O incêndio de Vouzela, que já é tido como o maior incêndio de 2026 no país, varreu a Reserva Botânica do Cambarinho, o berço da conservação da flora portuguesa. LPN e Sociedade Portuguesa de Botânica pedem uma avaliação urgente dos impactos e a criação de uma zona tampão que afaste os eucaliptos de um dos principais núcleos de rododendro do país.
Todos os meses de maio, um pequeno vale encaixado na serra do Caramulo transforma-se num dos mais impressionantes espetáculos botânicos de Portugal. Ao longo da ribeira do Cambarinho, centenas de rododendros (Rhododendron ponticum subsp. baeticum), conhecidos localmente por loendros, cobrem as margens com milhares de flores rosadas e lilases, atraindo visitantes, fotógrafos e amantes da natureza.

Foi precisamente este santuário botânico, no concelho de Vouzela, que voltou agora a ser percorrido pelas chamas.
Menos de dez anos depois do grande incêndio de 2017, praticamente toda a Zona Especial de Conservação (ZEC) Cambarinho, integrada na Rede Natura 2000 e no Parque Natural Local Vouga-Caramulo, foi novamente afetada por um grande incêndio.
A Liga para a Protecção da Natureza (LPN) e a Sociedade Portuguesa de Botânica (SPBotânica) emitiram hoje um comunicado conjunto onde consideram que a repetição deste cenário representa “um sério revés” para a conservação de um dos mais importantes núcleos de rododendro de Portugal e defendem uma revisão profunda das estratégias de prevenção e gestão daquele território.
As duas organizações exigem uma avaliação independente dos impactos ecológicos, a divulgação do grau de execução das medidas previstas após o incêndio de 2017, o reforço da prevenção e o início de ações de restauro ecológico e de monitorização científica.
“Não sabemos exactamente o que foi perdido, só temos uma ideia grosseira pelo mapa da área ardida que inclui a totalidade da reserva”, disse à Wilder João Farminhão, da Sociedade Portuguesa de Botânica. “Ainda não sabemos como estão as coisas no terreno. Mas sabemos que o incêndio terá passado pela totalidade da reserva, como em 2017. Há relatos de pessoas no local de que terá ardido mesmo tudo e que a situação há de ser semelhante à de 2017, quando o ICNF fez uma avaliação calamitosa em que toda a ZEC ardeu.”
Pedro Bingre do Amaral, presidente da LPN, afirma que ainda não tiveram a “oportunidade de fazer um levantamento exaustivo daquela zona. Ardeu toda a matriz da paisagem. Sabemos que ardeu toda a matriz da paisagem e que parte da galeria ripícola. Estamos confiantes de que haverá, pelo menos, alguma sobrevivência de toiças junto à galeria ripícola mas contamos fazer trabalhos exaustivos a esse respeito nas próximas semanas”.
“Foi aqui que começou a conservação da natureza em Portugal”
Para Pedro Bingre do Amaral, o Cambarinho representa muito mais do que um importante núcleo botânico.
“Se descontarmos a Reserva Ornitológica do Mindelo, a Reserva Botânica do Cambarinho é a mais antiga área protegida do país, concebida pelos Serviços Florestais na década de 1930”, lembrou à Wilder. Apesar de a Reserva Botânica só ter sido criada em 1971, em 1938 os rododendros do Cambarinho foram classificados como Imóvel de Interesse Público.

“Tem um imenso significado histórico. Se considerarmos as áreas protegidas como monumentos nacionais de natureza, este é o monumento natural número um do país”, por ter sido o primeiro.
O responsável vai mais longe: “Foi na Reserva Botânica do Cambarinho que a conservação da natureza in situ começou em Portugal.”
Por isso, considera particularmente preocupante que esta área protegida tenha voltado a arder menos de uma década depois do incêndio de 2017.
“As más notícias têm a ver com a recorrência de incêndios nesta área com períodos inferiores a uma década. O desejável seria que, a haver incêndios, eles ocorressem de 30 em 30 ou de 40 em 40 anos. Quando acontecem antes de passarem dez anos, o bosque não recupera.” Segundo explica, a repetição dos incêndios altera profundamente a dinâmica ecológica da paisagem.
“O banco de sementes vai sendo alterado em favor das espécies arbustivas que facilitam a propagação dos incêndios. Começam a predominar urzes, giestas e tojos. Entramos numa espiral negativa: quanto mais frequentemente um terreno arde, mais facilmente voltará a arder.”
Um “fóssil vivo” que está a ser posto à prova
Apesar da dimensão do incêndio, os especialistas acreditam que o rododendro irá sobreviver.
“O rododendro consegue rebentar de toiça após o incêndio”, explica João Farminhão, da Sociedade Portuguesa de Botânica, à Wilder. “A área recuperou bastante bem depois do fogo de 2017.”
Mas deixa um aviso. “Estamos a testar os limites da resiliência desta espécie. Depois de um incêndio é necessário um período de recuperação longo e, desta vez, esse período não foi cumprido.”
Também Pedro Bingre do Amaral acredita que ainda há razões para ter esperança. “O rododendro é resiliente, não haja dúvida. Mas a resiliência só vai até determinado ponto.”

O maior receio, explica, é que a vegetação envolvente se altere profundamente.
“O problema é o contexto em redor da Reserva Botânica. A vegetação tenderá a ficar dominada por espécies pirófitas e, em alguns casos, por acácias ou háqueas, que são invasoras. Isso é preocupante.”
O rododendro do Cambarinho é uma verdadeira relíquia botânica. Trata-se de uma espécie que sobrevive desde o Mioceno, há cerca de seis milhões de anos, quando um clima mais quente permitia a existência de extensas florestas de Laurissilva no sul da Europa. Hoje, a sua distribuição ficou reduzida a pequenas áreas de Portugal, do sul de Espanha e do norte da Turquia. “É um paleoendemismo. Um fóssil vivo”, resume Pedro Bingre do Amaral.
Para João Farminhão, atesta o valor do Cambarinho. “Estamos perante uma espécie com distribuição relíctica. Historicamente ocupou uma área muito maior e hoje está circunscrita a pequenas bolsas onde existiu estabilidade climática durante centenas de milhares de anos.”
Além disso, recorda, foi precisamente neste local que foi descrita cientificamente a comunidade ripícola dominada por rododendros e que nasceu, em 1971, a primeira Reserva Botânica portuguesa.
“Durante muito tempo, a história da conservação da flora em Portugal foi praticamente a história da conservação deste núcleo.”
O incêndio terá igualmente afetado outros habitats protegidos, incluindo matagais ripícolas de loureiro — considerados habitat prioritário pela Diretiva Habitats — e carvalhais galaico-portugueses, onde existem exemplares de carvalho-alvarinho de elevado valor ecológico.
A recuperação dependerá da paisagem envolvente
Os especialistas defendem que a prioridade não passa por plantar novos rododendros. “Graças a Deus que o rododendro anda aqui desde o Mioceno e não precisa de nós”, afirma Pedro Bingre do Amaral.
O essencial será controlar a invasão por espécies exóticas e restaurar o bosque autóctone em redor da galeria ripícola.

“O maior perigo que pode afetar a recuperação do rododendro é a invasão por acácias. É importante regenerar o bosque autóctone, com sobreiros e carvalhos, para reduzir o risco de novos incêndios.”
João Farminhão defende igualmente a criação de uma verdadeira zona tampão em redor da reserva.
“Se quisermos conservar este núcleo excecional a longo prazo, precisamos de privilegiar um bosque de folhosas que funcione como barreira ao fogo e afastar a floresta de produção da parte mais sensível da reserva.”
Segundo explica, atualmente essa proteção não existe e em redor da reserva predominam povoamentos de eucalipto que tenderão a regenerar após o incêndio.
Para Pedro Bingre do Amaral, o problema ultrapassa largamente os limites da reserva.
“Quando temos incêndios que ultrapassam os dez mil hectares, já não basta a área protegida estar bem mantida. Se a matriz envolvente se degrada, a própria área protegida fica em risco. Não basta um esforço individual; é preciso um esforço coletivo.”
O presidente da LPN lembra que, na mesma região, também a Mata Nacional da Penoita foi destruída em 2017 e considera que Portugal está a pagar décadas de desinvestimento na gestão florestal pública.
“Há noventa anos, os Serviços Florestais reconheceram a necessidade de proteger estas serras e fizeram um trabalho exemplar. Nós extinguimos esses serviços na década de 1990. Agora estamos a pagar a fatura dessa decisão.”
Por isso, deixa um apelo direto: “Precisamos de Serviços Florestais que voltem a prevenir incêndios, conservar a biodiversidade, ordenar a paisagem e cuidar das matas públicas.”
João Farminhão lembra que o Cambarinho não é apenas um património natural.
“É também um património biocultural. As pessoas têm uma relação muito forte com este lugar especial. Tem um enorme valor identitário e para o turismo de natureza.”
E deixa um último alerta: “O rododendro resistirá a estes ciclos de incêndios, mas a sua pujança diminuirá. Estamos a hipotecar o valor paisagístico local. É importante assumir responsabilidades e tomar medidas para conservar este núcleo excecional.”