O GPS é uma das ferramentas mais utilizadas para monitorizar abutres e para ajudar a definir acções de conservação. A Fundação para a Conservação dos Abutres (Vulture Conservation Foundation, VCF) explica porque investe tanto nesta técnica.
Por todo o mundo, as espécies de abutres estão em declínio por causa do envenenamento, perda de habitat, colisão com infra-estruturas energéticas e caça ilegal. Para responder a estas ameaças e implementar medidas eficazes de conservação, os conservacionistas precisam conhecer os hábitos e a ecologia dos abutres, e ainda quais os locais onde estão em maior risco.
O GPS ou transmissor por satélite consegue registar vários tipos de informação sobre um determinado abutre: a sua posição, temperatura e movimentos (como a direcção, a velocidade e a altitude do voo).

A partir destes dados, os investigadores conseguem mapear os movimentos e hábitos diários dos abutres – como os locais preferidos para se alimentarem ou descansarem – e registar os seus comportamentos. Segundo a VCF, é possível saber quando um abutre se está a alimentar ou quando está em dificuldades, simplesmente com a informação transmitida pelo GPS.
Graças a estes dispositivos, os investigadores conseguem conhecer as rotas migratórias, locais de alimentação e de descanso destas aves, identificar as zonas de maior risco de envenenamento, electrocussão ou destruição do habitat e monitorizar os abutres reintroduzidos ou reabilitados e garantir que estão bem. Também conseguem resgatar abutres doentes ou feridos, dado que estes se movimentam de forma diferente em relação aos abutres saudáveis.
Foi no início dos anos 1990 que os investigadores começaram a colocar dispositivos GPS em aves de grande porte, como os abutres. Ao longo dos anos, esta técnica evoluiu e hoje há aparelhos recarregados a energia solar, o que os torna mais pequenos e leves, adequados a espécies de aves mais pequenas. Estes GPS podem seguir as aves durante três ou quatro anos ou até durante mais tempo.
Ainda assim, nem todos os abutres podem levar um dispositivo GPS. “De cada vez que um abutre é seleccionado para levar um dispositivo GPS é feita uma avaliação da condição da ave por uma equipa de especialistas”, explica a Fundação. É preciso que esteja de perfeita saúde. Como regra geral, o GPS não deve pesar mais do que 5% do peso corporal da ave. O que não constitui impedimento no caso dos abutres. Isto porque hoje, o dispositivo GPS mais pesado tem cerca de 50 gramas e o abutre mais leve, o abutre-do-egipto (Neophron percnopterus), pesa entre 1.6 e 2.1 quilos.
Capturar um abutre adulto não é fácil e há alguns riscos envolvidos. Por isso, a maioria dos abutres que são equipados com dispositivos GPS na natureza são juvenis no ninho, antes de saberem voar. Em projetos de translocação, os abutres são equipados enquanto estão em cativeiro, antes de serem libertados na natureza. Como o que aconteceu em Março deste ano com seis abutres-pretos libertados no Douro Internacional.
A colocação de um dispositivo GPS nas costas de um abutre é um processo indolor para a ave e é feito de forma a manter toda a flexibilidade das suas asas.
Entre os maiores desafios desta técnica estão, segundo a Fundação, a perda dos dispositivos e o seu mau funcionamento.
Mas, no final do dia, a colocação de dispositivos GPS “revolucionou a conservação dos abutres, oferecendo uma janela para a vida destas aves e para as ameaças que enfrentam”, considera a VCF.