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Vasco Valadares fez centenas de quilómetros para ver uma das aves mais raras que alguma vez apareceu em Portugal

27.02.2026
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Piranga rubra no Parque de Serralves, Porto. Foto: Vasco Valadares

Temos neste momento em Portugal (Porto) provavelmente a ave mais rara que já apareceu no nosso país. É o sanhaço-de-fogo-migrador (Piranga rubra). Tive a felicidade de o ver e fotografar e acompanhei a história curiosa de como se deu com ele.

No passado sábado, 21 de fevereiro, uma pequena multidão “invadiu” um bairro residencial junto à Avenida da Boavista, no Porto. O motivo? Aquela que pode muito bem ser a ave mais rara alguma vez registada em Portugal Continental: o sanhaço-de-fogo-migrador — Summer Tanager (Piranga rubra).

Piranga rubra no Parque de Serralves, Porto. Foto: Vasco Valadares

Tudo começou dias antes. A 18 de fevereiro, o observador Eric Thomassen divulgou que uma ave classificada como “MEGA” — termo reservado a raridades absolutas — teria sido vista por um não especialista no dia 1 de fevereiro. A notícia caiu como uma bomba na comunidade do birdwatching nacional.

Um macho adulto em plumagem nupcial, vermelho intenso, quase irreal, no meio de um bairro residencial do Porto? Como era possível?

Seguiu-se o delírio coletivo. Google Maps aberto, Street View ampliado ao máximo, comparações milimétricas. As janelas coincidiam? Os fios elétricos batiam certo? A árvore ainda lá estava? Seria fuga de cativeiro? Existem criadores da espécie em Portugal? As teorias multiplicavam-se. A expectativa crescia.

Nos dias seguintes, alguns observadores locais ainda percorreram a zona, sem sucesso. Até que, na manhã de dia 21, surge nova informação: a ave reapareceu muito perto do local original. A notícia espalhou-se num instante. Birdwatchers vindos do Porto, de Aveiro, e de mais longe ainda, acorreram ao local. Muitos dos “twitchers” (pessoas que vão atrás de raridades) habituais passaram o dia inteiro na zona. Resultado? Um grande falhanço coletivo, a ave não apareceu mais.

Mesmo sabendo disso, no dia seguinte saí de Lisboa às cinco da manhã. Comigo foi um amigo inglês que estava de visita e pelo caminho apanhámos o “guru” do birdwatching nacional, Pedro Ramalho que, apesar de ter ido ao Porto e não ter conseguido ver a ave no dia anterior, não resistiu à minha insistência e à promessa de almoçar uma francesinha no Porto para comemorar o avistamento.

A manhã foi longa. Quintais privados escrutinados à distância, todos os ramos de árvore com potencial para a ave pousar foram inspecionados. Céu varrido palmo a palmo, não fosse a ave passar a voar por cima de nós. Chamamentos reproduzidos na esperança de resposta. Nada. Um a um, os observadores iam desistindo. Vindos do Porto, de Aveiro, de Lisboa. A frustração era geral.

De cabeça baixa, fomos cumprir a promessa gastronómica. Depois da francesinha, pedi a carta de sobremesas na esperança de que o açúcar ajudasse a moral. Segundos depois, chegou a mensagem: a ave foi vista nos jardins da Fundação de Serralves.

Piranga rubra no Parque de Serralves, Porto. Foto: Vasco Valadares

Saltámos da mesa, corrida até à caixa para pagar o almoço e saída a correr para o carro. Voámos pelo trajecto até Serralves, o tradicional drama de estacionar e entrada a voar pelos portões. Corrida até à caixa, para pagar os 12 euros de entrada no jardim.

Já dentro do parque, enquanto entrávamos em passo apressado, delineámos estratégia militar: separar, cobrir terreno, comunicar ao primeiro sinal. Começámos “eu vou por aqui, tu por ali e ele por ali” damos a volta a isto e cobrimos mais terreno.

Mas não foi preciso. Ao contornarmos a primeira árvore, a ave estava em voo. Vermelho vivo contra o verde do parque. Pousa num ramo seco. A estratégia morreu ali mesmo. Grito pelos meus amigos. Conseguimos excelentes vistas. E que espetáculo.

Voava curtas distâncias, capturando insetos no ar. Apanhava vespas e, com precisão cirúrgica, raspava-as nos ramos para remover asas e ferrões antes de as ingerir. Repetiu o processo muitas vezes e durante bastante tempo. Tempo suficiente para que o pessoal que desistiu voltasse ali para ver a ave. Perante mais de uma dezena de observadores incrédulos e as câmaras a disparar, os curiosos iam passando e perguntavam: “Mas afinal o que é que estão a ver?”. 

Piranga rubra no Parque de Serralves, Porto. Foto: Vasco Valadares

Foi um dia longo. Intenso. Memorável. Estamos a falar de uma ave americana que nidifica nos Estados Unidos e inverna na América Central e do Sul. Como veio parar aqui? Uma possível explicação aponta para as recentes tempestades no Atlântico, que poderão tê-la capturado em rota migratória e empurrado para o lado de cá do oceano, mas isso talvez nunca se saiba. Sobreviveu à travessia. Sobreviveu ao mau tempo que assolou Portugal nas últimas semanas. E ali estava ela, vibrante, ativa, em plena forma.

Já vieram vários “WP listers”, observadores dedicados a registar todas as espécies do Paleártico Ocidental (em inglês, Western Palearctic), e mais são esperados em breve.

O interesse por esta ave (para além da sua beleza!) explica-se pela sua raridade: antes deste registo, foram registadas apenas quatro aves destas no WP, todas no Outono, uma na década de 50 no Reino Unido, as outras três na Ilha do Corvo, a última das quais em 2011.

Raridades e histórias assim lembram-nos porque fazemos centenas de quilómetros, perdemos horas de sono e insistimos quando tudo parece perdido. Porque, às vezes, a recompensa é vermelha (mesmo numa cidade onde é o azul que reina).


Vasco Valadares, tem 48 anos e é geólogo. Começou a ver aves esporadicamente em 2014 e com mais dedicação a partir de 2019. Hoje tem 467 espécies de aves observadas em Portugal (incluindo Madeira e Açores) e mais de 700 no mundo.

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