A aranha-reclusa chilena (Loxosceles laeta), nativa da América do Sul, foi registada pela primeira vez na Península Ibérica. A descoberta foi feita na cidade do Porto. Até agora, esta espécie tinha um número muito reduzido de registos confirmados na Europa.
O registo da Loxosceles laeta é descrito num artigo científico publicado em maio na revista científica Arquivos Entomolóxicos e assinado por Francisco Gil e José Manuel Grosso-Silva, ambos investigadores do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto.
Este trabalho documenta a presença da espécie em Portugal após a identificação de dois machos recolhidos entre setembro de 2025 e janeiro de 2026.
O primeiro exemplar confirmado foi encontrado vivo a 10 de setembro de 2025, numa parede de um edifício situado na zona do Campo dos Mártires da Pátria, no Porto.
Meses mais tarde, em janeiro de 2026, surgiu um segundo macho, desta vez já morto, numa armadilha autocolante instalada no Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto para monitorizar a entrada de potenciais pragas.
Os investigadores encontraram ainda três fêmeas do género Loxosceles na mesma área. A identificação das fêmeas até ao nível da espécie é mais difícil, mas José Manuel Grosso-Silva considera muito provável que pertençam também a Loxosceles laeta.
“Uma das fêmeas foi encontrada viva numa parede ainda em dezembro de 2024 e as outras duas apareceram nas armadilhas autocolantes em janeiro de 2026. Dada a proximidade espacial entre todos os exemplares, é razoável assumir que também se trata de Loxosceles laeta“, contou à Wilder.
Até ao momento, são assim conhecidos dois exemplares confirmados da espécie em Portugal, ambos recolhidos na cidade do Porto.
Uma viajante involuntária
Natural da costa ocidental da América do Sul – sobretudo do Chile, Peru e países vizinhos -, a aranha-reclusa chilena tem demonstrado uma notável capacidade para colonizar novas regiões através da atividade humana.
Ao longo das últimas décadas estabeleceu populações em países como Brasil, Argentina, Estados Unidos, Canadá e Austrália.
Na Europa, a sua presença sempre foi rara. O primeiro registo publicado remonta a 1972, quando exemplares foram encontrados num edifício da Universidade de Helsínquia, na Finlândia, onde sobreviveram graças às condições quentes do interior do edifício.
Mais recentemente surgiram referências à espécie na Alemanha, mas os investigadores portugueses referem que esses registos ainda carecem de confirmação científica detalhada.
Até à publicação deste trabalho, não existiam registos publicados da espécie na Península Ibérica.
Esta espécie de aranha terá chegado ao Porto devido a actividades humanas. “Não sabemos ao certo como cá chegou mas acreditamos que o mais provável é os indivíduos terem sido trazidos com embalagens ou caixas de bens importados da América do Sul.”
Pequena, discreta e pouco agressiva
Apesar de a Loxosceles laeta ser considerada uma das espécies de aranha com veneno mais potente do género, os investigadores sublinham que não há motivo para alarmismo.
“É raro esta ou outras espécies do género Loxosceles morderem humanos”, explicou José Manuel Grosso-Silva à Wilder. “Mas, quando mordem, o veneno citotóxico pode causar feridas necróticas cutâneas localizadas, de gravidade ligeira a moderada. Em casos raros, pode até desencadear uma reação alérgica sistémica.”
Segundo o investigador, tanto as lesões necróticas como eventuais reações alérgicas devem ser avaliadas por profissionais de saúde.
Apesar de tudo, esta é uma aranha discreta.
O corpo mede entre um e 1,2 centímetros, embora as patas compridas façam com que as fêmeas possam atingir cerca de quatro centímetros de “envergadura”.
Segundo José Manuel Grosso-Silva, “a sua cor é bastante discreta: tons castanho-amarelado ou castanho-avermelhado com um padrão de riscas mais escuras no dorso do cefalotórax (região anterior do corpo), que pode ou não estar presente. O abdómen tende a ser concolor ou um pouco mais claro, coberto de pelos pretos”.
No seu habitat natural, suspeita-se que ocupe entradas de grutas e cavernas, à semelhança de outras espécies do mesmo género.
Em ambientes urbanos prefere locais abrigados, como caves, garagens e armazéns, onde constrói teias irregulares. Alimenta-se de outros invertebrados, incluindo outras aranhas.
Os autores deste artigo científico não têm prevista uma campanha específica para procurar a espécie em Portugal ou Espanha, mas garantem que passarão a prestar especial atenção durante futuros trabalhos de campo.
“É seguramente uma espécie à qual vamos estar atentos, tanto na zona do Porto onde já a detetámos como nas prospeções que fazemos em geral no país”, afirmou José Manuel Grosso-Silva. “Pretendemos ir melhorando o conhecimento sobre a presença da espécie e esperamos que outros colegas possam igualmente contribuir para isso.”
Em Portugal Continental estão descritas, pelo menos, 829 espécies de aranhas. Mas o número real poderá ser bem maior.