.

Turfeira dos Graminhais. Foto: Yasmin Redolosis

Tarso Costa enumera as medidas de restauro que ainda tem por fazer a curto prazo. “Estamos a implementar medidas de engenharia natural, como a instalação de diques no leito da linha de água, para reter águas e sedimentos, desacelerar a rapidez da água e criar um meio para a vegetação natural. Além disso temos de instalar paliçadas nas margens dos rios e ribeiras para reduzir a erosão e acelerar a transplantação de musgo e conseguir a plantação de entre 10 a 15 mil árvores nativas dos Açores.”

O mau tempo é que não tem ajudado. “A equipa não tem conseguido ir para o terreno. Temos dois diques para construir e plantações para fazer. Mas é preciso esperar por condições meteorológicas mais favoráveis.”

O que já se sabe

Em março realiza-se nos Açores o encontro anual do projeto SpongeBoost. Até lá, ainda há muito para fazer. Mas já há dados para mostrar.

Há mais de quatro anos que a SPEA mantém na turfeira do Planalto dos Graminhais um sistema de monitorização hidrológica com sensores. Estes medem a precipitação, a água armazenada e o caudal da Ribeira da Achada, recolhendo dados para compreender como a turfeira responde aos eventos extremos de chuva.

Esta informação já deu origem a uma dissertação de mestrado (pela Universidade Técnica da Renânia do Norte-Vestfália em Aachen, Alemanha) que demonstrou que o restauro permite reter mais água, libertá-la de forma mais gradual e reduzir o risco de cheias a jusante, reforçando a adaptação às alterações climáticas. 

“Após anos a monitorizar o funcionamento das turfeiras, já temos dados científicos que reforçam a importância da turfeira na redução dos riscos de cheias e que nos dizem que as turfeiras são verdadeiras ‘esponjas’ da paisagem e importantes reservatórios de carbono e água, essenciais para enfrentar um clima cada vez mais instável”, salientou Tarso Costa.  

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

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