Dos “duches” dados pelas cegonhas às crias aos abutres-pretos que fazem sombra aos juvenis durante semanas, as aves recorrem a várias estratégias para enfrentar as temperaturas extremas. Mas nem todas conseguem sobreviver.
As ondas de calor que têm atingido Portugal representam um desafio crescente para a fauna selvagem.
Embora algumas espécies estejam relativamente adaptadas a viver em regiões quentes e secas, como o Baixo Alentejo, a maioria das aves não está preparada para enfrentar episódios prolongados de temperaturas extremas, sobretudo quando estes coincidem com a época de reprodução.

Enquanto grande parte do país enfrenta temperaturas acima dos 40 ºC, há ninhos onde a sobrevivência depende literalmente da sombra feita pelos pais. No cimo das árvores, os abutres-pretos estendem as asas para proteger as suas crias do sol. Nos campanários e edifícios agrícolas, as cegonhas dão-lhes “duches”. E nas pequenas cavidades onde nidificam os francelhos, algumas crias acabam por saltar para o vazio numa tentativa desesperada de fugir ao calor.
“O stress térmico pode provocar níveis elevados de mortalidade”, explica à Wilder Inês Catry, investigadora do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C), na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Quando a temperatura corporal ultrapassa a capacidade de regulação do organismo, as aves podem morrer por hipertermia, um fenómeno semelhante ao golpe de calor nos seres humanos.
Vários estudos realizados na Europa têm documentado episódios de mortalidade em massa durante períodos de calor extremo. Mas os efeitos nem sempre são directos. “Este calor pode ainda afetar, de alguma forma, as presas das quais as aves se alimentam. Se houver um impacto sobre as presas, certamente haverá um impacto sobre os predadores.”
Menos actividade para evitar o calor
Tal como acontece com as pessoas, muitas aves alteram o seu comportamento quando o calor aperta.
Trabalhos desenvolvidos por Inês Catry e pela sua equipa com sisões e peneireiros-comuns mostraram que estas espécies reduzem significativamente os períodos de actividade quando a temperatura ultrapassa determinados valores. Em vez de continuarem a alimentar-se ou a caçar durante as horas mais quentes, procuram locais onde possam reduzir a exposição ao calor.

Nos peneireiros-comuns (Falco tinnunculus), os investigadores observaram um aumento do tempo passado à sombra de árvores. Os sisões (Tetrax tetrax) também recorrem a zonas com arbustos ou árvores, que funcionam como pequenos refúgios climáticos na paisagem agrícola do sul do país.
Esta estratégia ajuda a evitar o sobreaquecimento, mas tem custos. Ao passarem menos tempo à procura de alimento, as aves podem não conseguir obter energia suficiente para sobreviver. O problema torna-se ainda mais grave durante a época de reprodução, quando os adultos têm de alimentar as crias. Menos tempo de caça significa menos alimento transportado para o ninho.
Cegonhas dão “duches” às crias
Algumas espécies desenvolveram estratégias particularmente curiosas para combater o calor.
As cegonhas-brancas (Ciconia ciconia), por exemplo, transportam água para o ninho com maior frequência durante os dias mais quentes e deixam-na cair sobre as crias, proporcionando-lhes uma espécie de “duche” que ajuda a reduzir a temperatura corporal.
Os adultos recorrem ainda a um mecanismo conhecido como urohidrose: excretam uma mistura de fezes e urina sobre as próprias patas. À medida que esta humidade evapora, arrefece o sangue que circula nos vasos sanguíneos superficiais das pernas, contribuindo para baixar a temperatura do corpo. Além disso, a coloração branca dos dejectos ajuda a reflectir parte da radiação solar.

As crias mais velhas também utilizam este mecanismo.
As situações mais preocupantes acontecem quando as ondas de calor coincidem com a época de reprodução.
“Se os adultos podem responder alterando o comportamento ou procurando refúgios climáticos, as crias não podem fazer isso, porque estão “presas” nos ninhos, muitas vezes expostos ao sol, e em locais apertados, como por exemplo, cavidades pequenas onde podemos encontrar quatro ou cinco crias de francelho”, explicou Inês Catry.
A situação pode ser grave porque, por exemplo, os francelhos (Falcos naumanni) “nidificam frequentemente em cavidades onde a temperatura interior pode ultrapassar a temperatura do ar”.
Os estudos conduzidos por Inês Catry mostram que, nestes ninhos, as crias enfrentam um dilema difícil: perder água para arrefecer o corpo e arriscar morrer por desidratação, ou conservar água e correr o risco de morrer por hipertermia.
A mortalidade pode ocorrer de forma directa, quando as crias sucumbem ao calor ou à desidratação, mas também indirectamente. “Há crias que acabam por saltar dos ninhos para fugir do calor e que depois no chão acabam por morrer do calor ou por predação”, contou a investigadora. “Entre os sobreviventes, muitas das crias perdem peso e acabam por sair dos ninhos em pior condição física do que em anos ‘normais’ e isso depois reflecte-se também numa menor sobrevivência a médio/longo prazo.”
Ainda assim, nem todas as espécies respondem de forma igual.
Num estudo que comparou crias de francelho e de rolieiro (Coracias garrulus), a equipa de Inês Catry verificou que os rolieiros parecem suportar melhor as temperaturas elevadas.
Uma das hipóteses prende-se com o facto de nascerem praticamente sem penas. Ao contrário dos francelhos, que nascem cobertos por penugem, os rolieiros conseguem dissipar calor com maior facilidade. Ainda assim, mesmo nesta espécie, os investigadores detectaram perda de massa corporal associada aos dias mais quentes.
Os pais transformam-se em “guarda-sóis” com asas
Em várias espécies, a melhor protecção contra o calor extremo continua a ser o cuidado parental.
Nas cegonhas, as crias não conseguem regular autonomamente a temperatura corporal até cerca dos 25 dias de idade. Durante esse período, é frequente ver um dos progenitores no ninho, mantendo as asas parcialmente abertas para lhes fazer sombra e protegê-las da radiação solar directa.

Uma estratégia semelhante é utilizada pelos abutres-pretos (Aegypius monachus). Apesar de as aves adultas ou já completamente desenvolvidas estarem bem adaptados às temperaturas elevadas típicas do clima mediterrânico, as crias são particularmente vulneráveis durante as ondas de calor que duram vários dias seguidos.
“Os ninhos de abutre-preto são construídos no topo da copa das árvores e ficam habitualmente expostos ao sol durante todo o dia”, explica Eduardo Santos, da Liga para a Protecção da Natureza (LPN), à Wilder. “É bem conhecida a perda de crias durante episódios prolongados de calor extremo, sobretudo quando os progenitores não conseguem mantê-las protegidas do sol ou suficientemente alimentadas e hidratadas.”
Para evitar o sobreaquecimento, um dos adultos permanece no ninho durante grande parte do desenvolvimento da cria, funcionando literalmente como um guarda-sol. Este comportamento prolonga-se, pelo menos, até as crias terem cerca de dois meses de idade e pode manter-se durante mais tempo sempre que as condições meteorológicas o exijam.
Segundo Eduardo Santos, esta dependência dos progenitores torna também os abutres-pretos particularmente sensíveis à perturbação humana.
“Qualquer interferência que obrigue os adultos a abandonar o ninho, mesmo que apenas durante alguns minutos, pode deixar as crias expostas ao sol directo num dia de calor intenso, colocando-as em sério risco de morte”, alerta.
Esta é uma das razões pelas quais o respeito pelas zonas de nidificação continua a ser uma das medidas mais importantes para a conservação desta espécie ameaçada.
As aves desenvolveram ao longo da evolução diversas estratégias para enfrentar temperaturas elevadas. No entanto, estas adaptações têm limites.
À medida que as ondas de calor se tornam mais frequentes, mais intensas e mais prolongadas, os custos de sobrevivência aumentam.