A falta de conhecimento sobre as espécies de Portugal é um dos maiores problemas atuais da conservação da natureza. A revisão da Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e da Biodiversidade 2030, aprovada a 17 de junho, anuncia novidades para os fungos e um reconhecimento da Ciência Cidadã.
O documento, publicado em Diário da República, prevê como uma das medidas a elaboração do inventário nacional de fungos e da primeira Lista Vermelha de fungos de Portugal. Segundo a ENCBN 2030, será dada prioridade às “espécies com funções críticas (micorrízicas, decompositoras)” e às “espécies com valor económico para comunidades locais”.
A Lista Vermelha terá de estar publicada até 2030, seguindo os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).
Este trabalho, cuja entidade responsável será o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), vai contar com fundos europeus e com verba do Fundo Ambiental. Neste esforço estarão também envolvidas organizações não governamentais e investigadores científicos.
Estima-se que existam no mundo 2,5 milhões de espécies, das quais apenas cerca de 155 000 foram descritas para a Ciência.
Segundo a ENCNB, “os fungos desempenham funções insubstituíveis: mantêm a fertilidade dos solos através da decomposição de matéria orgânica morta; estabelecem associações micorrízicas com as raízes da esmagadora maioria das espécies de plantas, facilitando a absorção de nutrientes e água (condição essencial para o restauro ecológico de ecossistemas), e contribuem para o sequestro de carbono”. Apesar disso, têm sido um “grupo altamente negligenciado globalmente”.
E em Portugal também, país que ainda não tem uma lista vermelha que avalie o estado de conservação dos fungos.
Já em abril deste ano, as investigadoras Susana Gonçalves e a colega Susana Cunha tinham defendido a necessidade de Portugal elaborar uma “ista vermelha nacional, com o envolvimento de micólogos profissionais e amadores, tirando partido da ciência cidadã”.
A par dessa lista vermelha, ambas defenderam que, “para acelerar o conhecimento micológico no nosso território, é necessário assumir esta lacuna de conhecimento e financiar a investigação micológica de base, com inventariações para estabelecer a distribuição das espécies e avaliar o estado das suas populações, digitalizar as coleções de referência e construir uma base de dados adequada”.
Quanto à situação a nível nacional, e Susana Gonçalves notam que a Europa tem “uma tradição micológica considerável”, mas Portugal “carece de muita informação”, sendo que parte daquela que existe “está fechada em herbários (fungários, neste caso) cuja informação não está digitalizada”. Além do mais, o estado de conservação das muitas espécies de fungos que existem em território português está por conhecer, alertaram.
Uma Plataforma Nacional de Ciência Cidadã
A ajuda dos cidadãos para melhorar o conhecimento da biodiversidade nacional passa a ser oficialmente reconhecida e “valorizada como ferramenta transversal de monitorização” de espécies selvagens.
Até 2028, Portugal compromete-se a ter em funcionamento a Plataforma Nacional de Ciência Cidadã, resultado da criação de um programa nacional de ciência cidadã.
O objetivo é monitorizar a biodiversidade, “estabelecendo plataformas digitais inter-operáveis, protocolos de validação científica e mecanismos de integração da informação nos sistemas nacionais”.
Os dados recolhidos pela Ciência Cidadã serão integrados no novo sistema nacional de informação de espécies e habitats, a criar até 2028.
Coordenada pelo ICNF, esta iniciativa vai contar com a participação da Academia, centros de investigação, organizações não governamentais, Agência Portuguesa do Ambiente, Direcção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos, IPMA, voluntários e das plataformas existentes de ciência cidadã. Por exemplo, a plataforma Biodiversity4All reúne hoje cerca de 2.800.000 observações e 21.300 espécies diferentes registadas.
“O contributo da ciência cidadã constitui um pilar essencial e crescente para a monitorização da biodiversidade e do património natural em Portugal”, segundo o texto da Estratégia. “Cidadãos, comunidades locais, escolas e organizações não governamentais desempenham um papel cada vez mais relevante na recolha de dados sobre a distribuição e abundância de espécies, na deteção precoce de espécies exóticas invasoras, na monitorização de habitats e no registo de fenómenos ecológicos sazonais.”
A Estratégia prevê ainda o desenvolvimento de um “programa nacional de capacitação de professores e escolas para a utilização de ciência cidadã como recurso educativo, promovendo a literacia ecológica e a participação dos alunos na monitorização da biodiversidade”.
O Governo aprovou esta quarta-feira a revisão da Estratégia Nacional para a Conservação da Natureza e Biodiversidade 2030 (ENCNB 2030), o principal documento orientador para a proteção da natureza no país.
A versão original da ENCNB 2030 foi aprovada em 2018. O novo documento procura atualizar as metas nacionais à luz dos desenvolvimentos ocorridos nos últimos anos e responder às exigências de uma década considerada decisiva para travar a perda de biodiversidade.
A estratégia agora revista define 21 objetivos e mais de uma centena de medidas, distribuídas por quatro eixos estratégicos: a conservação e restauro dos ecossistemas, a integração da biodiversidade na gestão do território e das atividades económicas, a valorização dos serviços prestados pela natureza e o reforço da investigação científica e da governança.