Quando falamos de plástico no oceano, que quantidade é demasiada para as muitas criaturas marinhas que aí vivem, provocando-lhes a morte? Um novo estudo científico, liderado por investigadores da Ocean Conservancy, dá-nos respostas.
Uma equipa de sete investigadores recolheu e analisou os dados de autópsias que ligam a ingestão de plástico, e os danos resultantes no aparelho gastro-intestinal, à morte de diversas criaturas marinhas. O resultado, publicado esta semana na revista científica PNAS -Proceedings of the National Academy of Sciences, foi a quantificação de qual será a quantidade necessária para matar diferentes espécies de aves, tartarugas, baleias e golfinhos.
Dada a diversidade de plásticos que hoje em dia são consumidos e descartados, muitos deles indo parar ao mar alto, os cientistas compararam diferentes tipos deste material e concluíram quais é que provocam maiores impactos nestes animais, explica a Ocean Conservancy: desde o plástico flexível dos sacos de supermercado aos pedaços de balões, mas também pequenos pedaços de plástico rígido ou objetos inteiros, como garrafas de bebida.

Concluíram, em primeiro lugar, que muitas aves marinhas morrem devido à ingestão de porções muito pequenas. É o que sucede por exemplo com os pagaios-do-mar (Fractecula arctica), que podem ser avistados ao largo da costa portuguesa e por vezes são também aqui arrojados. Em cada 10 aves desta espécie oceânica, nove morrem se comerem uma quantidade de plástico que equivale a 90% de um dado de jogos de tabuleiro. Podemos também imaginar essa quantidade como menos do que três cubos de açúcar.

Para a andorinha-do-mar-ártica (Sterna paradisea), também chamada de garajau-do-ártico e uma fabulosa migradora, o limiar da morte é ainda menor: 80% de um desses pequenos dados. Já para os gansos-patolas (Morus bassanus), mergulhadores exímios que em Portugal são invernantes e migradores de passagem, basta o plástico equivalente a pouco mais de dois dados de jogo.

No caso de uma tartaruga-comum (Caretta caretta), é mais do que provável perder a vida se ingerir uma porção de plástico equivalente a pouco mais de duas bolas de baseball.

E quanto aos mamíferos marinhos? Nas contas dos investigadores, basta uma quantidade equivalente a 1,6 bolas de basquetebol para um golfinho-roaz quase de certeza morrer (90% de possibilidade). Mesmo os cachalotes, as maiores baleias com dentes que existem no mundo, morrem devido aos danos causados no aparelho digestivo pelo plástico no mar. Para esta espécie, bastariam menos de oito bolas de basquetebol, em plásticos, para nove em cada 10 falecerem.

“Sabemos desde há muito que criaturas do oceano, de todas as formas e tamanhos, estão a comer plásticos; o que tentámos compreender foi quanto é demasiado”, disse o primeiro autor do estudo, Erin Murphy, gestor de pesquisa em plásticos do oceano na Ocean Conservancy. “As doses letais variam de acordo com a espécie, o tamanho do animal, o tipo de plástico que está a consumir, e outros fatores, mas em geral é muito mais pequeno do que poderiamos pensar. E isso é preocupante quando sabemos que, a cada minuto, entra no oceano a quantidade de plástico que caberia num camião do lixo”, afirmou.
Para chegarem aos resultados, os cientistas da equipa analisaram as conclusões de 10.412 necrópsias, ou autópsias de animais, realizadas em diferentes locais do mundo, para as quais a causa e a data de morte eram conhecidas. Os animais estudados dividiram-se em 1537 aves marinhas, de 57 espécies; 1306 tartarugas-marinhas de sete espécies diferentes, ou seja, todas as que existem neste grupo; 7569 mamíferos marinhos, de 31 espécies.
Pegaram então em todos os dados obtidos e modelaram a relação entre os plásticos encontrados no aparelho digestivo desses animais e a possibilidade de morte em cada grupo, avaliando a quantidade total de peças de plástico e o volume deste material. A partir da informação, procuraram também perceber que tipos de plástico eram mais mortíferos para cada conjunto de espécies.
Assim, concluíram que plásticos de borracha e plásticos rígidos são especialmente letais para as aves marinhas. No caso das tartarugas-marinhas, isso acontece com plásticos maleáveis (como os sacos de fruta e de supermercado) e plástico rígidos, enquanto que para os mamíferos marinhos a maior ameaça diz respeito aos plásticos maleáveis e artes de pesca.

Quase metade estão em risco de extinção
O estudo agora publicado conclui também que quase metade dos animais que ingeriram plásticos pertenciam a espécies em risco de extinção, ou seja, classificadas como Vulnerável, Em Perigo ou Criticamente em Perigo de acodo com a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. De fora desta investigação, que tinha como alvo os macro-plásticos, ficaram plásticos ingeridos mais pequenos do que cinco milímetros e também outras causas de morte que não fossem danos provocados no aparelho digestivo, como por exemplo o enredamento em redes de pesca.
Os cientistas estimam que mais de 11 milhões de toneladas métricas de plástico entram no oceano todos os anos. Uma grande parte são plásticos descartáveis, incluindo grandes quantidades de balões, palhinhas e sacos de plástico, ou ainda garrafas, recolhidos por equipas de voluntários que limpam as praias e as margens dos rios, por todo o mundo.

Qual é a melhor forma de combater esta forma de poluição com sucesso? De acordo com as investigações que têm sido feitas, a resposta assenta em três caminhos que se devem trilhar em paralelo: reduzir a produção de plástico, melhorar a recolha e reciclagem de lixo e limpar aquilo que chega à natureza.