PUB

Raridade: cinco perguntas sobre o sanhaço-de-fogo-migrador

27.02.2026
leitura de 2 minutos
Piranga rubra. Foto: Dominic Sherony/WikiCommons

A presença de uma pequena ave vermelha do continente americano no nosso país está a entusiasmar a comunidade de ornitólogos nacional e estrangeira. O Piranga rubra – passeriforme com vários nomes comuns, entre eles sanhaço-de-fogo-migrador – será o primeiro registo desta espécie para Portugal Continental. Mas que ave é esta?

Qual o nome comum desta ave?

Esta ave – descrita cientificamente pelo “pai” da taxonomia, o sueco Lineu, em 1758 – tem como nome científico Piranga rubra. No entanto, tem pelo menos três nomes comuns, segundo explicou à Wilder Gonçalo Elias, coordenador do portal Aves de Portugal. O nome indicado pela Lista dos Nomes das Aves do Mundo é piranga-vermelha. O portal eBird chama-lhe sanhaço-de-fogo-migrador e o Comité brasileiro de Registos Ornitológicos atribui-lhe o nome de sanhaço-vermelho. Nenhum está errado.

Como se pode descrever?

Segundo o site da organização norte-americana Audubon Society, esta é uma pequena ave da família Cardinalidae que mede cerca de 20 centímetros. Os indivíduos desta espécie pesam, em média, 30 gramas. Os machos adultos têm as penas de um vermelho vivo e as pontas das asas negras; as fêmeas têm tons mais amarelados ou alaranjados. Os juvenis podem ter manchas de cor amarela e vermelha. Os ovos são azuis-esverdeados, salpicados com manchas castanho-avermelhadas.

A espécie é frequentemente vista a alimentar-se no topo das árvores e a capturar insetos durante o voo. Alimenta-se principalmente de insetos, especialmente vespas e abelhas, mas também pode comer bagas.

Onde ocorre?

Esta é uma espécie de passeriforme do continente americano, região do mundo onde é considerada muito comum. Nidifica nos Estados Unidos e em partes do México e, no outono, migra para o Caribe e América do Sul para aí passar o inverno. É, por isso, uma espécie migradora. Aliás, segundo a Audubon Society, a sua área de invernada é surpreendentemente extensa, desde o Centro do México até à Bolívia e Brasil.

Como terá aparecido em Portugal Continental?

Esta é a grande questão e Gonçalo Elias considera que poderá ser impossível vir a saber ao certo qual a sua origem. Uma das hipóteses em debate é este indivíduo ter sido empurrado para Portugal por causa do mau tempo das últimas semanas. Ainda assim, lembra que esta não é a altura do ano para a migração desta espécie no continente americano, normalmente entre setembro e outubro. Nessa época é mais provável haver aves desviadas pelo mau tempo para, por exemplo, o arquipélago dos Açores, como já aconteceu. Para Gonçalo Elias, “esta é uma altura atípica”. Outra hipótese é ter fugido de cativeiro, uma vez que, segundo este ornitólogo, haverá aves desta espécie criadas em cativeiro no nosso país. Agora, este registo será avaliado pelo Comité Português de Raridades da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), organismo que homologa os registos de espécies raras, ou seja, aves que aparecem fora da sua área normal de ocorrência. “O Comité vai avaliar se a espécie foi bem identificada e se a espécie teve uma origem selvagem ou não. Mas neste caso pode vir a ser muito difícil fazer uma afirmação com 100% de certezas.”

E agora, a ave pode tentar voltar para o continente americano?

Segundo Gonçalo Elias, para uma ave vinda do outro lado do oceano Atlântico, é muito mais fácil chegar à Europa do que fazer a viagem em sentido contrário, por causa da direcção dos ventos. Ainda assim, recorda que já tem havido casos de gaivotas que o conseguiram fazer. Mas estas aves marinhas terão mais facilidade em sobrevoar áreas oceânicas do que os passeriformes. “Diria que será muito difícil, ou quase impossível, para esta ave encontrar o caminho de volta. Provavelmente, se encontrar em Portugal condições de sobrevivência, vai permanecer por aqui.”

Helena Geraldes

Sou jornalista de Natureza na revista Wilder. Escrevo sobre Ambiente e Biodiversidade desde 1998 e trabalhei nas redacções da revista Fórum Ambiente e do jornal PÚBLICO. Neste último estive 13 anos à frente do site de Ambiente deste diário, o Ecosfera. Em 2015 lancei a Wilder, com as minhas colegas jornalistas Inês Sequeira e Joana Bourgard, para dar voz a quem se dedica a proteger ou a estudar a natureza mas também às espécies raras, ameaçadas ou àquelas de que (quase) ninguém fala. Na verdade, isso é algo que quero fazer desde que ainda em criança vi um documentário de vida selvagem que passava aos domingos na televisão e que me fez decidir o rumo que queria seguir. Já lá vão uns anos, portanto. Desde então tenho-me dedicado a escrever sobre linces, morcegos, abutres, peixes mas também sobre conservacionistas e cidadãos apaixonados pela natureza, que querem fazer parte de uma comunidade. Trabalho todos os dias para que a Wilder seja esse lugar no mundo.

Não perca